O que é
O número que mede a estada de Hans Castorp no Berghof: sete anos, sete mesas no refeitório, sete minutos de termômetro, sete capítulos. O narrador não o esconde, e no último capítulo comenta o próprio número.
Onde aparece
No Capítulo I, o Propósito brinca com a duração da narrativa e nega, para anunciar, os sete anos.
Fechando o Propósito, o narrador brinca com a duração da própria narrativa e antecipa, ainda que negando, a medida real da estada de Hans Castorp.Decerto não chegará - Deus me livre - a sete anos!
No Capítulo II, a infância de Hans fecha com a morte dos pais antes que ele complete sete anos.
Os pais morrem quando ele ainda é criança:
Morreram ambos no curto intervalo entre o quinto e o sétimo ano de sua vida.
No Capítulo III, o refeitório onde ele vai comer cinco vezes por dia tem sete mesas.
Havia sete mesas na sala, a maioria em sentido longitudinal e apenas duas colocadas de través. Eram mesas grandes, cada qual com capacidade para dez pessoas, se bem que nem todas estivessem completamente ocupadas.
No Capítulo V, a dúvida sobre o tempo vem contada em setes, o termômetro marca a menor unidade que ainda pesa, e a Noite de Walpurgis chega aos sete meses.
A dúvida sobre a duração vem contada em setes:
Parecia-lhe que as sete semanas que ele comprovadamente já passara com as pessoas aqui em cima não fossem mais que sete dias?
A menor unidade de tempo que ainda pesa no Berghof é a do termômetro:
esses sete vezes sessenta segundos, durante os quais se mantinha o termômetro entre os lábios, a fim de poder prolongar a curva da temperatura, tinham uma vida tenaz, e seu peso era considerável.
A seção abre pela conta:
Mais alguns dias pela frente, e foram-se sete meses que o jovem Hans Castorp passou aqui em cima.
No Capítulo VI, Joachim Ziemssen desce para o regimento depois de observar a ordem do sanatório "sete vezes setenta dias".
Ao partir, Joachim deixa uma ordem queele observara durante sete vezes setenta dias, em todas as estações, a conta do perdão em Mateus aplicada ao tempo de sanatório.
No Capítulo VII, o círculo de amigos de Hans que Pieter Peeperkorn leva à cascata tem sete pessoas, ele incluído, e a seção do trovão abre com o comentário do narrador sobre os sete anos e as sete mesas percorridas, um ano em cada.
O grupo da excursão é contado pelo narrador:
naquele pequeno círculo de amigos constituído por sete pessoas (ele próprio incluído).
O narrador comenta o próprio número dos sete anos: éum número bom, prático à sua maneira, um lapso de tempo mítico-pitoresco, pode-se dizer, e mais satisfatório para a alma que, por exemplo, uma árida meia dúzia. E fecha o ciclo nas mesas:Ele comera em todas as sete mesas da sala de refeições, aproximadamente um ano em cada lugar.
O que significa
O sete é a unidade com que o romance mede um tempo que deixou de ser contado. Lá embaixo o tempo corre em dias úteis; no Berghof ele se conta em semanas que parecem dias, em meses e em anos, e o número que dá forma a essa conta é sempre o sete, do termômetro ao ciclo inteiro. Quando o narrador chama os sete anos de "mítico-pitoresco", diz que a estada não é uma duração de calendário, mas um tempo de outro tipo, fechado e completo, como o da lenda.
Jung dá a chave desse tempo de lenda. Os Sete Adormecidos dormem numa caverna e acordam transformados, e o número, diz ele, é o sinal de que se trata de um mistério de renovação.
Jung lê o número antes da história:
O número dos sete adormecidos indica, pela sacralidade do número sete[...]que se trata de deuses transformados durante o sono, e por isso a lenda é de mistério, de renovação, não de crônica.
Hans Castorp também passa sete anos fora do tempo, numa espécie de sono na montanha, e só acorda com o trovão. A diferença é que os adormecidos voltam com eterna juventude, e ele desce para a guerra.
No conto estoniano que Jung lê, o Velho Sábio manda o menino caminhar sete anos até a grande montanha, e a montanha é a personalidade adulta.
