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Perguntas · Um, Nenhum e Cem Mil

Um, Nenhum e Cem Mil tem relação com o teatro de Pirandello, como Seis Personagens à Procura de um Autor?

Sim: é o mesmo assunto, tratado em romance. Pirandello escreveu Um, Nenhum e Cem Mil entre 1916 e 1926, nos mesmos anos da sua grande fase teatral, e Seis Personagens à Procura de um Autor estreou em 1921. Nos dois, a pergunta é a da identidade humana: quem somos nós.

A obra inteira de Pirandello, no teatro, no romance e nos contos, gira em torno de um único problema, o da identidade humana. Na peça, o personagem do pai formula a tese de que cada um de nós julga ser um, o que não é verdade, porque há muitos, tantos quanto as possibilidades de ser que existem em nós. É exatamente o que Moscarda mostra no Livro III, com os cinco imbecis num só Moscarda, e quando o leitor manda embora o amigo velho e, sem saber, a si mesmo.

A peça tem outra ideia que o romance leva até o fim. Uma personagem tem uma vida sua, fixa como uma pedra, e pode perguntar a um homem quem ele é; o homem, ao contrário, pode não ser ninguém. É o «nenhum» do título. Moscarda é o homem que pode não ser ninguém: as figuras que os outros lhe dão, o usurário, o Gengè, o louco, o penitente, funcionam como personagens fixos, e ele não cabe em nenhuma.

A diferença está no meio. No romance, o narrador é o próprio homem que se desfaz, e fala ao leitor enquanto se desfaz. Outro romance de Pirandello sobre o assunto, O Falecido Matias Pascal, põe um homem a inventar outro nome e a fracassar, porque ninguém vive sem documentos, sem passado e sem família; Moscarda, ao contrário, descobre que nunca foi um.

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