Quem é
Marco di Dio é um ex-ajudante de escultor, chegado do campo a Richieri, que aprendeu a desbastar o mármore no ateliê de um dos melhores artistas da cidade e, num dia de calor, foi apanhado num ato que o condenou para sempre (capítulo I do Livro IV). Vive com a mulher, Diamante, numa casinhola de propriedade de Vitangelo Moscarda, de cujo aluguel ninguém cobra nada. Quer ficar milionário da noite para o dia, com uma invenção que nunca chega, e planeja com a mulher, entre outras coisas, privadas inodoras para países sem água. Teme que o riso dos outros cesse, porque é o escárnio que sustenta o sonho dele. Sabe que a cidade o vê como um condenado e um excêntrico, e odiou primeiro o pai de Vitangelo, depois o filho. Onde se engana, e por quê: acredita que Vitangelo é o mesmo usurário que o pai foi, e por isso não consegue ler como outra coisa que não loucura a doação que lhe cai depois do despejo (capítulo VII do Livro IV). É também a cobaia do primeiro experimento do romance, o homem que mais odeia a família Moscarda e que mora numa casinhola de Vitangelo, o que dá ao narrador o meio do experimento (capítulo I do Livro IV).
Trajetória
No capítulo VI do Livro III, quando Vitangelo percebe que é usurário para a cidade e tolo para Dida, os olhos de Marco di Dio e de Diamante, que ele encontra todo dia no caminho de casa, lhe aparecem como quatro punhais envenenados. No capítulo VII do Livro III Vitangelo os declara, "se bem lembra", as primeiras vítimas do experimento, e logo se pergunta com que direito fala deles, dando-lhes aspecto e voz fora de si.
O capítulo I do Livro IV é a apresentação. Vitangelo pergunta ao leitor se Marco, por tantos outros atos honestos, não era também o bom rapaz que o mestre dizia, e para quem objeta que a tentação já o desmente lembra Júlio César, com a mulher Calpúrnia e o rei Nicomedes, que cabiam todos num só nome:
Il guajo è questo, sempre, signori: che dovevano tutti quanti esser chiamati con quel nome solo di Giulio Cesare, e che in un solo corpo di sesso maschile dovevano coabitare tanti e anche una femmina, o problema é sempre este, senhores: que todos eles tivessem de ser chamados com aquele único nome de Júlio César, e que num só corpo de sexo masculino tivessem de coabitar tantos e até uma mulher.
Depois de sair da prisão, Marco tramou projetos bizarros de braço com uma mulher que apareceu um dia. Dizia há dez anos que partiria para a Inglaterra na semana seguinte, carregava uma gramática inglesa sempre aberta na mesma página e fazia à mulher perguntas em inglês, a que ela respondia pronta e séria. A seriedade deles era feroz porque todos riam:
Perchè la derisione degli altri era ormai l’aria in cui quel loro sogno respirava. Tolta la derisione, rischiavano di soffocare., porque o escárnio dos outros era agora o ar em que aquele sonho deles respirava. Tirado o escárnio, arriscavam sufocar.
O pai de Vitangelo lhes dava dinheiro até certo ponto, e parava; nenhum dos que ele ajudou o chamava de usurário com mais furor que Marco. Morto o pai, esse ódio recai sobre o filho, que continua, quase sem saber, a beneficiá-lo: a casinhola é o meio de que Vitangelo precisa para o primeiro experimento.
No capítulo V do Livro IV, no banco, Vitangelo ordena a Firbo o despejo e a lista das suas casas. No capítulo VII do Livro IV, debaixo de chuva, protegido por um delegado e dois guardas, assiste ao despejo: o monte de trastes na rua, Diamante gritando imprecações da janela, os moleques dançando. Marco, ao sair, lança contra ele o macete de entalhador, e só não o mata porque o delegado o puxa a tempo. A multidão o protege. Quando o jovem do cartório do notário Stampa sobe numa mesa e anuncia a doação de uma casa na Via dei Santi, número 15, e dez mil liras para um laboratório, Vitangelo treme à espera da transfiguração aos olhos de todos:
Ero, non saprei dir come, tutto un fremito, in attesa del miracolo: la mia trasfigurazione, da un istante all’altro, agli occhi di tutti., eu era, não saberia dizer como, todo um frêmito, à espera do milagre: a minha transfiguração, de um instante a outro, aos olhos de todos.