O conselho do Velho é dado em tempo e em lugar:
O Velho aconselhou-o a continuar caminhando tranquilamente, sempre em direção leste onde, depois de sete anos, alcançaria a grande montanha cujo significado é a sua boa sorte.Jung lê a imagem:e altura da montanha aludem à personalidade adulta.
O romance de formação de Mann inverte o conto: Hans chega à montanha primeiro e passa nela os sete anos, entre dois mestres, Lodovico Settembrini e Leo Naphta, que disputam o papel do Velho. Se a montanha o fez adulto, o livro não diz; diz só que ele desce.
As idades encaixam na conta. Hans chega a Davos com vinte e dois anos, já no quarto setênio, passado o terceiro, que fecha aos vinte e um, e as três semanas da visita são os "vinte e um dias" que o texto nomeia duas vezes. Somados os sete anos, ele desce com uns vinte e nove, no começo de outro setênio. O livro não fala em ciclos de vida, e a idade da saída é dedução; a leitura é de quem anota, apoiada no peso que o próprio narrador dá ao número.
O narrador dá a idade na chegada a Davos uma vez, ao fim da formação (no capítulo III o próprio Hans, febril, erra a conta e diz a Settembrini que está no vigésimo quarto ano):
Quando empreendeu a viagem, durante a qual travamos conhecimento com ele, ainda não completara vinte e três anos.Tem, portanto, vinte e dois.
A conta dos setênios é antiga. Sólon divide a vida em dez períodos de sete anos, e o quarto, que começa depois dos vinte e um, é o da força.
τῇ δὲ τετάρτῃ πᾶς τις ἐν ἑβδομάδ’ ἐστὶν ἄριστος ἰσχύν(vv. 7-8), no quarto setênio cada um está no auge da força.
Fílon, que preserva o poema, dá o nome do sete: é o número "que leva a termo", porque nele as coisas se completam.
Καλεῖται δ’ ἡ ἑβδομὰς ὑπὸ τῶν κυρίως τοῖς ὀνόμασιν εἰωθότων χρῆσθαι καὶ τελεσφόρος, ἐπειδὴ ταύτῃ τελεσφορεῖται τὰ σύμπαντα.(§ 102), quem usa os nomes com propriedade chama a hebdômada também de "a que leva a termo", porque é por ela que todas as coisas chegam a termo.
E no mesmo excurso registra que, na medicina antiga, a febre se decide no sétimo dia, o que dá outro peso aos sete minutos do termômetro.
ἑβδόμῃ μάλιστά πως ἡμέρᾳ διακρίνονται· δικάζει γὰρ ἀγῶνα τὸν περὶ ψυχῆς(§ 125), as febres contínuas se decidem sobretudo no sétimo dia, porque ele julga a luta pela vida.
O Levítico conta o tempo da terra em sete vezes sete anos, e santifica o ano seguinte, o primeiro do ciclo novo.
Santificareis o quinquagésimo ano e publicareis a liberdade na terra para todos os seus habitantes. Será o vosso jubileu. Voltareis cada um para as suas terras e para a sua família.
O modelo épico dos sete anos fora do tempo é Odisseu em Ogígia: sete anos parados ao lado de Calipso, que lhe oferece a imortalidade, e a partida só no oitavo. Hans Castorp passa os seus sete anos à espera de Clawdia Chauchat, que parte depois da Noite de Walpurgis, volta com Peeperkorn e parte de novo, e é a guerra, não uma ordem dos deuses, que o tira da ilha.
ἔνθα μὲν ἑπτάετες μένον ἔμπεδον, εἵματα δʼ αἰεὶ δάκρυσι δεύεσκον, τά μοι ἄμβροτα δῶκε Καλυψώ· ἀλλʼ ὅτε δὴ ὀγδόατόν μοι ἐπιπλόμενον ἔτος ἦλθεν(7.259-261), ali fiquei sete anos sem me mover, e sempre banhava de lágrimas as vestes imortais que Calipso me dera; mas quando, girando, chegou o oitavo ano.
Relações
- Temas-padrão: Tempo e Formação.
- Símbolos vizinhos: o termômetro, a menor unidade do sete, e o relógio, o tempo de baixo.
- Personagens: Hans Castorp, Joachim Ziemssen, Pieter Peeperkorn.