O relativismo de Pirandello, no romance, não diz que tudo vale. Diz que não existe uma realidade pronta, igual para todos e para sempre: cada um dá forma à sua, a que ele dá aos outros é verdadeira para quem a dá, e o homem se constrói como se constrói uma casa.
A ideia vai se armando. Para cada um, a sua consciência não basta, porque há a dos outros. A realidade do leitor, de Moscarda, do vizinho é uma presunção que se desfaz quando outra pessoa a vê de fora. As palavras são vazias, e cada um as enche com o seu sentido. A conclusão, na volta à cidade, é que só há realidade na forma momentânea que damos a nós, aos outros e às coisas, e que a realidade que um tem para o outro é real para ele, e não para o outro.
O Livro III diz que fatos, formas e atos são prisões: quem quer ser tem de se prender a uma forma, e cada forma cobra a pena de não poder ser outra. E o Livro VII dá o outro lado: o que os outros imaginam de nós é realmente possível, e é verdadeiro para eles. Se não nos agarrarmos à realidade que nos demos, pode acontecer de os outros nos convencerem de que a deles é mais verdadeira. É o que acontece a Moscarda com Anna Rosa.
O livro, porém, não celebra isso. Para quem vive, nenhuma realidade é mais verdadeira que outra, e todas duram um instante. Moscarda sofre, e o romance mostra o preço.