Não. O cavalo de madeira não é contado na Ilíada, porque o poema termina antes da queda de Troia. A ação cobre algumas semanas do décimo ano da guerra e acaba no Canto XXIV com o funeral de Heitor: "assim eles celebraram o funeral de Heitor, domador de cavalos". Nesse ponto a cidade ainda está de pé, com as muralhas e as Portas Ceias.
O que o poema faz é anunciar a queda. Agamêmnon diz no Canto IV: "virá o dia em que perecerá a sagrada Ílion, e Príamo, e o povo de Príamo". Heitor repete a frase quase igual a Andrômaca, no Canto VI, e Andrômaca prevê, no Canto XXIV, o destino das mulheres e do filho depois da cidade tomada. No Canto II, o presságio de Áulide, que Odisseu lembra aos gregos, diz que combaterão durante tantos anos quantos os pássaros devorados, e que no décimo tomarão a cidade.
O poema também não conta a morte de Aquiles. Ela é anunciada várias vezes: pela mãe, Tétis, pelo cavalo Xanto, pelo próprio Heitor moribundo, que diz que Páris e Apolo o destruirão "junto às Portas Ceias". O que existe da guerra depois do poema aparece como profecia, e não como cena.
Essa escolha de recorte é parte do que o poema é. Em vez de contar a guerra de dez anos, ele conta a ira de um homem e o que ela custa, e deixa o fim da cidade para o leitor imaginar. Quem procura o cavalo de madeira encontrará a história em outras narrativas da guerra de Troia, e não nos vinte e quatro cantos da Ilíada.