Clavis Libri

Tema em Odisseia

Vingança

A retribuição pelas próprias mãos: vingança, retaliação, a cadeia de sangue que passa de geração a geração.

O tema na obra

A vingança começa fora de Ítaca. Poseidon persegue Odisseu porque ele cegou Polifemo, seu filho, e o castigo é a errância, não a morte (Canto I). Polifemo reza ao pai que o herói chegue tarde e mal, sem companheiros, em nau alheia, e encontre desgraças em casa (Canto IX). A maldição não impede o retorno, que o destino garante: só o torna longo e caro, e Tirésias a repete (Canto XI).

O modelo do filho vingador é Orestes. Atena o dá a Telêmaco no Canto I, Nestor repete o exemplo no Canto III, e Proteu, pela boca de Menelau, diz que Orestes talvez já tenha matado Egisto (Canto IV). Telêmaco responde que gostaria de ter força igual para castigar os pretendentes, mas que os deuses não lhe deram essa ventura.

Em Ítaca, a vingança é um plano feito em silêncio. Atena promete a Odisseu que o chão será manchado de sangue dos pretendentes (Canto XIII); ele jura a Eumeu, sem se revelar, que o dono voltará e se vingará de quem desonra a esposa e o filho (Canto XIV); pai e filho combinam a retirada das armas da sala e o silêncio (Canto XVI). Odisseu suporta o chute de Melâncio e o escabelo de Antínoo (Canto XVII), luta com Iro medindo o golpe (Canto XVIII) e manda o coração calar, lembrando o ciclope (Canto XX).

A matança é narrada com a razão de cada decisão. A prova do arco é chamada de começo da matança (Canto XXI). Odisseu recusa a indenização de Eurímaco, porque o que cobra é a desmedida, mata Leódes pelo ofício de adivinho dos pretendentes, poupa Fêmio e Médon, e impede Euricleia de gritar de alegria, dizendo que não é lícito se gloriar sobre mortos (Canto XXII). Telêmaco decide que as doze servas desavergonhadas não terão morte limpa, e Melâncio é mutilado (Canto XXII).

A vingança gera outra. Eupites, pai de Antínoo, quer vingar o filho (Canto XXIV), Haliterses diz que a culpa foi dos itacenses, que não detiveram os filhos, e a espiral só para quando Atena grita e Zeus lança o raio. A paz que Zeus propõe é o esquecimento da morte dos filhos e dos irmãos.

O poema justifica a vingança de Odisseu em vez de apenas contá-la: os pretendentes foram os primeiros a tramar atos indignos (Canto XX), e ele diz que o que cobra é a desmedida, não os bens (Canto XXII). Mas o mesmo canto mostra o que a justiça deixa de fora, as servas enforcadas como tordos numa rede, e o canto seguinte mostra que a justiça de um lado é afronta do outro, porque Eupites usa a palavra que Odisseu usou. A paz final é imposta de cima, e o texto não diz se as famílias estão convencidas ou apenas desarmadas.

Onde aparece

  • Canto I: Atena lembra a Telêmaco que Orestes ganhou fama ao vingar o pai e o aconselha a pensar em como matar os pretendentes, pela astúcia ou às claras.
  • Canto III: Nestor conta a morte de Egisto por Orestes, e Telêmaco deseja ter força igual para castigar os pretendentes, mas diz que os deuses não lhe deram essa ventura.
  • Canto IX: Polifemo, cego por Odisseu, reza a Poseidon, seu pai, que o herói chegue tarde e mal, sem companheiros, em nau alheia, e encontre desgraças em casa.
  • Canto XIII: Atena promete estar ao lado de Odisseu e que o chão será manchado de sangue e miolos dos pretendentes, e planeja com ele a matança sentados junto à oliveira.
  • Canto XIV: Odisseu, sem se revelar, jura a Eumeu que o senhor voltará neste mesmo ano e se vingará de quem desonra a esposa e o filho.
  • Canto XVI: Pai e filho combinam em segredo a morte dos pretendentes: Telêmaco levará as armas da sala para cima, e Odisseu pede que ele suporte as ofensas ao mendigo.
  • Canto XX: Odisseu manda o coração calar lembrando o ciclope e pede a Zeus um sinal, que vem no trovão e na palavra da serva do moinho.
  • Canto XXI: Proposta por Penélope por inspiração de Atena, a prova do arco é chamada de começo da matança, e Odisseu atravessa os doze machados com a flecha.
  • Canto XXII: Odisseu atira em Antínoo, recusa a indenização de Eurímaco porque cobra a desmedida e poupa o aedo Fêmio e o arauto Médon.
  • Canto XXIV: Eupites reúne os itacenses para vingar o filho, e a espiral de mortes só para quando Atena grita e Zeus lança um raio diante dela.

Passagens

Nestor dá a Telêmaco o exemplo do filho que vinga o pai.

ὡς ἀγαθὸν καὶ παῖδα καταφθιμένοιο λιπέσθαι / ἀνδρός, ἐπεὶ καὶ κεῖνος ἐτίσατο πατροφονῆα, / Αἴγισθον δολόμητιν, ὅ οἱ πατέρα κλυτὸν ἔκτα. (3.196-198), como é bom que o homem morto deixe também um filho, pois aquele se vingou do assassino do pai, Egisto de ardis, que lhe matou o ilustre pai.
Canto III: Telêmaco em Pilos

Polifemo pede que o retorno seja caro.

