Porque Afrodite lhe prometeu a mulher mais bela do mundo, Helena. Segundo o mito, nas bodas de Peleu e Tétis, os pais de Aquiles, a Discórdia lançou entre as deusas uma maçã de ouro destinada "à mais bela". Hera, Atena e Afrodite a disputaram, e Zeus mandou Hermes levá-las ao monte Ida, onde o príncipe troiano Páris vivia como pastor, para que ele decidisse.
Cada deusa ofereceu um presente. Hera prometeu poder e domínio, Atena a vitória na guerra e a sabedoria, Afrodite o amor de Helena, que era esposa de Menelau, rei de Esparta. Páris deu a maçã a Afrodite, foi a Esparta como hóspede de Menelau e levou Helena para Troia. É daí que nasce a guerra.
A Ilíada não conta essa cena. Ela a pressupõe, e só a menciona uma vez, no último canto, para explicar por que Hera, Poseidon e Atena não querem que o corpo de Heitor seja devolvido: odiavam Troia desde o dia em que Alexandre, que é o outro nome de Páris, "ofendeu as deusas quando vieram ao seu redil, e louvou a que lhe deu a luxúria dolorosa". O poeta não nomeia Afrodite nem Helena, e chama a escolha de cegueira, a palavra grega áte, que designa o erro que leva à ruína.
O Páris que o poema mostra confirma o motivo. No Canto III, salvo por Afrodite do duelo com Menelau, ele diz a Helena que nunca o desejo lhe cobriu assim os sentidos, "nem quando, tendo-te arrebatado da amável Lacedemônia", a levou nas naus. A escolha do monte Ida e o homem que foge da luta para o quarto são a mesma pessoa.