Clavis Libri

Personagem

Calpúrnia

Quem é

Calpúrnia é a esposa de Júlio César, e é dela a tentativa de impedi-lo de ir ao Capitólio nos Idos de Março. Gritou em sonho, três vezes, que matavam César, e conta a ele os prodígios da noite. Na procissão das Lupercais, é a ela que César dirige a primeira ordem: ficar no caminho de Antônio, para ser tocada e deixar a esterilidade.

Trajetória

Na cena 2 do Ato I, na procissão das Lupercais, César a manda ficar no caminho de Marco Antônio na corrida, para que ele a toque e ela perca a maldição da esterilidade, porque assim dizem os velhos. Quando o cortejo volta, Bruto nota que a face dela está pálida.

Na cena 2 do Ato II, na manhã dos Idos, diz a César que ele não sairá de casa naquele dia. Ela, que nunca se prendeu a cerimônias, agora tem medo: conta que uma leoa pariu nas ruas, que túmulos se abriram e devolveram os mortos, que guerreiros em chamas lutaram nas nuvens e que a chuva sobre o Capitólio era de sangue. Diz que, quando morrem mendigos, não se veem cometas, e que os próprios céus anunciam a morte de príncipes. César responde que os covardes morrem muitas vezes, e que a morte vem quando vem. Ela volta ao argumento: a sabedoria dele está consumida pela confiança. Ajoelha-se e pede que ele chame o medo de dela, e não dele, e que mandem Antônio ao Senado para dizer que César está doente. César cede, mas, quando Décio chega, mantém a recusa só pela vontade e só depois diz a razão: ela sonhou com a estátua dele, jorrando sangue por cem bicas, e muitos romanos sorrindo se lavavam nele. Calpúrnia insiste em que ele diga que está doente, e César responde que não mandará uma mentira. Décio refaz o sonho, e ela não fala mais. César, envergonhado de ter cedido, pede o manto.

Temas que encarna

O sonho tem dois sentidos na mesma cena, e quem decide qual vale é Décio. Para Calpúrnia, o sangue na estátua é aviso de morte, para Décio é promessa de renovação para Roma. O argumento que a razão de César havia rejeitado, o dos prodígios, cai por uma frase sobre o medo do riso dos senadores.

Calpúrnia é o presságio com voz, e perde para Décio, que sabe dar ao sonho o sentido que César quer ouvir: o tema da Linguagem e narração aparece aqui como disputa sobre o que um mesmo sonho significa. Ela aparece em espelho com Pórcia, e as duas se ajoelham diante do marido e pedem em nome do casamento. Sobre o Destino e livre-arbítrio, fica a pergunta que a peça não responde: o aviso era o destino se anunciando, ou apenas o medo de uma mulher que conhecia o marido.

Relações

  • Júlio César: o marido, que lhe cede um instante e depois a desmente, dizendo que os temores dela são tolos.
  • Marco Antônio: a quem César pede que a toque na corrida e a quem ela propõe enviar ao Senado.
  • Pórcia: a outra esposa, que pede ao marido o contrário: que lhe conte o que esconde.