O tema na obra
O poema abre com uma traição que serve de espelho. Zeus lembra Egisto, que matou Agamêmnon e tomou a mulher dele mesmo depois de avisado por Hermes (Canto I). Nestor conta como Egisto conquistou Clitemnestra (Canto III), e Menelau repete a cilada que Proteu lhe descreveu, o vigia pago e os vinte homens escondidos no banquete (Canto IV). No Canto XI, o próprio Agamêmnon conta, no Hades, que foi morto à mesa, como um boi na manjedoura, e aconselha Odisseu a não ser brando com a mulher, abrindo uma exceção para Penélope.
A lealdade vem de baixo. Mentor censura o povo de Ítaca, que cala diante de poucos pretendentes, esquecido do rei que governou como um pai (Canto II). Eumeu construiu o pátio dos porcos por conta própria, acolhe o mendigo por temor de Zeus sem acreditar no que ele diz e reza pelo retorno do senhor (Canto XIV). No Canto XX, o boieiro Filécio diz que ainda espera a volta do senhor, e a serva mais fraca do moinho, a única ainda trabalhando, pede que seja o último banquete dos pretendentes. No Canto XXI, Eumeu e Filécio pedem aos deuses a volta de Odisseu, e ele se revela a eles.
Penélope é o centro da dúvida. Antínoo a acusa de dar esperanças a todos com mensagens enquanto pensa em outra coisa (Canto II), Atena repete a frase como informação (Canto XIII), e Agamêmnon, no fim, louva o bom juízo dela e a fidelidade ao marido legítimo, contra a fama má de Clitemnestra (Canto XXIV).
Os pretendentes traem a hospitalidade e a casa: armam uma emboscada de vinte homens contra Telêmaco (Canto IV), e o cabreiro Melâncio traz armas a eles durante a matança (Canto XXII). Os companheiros de Odisseu, por sua vez, desatam o odre dos ventos enquanto o chefe dorme (Canto X) e matam as vacas do Sol depois de jurarem não tocar nelas (Canto XII). Euríloco, que duas vezes lê o perigo certo, acusa Odisseu pela morte dos companheiros do ciclope, e o poema não o refuta (Canto X).
A lealdade, no poema, se prova na ausência do dono: Eumeu cuida dos bens do senhor sem saber se ele vive, Filécio e a serva do moinho esperam, e o cão Argos espera vinte anos (Canto XVII). A traição, em contraste, aparece sempre como oportunidade, a de Egisto com o marido longe, a dos pretendentes com o rei dado por morto. O mesmo Odisseu que exige lealdade é o que testa os leais, com o manto no Canto XIV e com a pergunta aos servos no Canto XXI.
Onde aparece
- Canto I: Zeus lembra Egisto, que matou Agamêmnon e tomou a mulher dele mesmo depois de avisado por Hermes, e o caso funciona como espelho do que os pretendentes fazem em Ítaca.
- Canto II: Mentor censura o povo de Ítaca, que fica calado diante dos poucos pretendentes, esquecido do rei que governou como um pai.
- Canto IV: Antínoo e os pretendentes armam uma emboscada de vinte homens no estreito entre Ítaca e Samos para matar Telêmaco na volta, e o arauto Médon conta tudo a Penélope.
- Canto X: Os companheiros desatam o odre de Éolo enquanto Odisseu dorme, porque julgam que ele guarda ouro e prata, e a tempestade os leva de volta.
- Canto XI: Agamêmnon conta no Hades que Egisto e a esposa o mataram num banquete, e aconselha Odisseu a nunca ser brando com a mulher, com uma exceção para Penélope.
- Canto XIV: Eumeu recebe o mendigo por temor de Zeus e por compaixão, sem exigir que o creiam, e divide com ele o que tem sem saber quem é.
- Canto XX: O boieiro Filécio diz que ainda espera a volta do senhor, e Odisseu jura por Zeus e pela mesa de hospitalidade que o senhor voltará.
- Canto XXI: Odisseu pergunta a Eumeu e a Filécio o que fariam se ele voltasse e, ao ler a verdade no ânimo dos dois, mostra-lhes a cicatriz.
- Canto XXII: O cabreiro Melâncio sobe ao quarto de Odisseu, traz escudos, lanças e elmos aos pretendentes e depois é amarrado e mutilado.
- Canto XXIV: Agamêmnon louva Penélope pela fidelidade ao marido legítimo, enquanto Clitemnestra, que tramou o crime contra o marido, terá canto odioso entre as mulheres.
Passagens
Mentor aponta onde está a falha da cidade.
νῦν δʼ ἄλλῳ δήμῳ νεμεσίζομαι, οἷον ἅπαντες / ἧσθʼ ἄνεῳ, ἀτὰρ οὔ τι καθαπτόμενοι ἐπέεσσι / παύρους μνηστῆρας καταπαύετε πολλοὶ ἐόντες.(2.239-241), mas indigno-me com o resto do povo, porque todos estais sentados, calados, e não detendes com palavras, sendo muitos, os poucos pretendentes.
Agamêmnon tira da própria morte um conselho para Odisseu.
