Clavis Libri

Tema em A Montanha Mágica

Paixão

A emoção forte que arrasta e passa por cima do juízo: ira, arrebatamento, paixão amorosa.

O tema na obra

A paixão começa por uma porta. No capítulo III, a porta envidraçada da sala de refeições bate durante o café da manhã, e Hans Castorp sente um ódio mortal pelo ruído; no almoço vê quem a bate, madame Clawdia Chauchat, pensa "uma fêmea, naturalmente!" e é assaltado por uma recordação vaga que não sabe de quem é. À noite sonha que vai pedir a ela um lápis no pátio do ginásio, e que ela lhe estende a palma da mão para beijar.

O capítulo IV dá o nome que faltava. Depois de uma hemorragia nasal num passeio solitário, Hans Castorp se lembra de Pribislav Hippe, o colega de olhos quirguizes a quem, aos treze anos, pediu um lápis emprestado; na conferência do Dr. Krokowski, que ensina que toda doença é amor transformado, reconhece em Clawdia os olhos de Pribislav. O coração, que batia sem nexo com a alma, passa a ter nexo, e a professora Engelhart lhe descobre o nome dela.

No capítulo V o termômetro (ver O termômetro) passa a seguir a paixão: o mercúrio cai quando Clawdia olha para os sapatos amarelos dele e sobe quando ela retribui o bom-dia. Na Noite de Walpurgis, o jogo do Carnaval lhe dá o pretexto de pedir um lápis, e Hans Castorp declara o amor em francês, a língua em que falar é falar sem responsabilidade, como em sonho. Clawdia anuncia que parte no dia seguinte e sai pedindo o lápis de volta. No capítulo VII ela volta ao Berghof ao lado de Pieter Peeperkorn; Hans Castorp se recusa a beijá-la na testa diante dele, é beijado por ela no vestíbulo, não nega o passado quando Peeperkorn o interroga, e só a beija na testa depois que o holandês se mata.

A paixão de Hans Castorp é sempre uma segunda vez: Clawdia é amada porque repete Hippe, e o lápis passa de uma cena a outra como prova. Krokowski dá a teoria, o termômetro dá a medida, e o romance não separa amor e febre em momento nenhum. O desfecho é o mais irônico possível: o rival que Hans Castorp não enfrenta é quem lhe oferece fraternidade, e o beijo na testa que ele recusou diante de Peeperkorn vivo só acontece diante do morto.

Onde aparece

Passagens

No primeiro almoço, o rosto de Clawdia lembra alguém que Hans Castorp não sabe quem é.

Ao ver o rosto dela, Hans Castorp sente algo que ainda não sabe nomear. Uma recordação vaga, ele não sabia de que nem de quem, assaltou-o leve e passageiramente ao ver esse rosto
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini

Na conferência de Krokowski, a recordação ganha nome.

Os olhos com que ela o fixara, bem no rosto e mirando as manchas de sangue no casaco, eram exatamente os de Pribislav, Análise
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro

Hans Castorp explica por que se declara numa língua que não é a sua.

Hans Castorp explica a Clawdia por que escolhe o francês para dizer o que nunca disse em alemão. Pourquoi parler? [...] pour moi, parler français, c'est parler sans parler, en quelque manière: sans responsabilité, ou comme nous parlons en rêve.
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis

Ajoelhado, junta numa frase o corpo, o amor e a morte.

No auge da cena, ajoelhado diante dela, Hans Castorp condensa em francês a tese que todo o capítulo vinha preparando desde a radiografia e as leituras de anatomia. Oh, l'amour, tu sais… Le corps, l'amour, la mort, ces trois ne font qu'un. Car le corps, c'est la maladie et la volupté, et c'est lui qui fait la mort, oui, ils sont charnels tous deux, l'amour et la mort, et voilà leur terreur et leur grande magie! [...] Laisse-moi ressentir l'exhalation de tes pores et tâter ton duvet, image humaine d'eau et d'albumine, destinée pour l'anatomie du tombeau, et laisse-moi périr mes lèvres aux tiennes!
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis

Peeperkorn diz em voz alta o que todos calam.

O senhor foi amante de Clawdia durante a outra temporada.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão