Um, Nenhum e Cem Mil fala de identidade: do que sobra de um homem quando se tiram dele as imagens que os outros fazem. O narrador, Vitangelo Moscarda, descobre que é um para si, cem mil para os que o conhecem e talvez ninguém, e passa o romance tentando sair desse impasse.
O assunto se desdobra nos seis temas que o livro mais trabalha. A identidade aparece como coisa que o olhar do outro constrói, do nariz à profissão do pai. A aparência e a realidade, como o fato de que cada um vive dentro da ilusão do outro, e de que a realidade não é dada, é feita. A loucura, como o nome que os outros dão a quem recusa a imagem que lhe cabe. A solidão, como a descoberta de que a consciência são os outros em nós. O dinheiro, na herança de um banco que a cidade chama de usura. E Deus, nome que Moscarda dá ao ponto em que se sente ferido.
Pirandello não trata o assunto em abstrato. O livro é um caso contado em primeira pessoa, a um leitor tratado por «senhores», com cenas e experimentos: o despejo de um homem, um tiro, uma coberta verde. A pergunta que fica é o que custa tentar ser um, e o que sobra de quem desiste de tentar.
Tudo isso nasce de uma frase curta: a de que o nariz de Moscarda, que ele nunca vira pender, pendia para a direita.