A multidão assobia e injuria, porque ninguém entende que a doação seja dele, depois do despejo. Marco chega à casa nova seguido de gente, abre a porta com a chave do notário e vê Vitangelo encostado à parede. Salta sobre ele com um estertor feito de soluços e risos, e grita o mesmo que a multidão gritara à porta:
Perchè avevo voluto dimostrare, che potevo, anche per gli altri, non essere quello che mi si credeva., porque eu quisera demonstrar que podia, também para os outros, não ser aquilo que se acreditava que eu fosse.
No capítulo IV do Livro VII Anna Rosa conta que Marco está entre as testemunhas reunidas para a interdição de Vitangelo, junto com Turolla, e que, à objeção de Vitangelo de que a doação cairia se ele fosse declarado louco, ela ri: prometeram a Marco que ele não perderá a casa.
Temas que encarna
Marco di Dio é a prova viva da tese do Livro III, de que um ato é uma prisão. O ato de um instante o condenou para sempre, e a cidade não admite que ele seja, ao mesmo tempo, o bom rapaz que o mestre conheceu: ficou fixado na Identidade de condenado. Por isso encarna também o Dinheiro e riqueza como sonho: a riqueza instantânea, silabada de olhos arregalados, que só se sustenta enquanto os outros riem. E a Loucura como rótulo, pois no capítulo VII do Livro IV Marco e a multidão gritam a mesma palavra ao homem que acabavam de chamar de usurário: o rótulo troca, e Vitangelo continua sem um terceiro disponível.
Marco e Vitangelo são, com sinais invertidos, o mesmo caso. Um foi fixado por um ato que o condena, o outro quer provar que pode escapar do ato que a cidade lhe atribui (a usura herdada), e os dois fracassam por razões opostas: Marco porque a cidade não o perdoa, Vitangelo porque a cidade não o larga. A doação do capítulo VII do Livro IV é o ponto em que se tocam, e é por isso que o grito de Marco tem o tom de soluço e de riso: como se reconhecesse em Vitangelo o outro condenado a ser visto.
Leituras divergentes
O grito final de Marco se lê de duas maneiras. Numa, é a reação de um homem que recebe, depois do despejo, o que não esperava e não entende, e conclui por onde a cidade conclui: quem faz uma coisa dessas é louco. É a leitura que o texto dá quando faz a multidão gritar a mesma palavra à porta. Na outra, a doação tira de Marco o que o sustentava, o ódio ao usurário, do mesmo modo que a ausência do riso tiraria o ar do sonho dele (capítulo I do Livro IV): sem o inimigo que o pai de Vitangelo e depois ele próprio lhe forneciam, não resta a quem odiar. Os soluços misturados a risos do estertor apoiam as duas.
A segunda leitura explica por que Marco aparece de novo no capítulo IV do Livro VII, entre as testemunhas da interdição, mesmo com a casa prometida: quem perdeu o inimigo pode querer provar que ele sempre foi louco. O texto não diz isso, e Anna Rosa só informa que a casa é garantida e que Marco depõe. O que o livro deixa sem resposta é se o grito de Marco é uma sentença ou um agradecimento que ele não sabe pronunciar.
Relações
- Vitangelo Moscarda: o senhorio sem aluguel, a cobaia do primeiro experimento (capítulo I do Livro IV), o despejado e depois contemplado (capítulo VII do Livro IV) e o homem que ele ataca com o macete antes de gritar "louco" (capítulo VII do Livro IV).
- O pai de Moscarda: o banqueiro que lhe dava dinheiro até certo ponto e parava, e a quem ele chamou de usurário com mais furor que ninguém (capítulo I do Livro IV).
- Firbo e Quantorzo: os dois que nunca cobraram o aluguel da casinhola (capítulo I do Livro IV) e diante de quem o despejo é ordenado (capítulo V do Livro IV).
- Dida: a mulher de Vitangelo, que censura o marido por ter assistido ao despejo (capítulo II do Livro V).
- Anna Rosa: a amiga que conta a Vitangelo que Marco será testemunha na interdição e não perderá a casa (capítulo IV do Livro VII).