Quem é
Stefano Firbo é, com Quantorzo, um dos dois amigos de confiança a quem Vitangelo Moscarda entregou os negócios depois da morte do pai (capítulo I do Livro I), e figura no banco como consultor jurídico (capítulo VIII do Livro III). Vitangelo o vê, no meio da crise, como um falso corcunda: elegante, bem acabado, de pernas finas e longas como as de um pássaro, com uma corcunda que não aparece mas está no corpo todo (capítulo V do Livro IV). O que Firbo quer é proteger o crédito do banco e impor a sua leitura dos fatos aos que o cercam. O que teme é perder esse crédito para o ato insensato de um dono ausente, e por isso quer interditá-lo ou trancá-lo (capítulo I do Livro V). O que sabe é que o crédito do banco, comprometido pelo ato do dono, depende do que a cidade pensa dele (capítulo I do Livro V). Onde se engana: toma a palavra "louco" por solução, quando o que Vitangelo fez é pôr a nu o modo como cada um, Firbo inclusive, impõe aos outros o mundo que tem dentro. Esse mecanismo é o que o livro chama de subjugação, e Firbo é o primeiro a exercê-lo diante dos olhos de Vitangelo (capítulo V do Livro IV).
Trajetória
No capítulo III do Livro I Dida anuncia entre as notícias da casa que Firbo esteve lá e volta mais tarde, e no capítulo IV do Livro I ele passeia com Vitangelo, conversando, no momento em que o amigo se surpreende num espelho da rua e diz que não é nada. Firbo está ao lado quando o amigo vê um estranho passar conversando.
No capítulo VIII do Livro III, Vitangelo imagina cinco pessoas diante da casa onde nasceu, e um deles o acha imbecil por ter deixado Quantorzo diretor do banco e Firbo consultor jurídico. No capítulo I do Livro IV conta que, morto o pai, Marco di Dio continuava morando numa casinhola sua cujo aluguel nem Firbo nem Quantorzo cobravam.
No capítulo V do Livro IV, ao entrar no banco, Vitangelo encontra os empregados rindo da altercação entre Firbo e um certo Turolla, que abonou um pedido de empréstimo que Firbo recusa. Firbo sacode Turolla pelo braço e o desqualifica diante de todos. Vitangelo sente um ímpeto de rebelião e pergunta a Firbo com que direito quer se impor a outro. Firbo, atônito, lhe pergunta se enlouqueceu, e Vitangelo responde com uma injúria sobre a mulher dele, que lhe convém manter trancada no manicômio; Firbo empalidece e todos gelam. Na sala da direção, depois de pensar em Firbo como um falso corcunda, Vitangelo entende o que acaba de ver:
è qui tutto, - pensavo, - in questa sopraffazione. Ciascuno vuole imporre agli altri quel mondo che ha dentro, come se fosse fuori, e che tutti debbano vederlo a suo modo, e che gli altri non possano esservi se non come li vede lui., é aqui que está tudo, pensava eu, nesta subjugação. Cada um quer impor aos outros aquele mundo que tem dentro, como se fosse fora, e que todos devam vê-lo à sua maneira, e que os outros não possam estar nele senão como ele os vê.
Quando Firbo volta, inimigo, a exigir contas, Vitangelo se ajoelha, bate a testa três vezes no chão e diz que ele é quem devia ficar assim, diante da mulher:
Tu, non io, capisci? davanti a tua moglie, capisci? dovresti star così! E io, e lui, e tutti quanti, davanti ai così detti pazzi, così!, você, não eu, entende? diante de sua mulher, entende? é que devia ficar assim! E eu, e ele, e todos nós, diante dos assim chamados loucos, assim!
Agarrado pela lapela, forçado a olhar Vitangelo nos olhos, Firbo confessa o susto: parece-lhe louco.
No capítulo I do Livro V Firbo sustenta que é preciso trancá-lo num manicômio ou, ao menos, interditá-lo, se se quiser salvar o crédito do banco comprometido pelo despejo de Marco di Dio. Vitangelo pesa a lógica dos dois lados com a mesma frieza:
Ah, non c’è che dire, stava tutta dalla parte di Firbo la logica. Ma non stava meno, se vogliamo, dalla parte di Quantorzo, ah, não há o que dizer, a lógica estava toda do lado de Firbo. Mas não estava menos, se quisermos, do lado de Quantorzo.
No capítulo II do Livro V Dida, que ri do passatempo brutal do marido, concorda com Firbo que a brincadeira merece manicômio. No capítulo IV do Livro VII Anna Rosa conta a Vitangelo que Firbo, Quantorzo, o pai de Dida e a própria Dida reuniram provas e testemunhas para interditá-lo, entre elas Turolla e Marco di Dio.
Temas que encarna
Firbo é a Loucura como instrumento. É dele, e não de um médico, a palavra que define Vitangelo para o banco: no capítulo V do Livro IV ele a usa como pergunta e no capítulo I do Livro V como proposta de interdição, e a cidade a repete em coro no capítulo VII do Livro IV. O livro mostra que a palavra serve a quem a diz, e que o louco, para Firbo, é aquele que ameaça o crédito. É também o Dinheiro e riqueza como nome: o banco que ele protege é o nome do pai, e o que o move não é a quantia, é o que a cidade dirá.
Firbo é o personagem a quem Vitangelo se ajoelha, no capítulo V do Livro IV, e um dos que ele descreve por um defeito de corpo. O falso corcunda elegante é uma figura da Aparência e realidade: o que se vê, a elegância, e o que não se vê, a corcunda que está no corpo todo, convivem numa pessoa só, e o texto o diz de quem vê Firbo de fora, sem que Firbo o diga de si.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras de Firbo. Numa, ele é o guardião prudente do banco: Vitangelo reconhece, no capítulo I do Livro V, que a lógica estava toda do lado dele, porque o dono que se declara insipiente e se desinteressa de tudo parece mesmo um louco capaz de destruir o que o pai edificou com cautela. Na outra, é um homem ferido na vaidade e à espera de vingança: Vitangelo hesita entre a indulgência interessada de Quantorzo e o desejo de Firbo de se vingar da afronta que sofreu diante dos empregados, e a cena com Turolla, no capítulo V do Livro IV, o mostra impondo a um empregado a sua palavra sobre um terceiro.
As duas leituras valem juntas, e o que as une é que Firbo não faz distinção entre defender o banco e defender a si. Se a primeira estiver certa, a interdição é uma medida de gestão; se a segunda estiver, é o troco. O que o livro não deixa é dúvida de que a interdição, qualquer que seja a razão, chega a Vitangelo como a prova de que os outros o veem como louco, a imagem que ele desencadeou no capítulo VII do Livro IV e que não escolheu.
Relações
- Vitangelo Moscarda: o amigo de confiança que o acompanha no passeio do espelho (capítulo IV do Livro I), que ele injuria e a quem se ajoelha (capítulo V do Livro IV) e que quer interditá-lo (capítulo I do Livro V).
- Quantorzo: o outro amigo de confiança, com quem Firbo discorda sobre interditar o dono (capítulo I do Livro V) e com quem reúne provas (capítulo IV do Livro VII).
- Dida: concorda com ele que o despejo merece manicômio (capítulo II do Livro V) e figura entre os que juntam provas (capítulo IV do Livro VII).
- Marco di Dio: o inquilino cujo aluguel Firbo não cobra (capítulo I do Livro IV) e que figura como testemunha na interdição (capítulo IV do Livro VII).
- Anna Rosa: a amiga que conta a Vitangelo o que Firbo prepara (capítulo IV do Livro VII).