O que é
A montanha do Purgatório sobe de uma ilha no hemisfério oposto ao de Jerusalém, e o junco é a única planta que a ilha admite à beira da praia. As duas imagens abrem a cântica. A montanha é um caminho que se mede pelo peso e não pelo chão: pesa no começo e alivia à medida que se sobe, de modo que o fim do caminho é quando subir for tão leve quanto descer de barco a favor da correnteza. O junco é a planta que cede às pancadas da água e por isso resiste, enquanto toda outra que dê folha ou endureça é vencida. Catão manda que Virgílio cinja Dante com um junco liso e lhe lave o rosto, e o peregrino vê a planta renascer logo, igual, no mesmo lugar de onde foi arrancada.
Onde aparece
A ilha e o junco aparecem no canto I do Purgatório, quando o velho guardião manda o gesto e Virgílio o executa. O espanto de Dante é com a planta que não se esgota:
Quivi mi cinse sì com’ altrui piacque: / oh maraviglia! ché qual elli scelse / l’umile pianta, cotal si rinacque / subitamente là onde l’avelse, ali me cingiu como outro quis: oh maravilha! que, qual ele escolheu a humilde planta, tal renasceu logo, ali onde a arrancou.
A montanha é medida no canto IV do Purgatório, na resposta de Virgílio à pergunta de quanto falta:
Ed elli a me: «Questa montagna è tale, / che sempre al cominciar di sotto è grave; / e quant’ om più va sù, e men fa male. / Però, quand’ ella ti parrà soave / tanto, che sù andar ti fia leggero / com’ a seconda giù andar per nave, esta montanha é tal que sempre, ao começar por baixo, é penosa; e quanto mais se sobe, menos mal faz. Por isso, quando ela te parecer tão suave que subir te seja leve como, a favor da corrente, descer de barco.
O mesmo canto diz que a subida exige voo e não só pés, o desejo como asa:
Vassi in Sanleo e discendesi in Noli, / montasi su in Bismantova e ’n Cacume / con esso i piè; ma qui convien ch’om voli; / dico con l’ale snelle e con le piume / del gran disio, di retro a quel condotto / che speranza mi dava e facea lume, vai-se a Sanleo e desce-se a Noli, sobe-se a Bismantova e a Cacume só com os pés; mas aqui convém que se voe; digo com as asas ligeiras e as penas do grande desejo, atrás daquele guia que me dava esperança e fazia luz.
No canto XII do Purgatório a mesma lei aparece no corpo de Dante, que sobe leve e descobre com os dedos que um dos sete P já não está na testa:
e con le dita de la destra scempie / trovai pur sei le lettere che ’ncise / quel da le chiavi a me sovra le tempie: / a che guardando, il mio duca sorrise., e com os dedos da destra abertos achei apenas seis das letras que gravou aquele das chaves sobre as minhas têmporas; ao ver isso, o meu guia sorriu.
No canto XXI do Purgatório a montanha treme quando uma alma se sente limpa e se levanta para subir, e Estácio explica que a prova é só o querer:
E io, che son giaciuto a questa doglia / cinquecent’ anni e più, pur mo sentii / libera volontà di miglior soglia: / però sentisti il tremoto e li pii / spiriti per lo monte render lode / a quel Segnor, che tosto sù li ’nvii, e eu, que jazi nesta dor quinhentos anos e mais, só agora senti livre vontade de melhor soleira: por isso sentiste o terremoto e os espíritos pios pelo monte render louvor àquele Senhor, que logo os envie para cima.
O que significa
O junco é a humildade, na leitura que a tradição faz dele, e o texto a diz no adjetivo, umile pianta, a planta humilde. A montanha é o próprio processo de purgação: o peso que se sente no começo é o do vício, o alívio é o do vício que se desfaz, e o seu limite, subir sem custo, é o querer inteiro.
Duas leituras convivem para o gesto do primeiro canto. Na primeira, a humildade é a primeira condição da subida, e por isso Dante é cingido antes de pisar o monte. Na segunda, o junco é o primeiro sinal de que a montanha cura pelo que cede, não pelo que resiste, e a lição de leveza do canto IV é a mesma em outra escala. O texto dá o fato, o junco que renasce, e deixa a explicação ao leitor.