τῷ νῦν μή ποτε καὶ σὺ γυναικί περ ἤπιος εἶναι· / μή οἱ μῦθον ἅπαντα πιφαυσκέμεν, ὅν κʼ ἐὺ εἰδῇς, / ἀλλὰ τὸ μὲν φάσθαι, τὸ δὲ καὶ κεκρυμμένον εἶναι.(11.441-443), por isso, nunca sejas brando com a tua mulher, nem lhe digas toda a história que bem conheces: diz uma parte, e que a outra fique escondida.
Logo em seguida, o mesmo Agamêmnon abre uma exceção.
ἀλλʼ οὐ σοί γʼ, Ὀδυσεῦ, φόνος ἔσσεται ἔκ γε γυναικός· / λίην γὰρ πινυτή τε καὶ εὖ φρεσὶ μήδεα οἶδε / κούρη Ἰκαρίοιο, περίφρων Πηνελόπεια.(11.444-446), mas de ti, Odisseu, a morte não virá de tua mulher: ela é muito sensata e sabe bem dos planos no juízo, a filha de Icário, a prudente Penélope.
Eumeu diz por que acolhe o hóspede, e não é por acreditar nele.
οὐ γὰρ τοὔνεκʼ ἐγώ σʼ αἰδέσσομαι οὐδὲ φιλήσω, / ἀλλὰ Δία ξένιον δείσας αὐτόν τʼ ἐλεαίρων.(14.388-389), pois não é por isso que te respeitarei nem te estimarei, mas por temer Zeus hospitaleiro e por compaixão de ti mesmo.
Odisseu cede aos companheiros, com uma condição.
καὶ τότε δὴ γίγνωσκον ὃ δὴ κακὰ μήδετο δαίμων, / καί μιν φωνήσας ἔπεα πτερόεντα προσηύδων· / Εὐρύλοχʼ, ἦ μάλα δή με βιάζετε μοῦνον ἐόντα. / ἀλλʼ ἄγε νῦν μοι πάντες ὀμόσσατε καρτερὸν ὅρκον· / εἴ κέ τινʼ ἠὲ βοῶν ἀγέλην ἢ πῶυ μέγʼ οἰῶν / εὕρωμεν, μή πού τις ἀτασθαλίῃσι κακῇσιν / ἢ βοῦν ἠέ τι μῆλον ἀποκτάνῃ· ἀλλὰ ἕκηλοι / ἐσθίετε βρώμην, τὴν ἀθανάτη πόρε Κίρκη.(12.295-302), Então percebi que um deus tramava males, e, dirigindo-lhe palavras aladas, disse: "Euríloco, de fato me forçais, a mim que estou só. Vamos, jurai-me todos um juramento firme: se encontrarmos algum rebanho de bois ou um grande rebanho de ovelhas, que ninguém, por insensatezes más, mate um boi ou uma ovelha; ao contrário, comei tranquilos o alimento que a imortal Circe nos deu."
Odisseu jura a Filécio que o senhor voltará.
ἴστω νῦν Ζεὺς πρῶτα θεῶν ξενίη τε τράπεζα / ἱστίη τʼ Ὀδυσῆος ἀμύμονος, ἣν ἀφικάνω, / ἦ σέθεν ἐνθάδʼ ἐόντος ἐλεύσεται οἴκαδʼ Ὀδυσσεύς· / σοῖσιν δʼ ὀφθαλμοῖσιν ἐπόψεαι, αἴ κʼ ἐθέλῃσθα, / κτεινομένους μνηστῆρας, οἳ ἐνθάδε κοιρανέουσιν.(20.230-234), saiba agora Zeus, primeiro entre os deuses, e a mesa de hospitalidade e o lar do irrepreensível Odisseu, a que chego: estando tu aqui, Odisseu voltará para casa; com teus olhos verás, se quiseres, os pretendentes sendo mortos, os que aqui mandam como senhores.
A mais fraca das servas dá voz ao presságio.
κρῆνον νῦν καὶ ἐμοὶ δειλῇ ἔπος, ὅττι κεν εἴπω· / μνηστῆρες πύματόν τε καὶ ὕστατον ἤματι τῷδε / ἐν μεγάροις Ὀδυσῆος ἑλοίατο δαῖτʼ ἐρατεινήν, / οἳ δή μοι καμάτῳ θυμαλγέι· γούνατʼ ἔλυσαν / ἄλφιτα τευχούσῃ· νῦν ὕστατα δειπνήσειαν.(20.115-119), cumpre agora também a palavra que eu, infeliz, vou dizer: que os pretendentes, neste dia, façam pela última e derradeira vez o seu agradável banquete nos salões de Odisseu, eles que me soltaram os joelhos com uma fadiga que dói no ânimo, enquanto eu fazia a farinha; que jantem agora pela última vez.
Agamêmnon mede a fama de Penélope pelo que ele mesmo sofreu.
ὡς ἀγαθαὶ φρένες ἦσαν ἀμύμονι Πηνελοπείῃ, / κούρῃ Ἰκαρίου· ὡς εὖ μέμνητʼ Ὀδυσῆος, / ἀνδρὸς κουριδίου· τῷ οἱ κλέος οὔ ποτʼ ὀλεῖται / ἧς ἀρετῆς(24.194-197), que bom juízo tinha a irrepreensível Penélope, filha de Icário! Como se lembrou bem de Odisseu, seu marido legítimo! Por isso nunca perecerá a fama da sua virtude.