ἀλλʼ εἴ οἱ μοῖρʼ ἐστὶ φίλους τʼ ἰδέειν καὶ ἱκέσθαι / οἶκον ἐυκτίμενον καὶ ἑὴν ἐς πατρίδα γαῖαν, / ὀψὲ κακῶς ἔλθοι, ὀλέσας ἄπο πάντας ἑταίρους, / νηὸς ἐπʼ ἀλλοτρίης, εὕροι δʼ ἐν πήματα οἴκῳ. (9.532-535), mas, se lhe cabe por destino rever os seus e chegar à casa bem construída e à sua terra pátria, que chegue tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros, numa nau alheia, e encontre desgraças em casa.
Canto IX: O ciclope

Odisseu jura a Eumeu o retorno e a vingança, sem dizer quem é.

τοῦδʼ αὐτοῦ λυκάβαντος ἐλεύσεται ἐνθάδʼ Ὀδυσσεύς. / τοῦ μὲν φθίνοντος μηνός, τοῦ δʼ ἱσταμένοιο, / οἴκαδε νοστήσει, καὶ τίσεται ὅς τις ἐκείνου / ἐνθάδʼ ἀτιμάζει ἄλοχον καὶ φαίδιμον υἱόν. (14.161-164), neste mesmo ano Odisseu virá aqui: com o mês que míngua e o que começa, voltará para casa e se vingará de quem aqui desonra a esposa dele e o filho ilustre.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu

Deitado no vestíbulo, Odisseu fala ao próprio coração.

τέτλαθι δή, κραδίη· καὶ κύντερον ἄλλο ποτʼ ἔτλης. / ἤματι τῷ ὅτε μοι μένος ἄσχετος ἤσθιε Κύκλωψ / ἰφθίμους ἑτάρους· σὺ δʼ ἐτόλμας, ὄφρα σε μῆτις / ἐξάγαγʼ ἐξ ἄντροιο ὀϊόμενον θανέεσθαι. (20.18-21), suporta, coração! Já suportaste coisa ainda mais vil, no dia em que o Ciclope, de força irresistível, devorava os meus valentes companheiros; tu aguentaste, até que o plano te tirou da caverna, quando pensavas morrer.
Canto XX: Os presságios

Eurímaco oferece pagar, e Odisseu recusa.

Εὐρύμαχʼ, οὐδʼ εἴ μοι πατρώϊα πάντʼ ἀποδοῖτε, / ὅσσα τε νῦν ὔμμʼ ἐστὶ καὶ εἴ ποθεν ἄλλʼ ἐπιθεῖτε, / οὐδέ κεν ὣς ἔτι χεῖρας ἐμὰς λήξαιμι φόνοιο / πρὶν πᾶσαν μνηστῆρας ὑπερβασίην ἀποτῖσαι. / νῦν ὑμῖν παράκειται ἐναντίον ἠὲ μάχεσθαι / ἢ φεύγειν, ὅς κεν θάνατον καὶ κῆρας ἀλύξῃ· (22.61-66), Eurímaco, nem que me devolvêsseis todos os bens paternos, tudo o que agora tendes, e ainda acrescentásseis de outra parte, nem assim eu pararia as mãos da matança antes que os pretendentes pagassem toda a sua desmedida. Agora está posto diante de vós lutar de frente ou fugir, quem escapar da morte e dos destinos.
Canto XXII: A matança dos pretendentes

Euricleia vai gritar de alegria, e Odisseu a contém.

οὐχ ὁσίη κταμένοισιν ἐπʼ ἀνδράσιν εὐχετάασθαι. / τούσδε δὲ μοῖρʼ ἐδάμασσε θεῶν καὶ σχέτλια ἔργα· / οὔ τινα γὰρ τίεσκον ἐπιχθονίων ἀνθρώπων, / οὐ κακὸν οὐδὲ μὲν ἐσθλόν, ὅτις σφέας εἰσαφίκοιτο· / τῷ καὶ ἀτασθαλίῃσιν ἀεικέα πότμον ἐπέσπον. (22.412-416), não é lícito gloriar-se sobre homens mortos. A estes dominou o destino dos deuses e as obras cruéis: a nenhum dos homens da terra honravam, nem mau nem bom, quem chegasse a eles; por isso, por suas insolências, tiveram sorte indigna.
Canto XXII: A matança dos pretendentes

No Olimpo, Zeus dita os termos da paz.

ἡμεῖς δʼ αὖ παίδων τε κασιγνήτων τε φόνοιο / ἔκλησιν θέωμεν· τοὶ δʼ ἀλλήλους φιλεόντων / ὡς τὸ πάρος, πλοῦτος δὲ καὶ εἰρήνη ἅλις ἔστω. (24.484-486), e nós, por nossa vez, façamos esquecer a morte dos filhos e dos irmãos; que eles se amem uns aos outros como antes, e que haja riqueza e paz em abundância.
Canto XXIV: A paz em Ítaca