Clavis Libri

Personagem

Júlio César

Quem é

Júlio César é o homem de quem toda a peça fala e que aparece em poucas cenas: festejado em Roma no dia das Lupercais, a quem parte do Senado quer dar a coroa e a quem outra parte decide matar. Tem um ouvido surdo, cai em público num ataque que Casca conta com desprezo, e fala de si como de um nome maior que o homem. Cai no Capitólio, nos Idos de Março, sob as facadas de Casca, de Cássio e de Bruto, e continua na peça como corpo exposto, como espectro e como força: Marco Antônio faz da morte dele uma arma, e Bruto diz, em Filipos, que o espírito de César ainda anda por aí.

Trajetória

Antes de entrar em cena, já é o problema. Na cena 1 do Ato I, os tribunos Flávio e Marulo tiram os enfeites das estátuas dele e dispersam o povo que o festeja, e Flávio explica que é preciso arrancar as penas da asa de César para que ele não voe alto demais.

Na cena 2 do Ato I, na procissão das Lupercais, manda Calpúrnia ficar no caminho de Antônio na corrida, porque os velhos dizem que a estéril tocada na caça sagrada perde a maldição, e exige que nenhum rito seja omitido. Um adivinho grita que se cuide dos Idos de Março, ele o manda chegar perto, olha o rosto dele e o despacha: é um sonhador. Na volta da corrida, com o cortejo calado, aponta Cássio a Antônio: magro, faminto, pensa demais, não ouve música e sorri como quem zomba de si mesmo. Chama tais homens de perigosos, em seguida recua, diz que não o teme e que fala do que se deve temer, pois sempre é César, e pede que Antônio fique à direita, porque o ouvido esquerdo é surdo. A recusa da coroa, três vezes, e o desmaio com espuma na boca chegam por Casca, que conta também que, ao voltar a si, César pediu que atribuíssem aquilo à enfermidade dele.

Na cena 2 do Ato II, em casa, na manhã dos Idos, resiste a Calpúrnia, que gritou três vezes em sonho que matavam César, e aos augúrios, que não acharam coração no animal sacrificado. Diz que o que o ameaçou nunca viu mais que as costas dele e que o perigo sabe que César é mais perigoso que ele, dois leões nascidos no mesmo dia, ele o mais velho e o mais terrível. Responde ao medo com a frase mais citada da peça sobre ele:

Cowards die many times before their deaths; / The valiant never taste of death but once, os covardes morrem muitas vezes antes de morrer; o valente só prova a morte uma vez (II.2)
Ato II: A conspiração e a manhã dos Idos

Cede ao pedido de Calpúrnia, que se oferece como culpada do medo, e manda Décio avisar o Senado. Décio refaz o sonho, dizendo que o sangue da estátua é o sangue novo que Roma vai beber, promete a coroa naquele dia e lembra que os senadores diriam que a sessão foi adiada até a mulher de César ter sonhos melhores, e que César tem medo. César responde que os temores de Calpúrnia parecem tolos e que tem vergonha de ter cedido, pede o manto e recebe em casa os conspiradores, a quem convida para o vinho. Pede a Cina, a Metelo e a Trebônio que fiquem perto dele, e Trebônio responde em aparte que estará tão perto que os amigos de César desejarão que estivesse longe.

Na cena 1 do Ato III, diante do Capitólio, o Adivinho lhe diz que os Idos chegaram mas ainda não passaram, e Artemidoro pede que leia primeiro a carta dele, porque trata do que lhe toca mais de perto. César responde que o que toca a ele mesmo será servido por último, e entra no Senado. Metelo Címber se ajoelha pelo irmão banido, e ele recusa: a adulação derrete tolos, não César, que é constante como a estrela do norte, a única sem igual no firmamento. Bruto e Cássio se juntam ao pedido, Cina e Décio insistem, e ele pergunta a Cina se quer levantar o Olimpo. Casca grita que as mãos falem por ele e dá o primeiro golpe no pescoço, os outros o cercam, e o último é de Bruto. César, ao ver o amigo, diz a frase em latim e cai: "então cai, César".

Morto, não sai da peça. Na cena 2 do Ato III, o corpo e o manto furado são o argumento de Antônio diante do povo. Na cena 3 do Ato IV, aparece como espectro a Bruto, na tenda, diz ser o mau espírito dele e promete que o verá em Filipos. Na cena 3 do Ato V, Cássio morre com a espada que atravessou César e diz que ele está vingado, e Bruto exclama, ao ver os corpos de Cássio e de Titínio:

O Julius Caesar, thou art mighty yet! / Thy spirit walks abroad, and turns our swords / In our own proper entrails., ó Júlio César, tu és poderoso ainda! O teu espírito anda por aí e vira nossas espadas contra as nossas próprias entranhas (V.3)
Ato V: Filipos e a morte de Bruto

Na cena 5 do Ato V, Bruto conta a Volúmnio que o espectro lhe apareceu duas vezes, em Sardes e em Filipos, e, ao se lançar sobre a espada, pede a César que descanse.

Temas que encarna

César fala de si como de uma instituição. "Sempre sou César" na cena 2 do Ato I, "César sairá" na cena 2 do Ato II, "César não comete injustiça" na cena 1 do Ato III: o nome entra na frase no lugar do pronome. No mesmo tom, diz que não teme nada e que apenas aponta o que se deve temer, e chama de covardia o receio que Calpúrnia lhe oferece.

O sonho de Calpúrnia e os augúrios dizem uma coisa, e Décio diz outra. O que o faz sair de casa é o receio de parecer covarde diante do Senado e a promessa da coroa, e ele mesmo havia dito que a morte vem quando vem.

O título dá a peça ao homem que morre na primeira cena do Ato III, e a peça sabe disso. Depois do assassinato, ele continua agindo por três vias: o corpo que Antônio usa, o espectro que acompanha Bruto e o nome que Cássio e Bruto ainda invocam ao morrer. O Poder dele não termina com a vida, e é nisso que a tese do tiranicídio se desfaz: o ato que devia acabar com César o multiplica.

Relações

  • Júlio César: o homem histórico, o ditador assassinado nos Idos de Março de 44 a.C. O que se descreve aqui é o personagem da peça, construído por Shakespeare para o palco, e não o retrato do ditador romano.
  • Calpúrnia: a esposa, que pede que ele fique em casa e é desfeita pela lisonja de Décio; ele a manda ficar no caminho de Antônio na corrida das Lupercais.
  • Bruto: o amigo que lhe dá o último golpe, e a quem o espectro promete reencontrar em Filipos.
  • Cássio: o magro e faminto que ele aponta como perigoso, e que morre com a espada que o matou.
  • Marco Antônio: o amigo que corre as Lupercais, que lhe oferece a coroa e que o enterra com a palavra.
  • Casca: dá o primeiro golpe, e é quem conta a cena da coroa.
  • Otávio: aquele que ele mandara chamar a Roma e que, em Filipos, jura que a espada não volta à bainha até as feridas de César serem vingadas.