Quem é
Bruto é o homem em quem Roma confia, e por isso o homem de que a conspiração precisa. Ama Júlio César, não tem queixa pessoal contra ele, e mesmo assim lidera a morte dele, convencido de que o faz por Roma. Descende do Bruto que expulsou o rei Tarquínio, é casado com Pórcia, a filha de Catão, e é amigo e depois adversário de Cássio, que o seduz com um espelho. Quer que o ato pareça limpo e que os que o praticam sejam vistos como purgadores. Termina derrotado em Filipos, com a espada de Estratão, reconhecido por Marco Antônio como o único conspirador movido pelo bem comum.
Trajetória
Na cena 2 do Ato I, quando Cássio o convida para ver a corrida, Bruto diz que não é brincalhão e que passa por um conflito consigo mesmo. Cássio pergunta se ele vê o próprio rosto, e Bruto responde que o olho só se vê por reflexo, abrindo a porta para Cássio ser o espelho. Ao ouvir os gritos da multidão, teme que o povo escolha César como rei e acrescenta que, ainda assim, o ama bem. Cássio fala do nome de Bruto, que pesa tanto quanto o de César, e do Bruto antigo que não toleraria um rei em Roma. Bruto não promete nada: pede tempo para pensar e diz que prefere ser um aldeão a ser filho de Roma sob tais condições.
Na cena 1 do Ato II, antes que os conspiradores cheguem, decide sozinho no pomar. Diz não ter motivo pessoal contra César, só o receio do que ele possa se tornar com a coroa, e a razão que dá é de futuro:
And therefore think him as a serpent’s egg / Which hatch’d, would, as his kind grow mischievous; / And kill him in the shell, e portanto pense nele como num ovo de serpente que, chocado, se tornaria nocivo, como é da sua espécie; e mate-o na casca (II.1)
Lúcio lhe entrega uma carta anônima que o acorda ("Bruto, tu dormes"), e ele a completa sozinho: Roma não pode ficar sob o domínio de um homem. Quando os conspiradores chegam de rosto coberto, recusa o juramento, porque a honra de homens honrados dispensa promessa, e recusa também Cícero, que não segue o que os outros começam. Impede que Antônio seja morto: quer que sejam sacrificadores e não açougueiros, e acha que Antônio, sem César, tem só a força do braço de quem perdeu a cabeça. Pede que a conspiração se esconda em sorrisos, como os atores romanos. Depois que os outros saem, Pórcia o interroga e se ajoelha, e Bruto promete contar o que pesa nele. Em seguida recruta Ligário, que joga fora a doença ao saber que Bruto tem uma empresa de honra em mãos.
Na cena 2 do Ato II, vai com os outros à casa de César buscá-lo e recebe o convite para beber vinho com ele. Em aparte, diz que nem todo semelhante é o mesmo, e que o coração dele se aperta ao pensar nisso. Na cena 1 do Ato III, desfere o último golpe e, depois do assassinato, pede que os romanos não fujam: a dívida da ambição está paga. Propõe que lavem as mãos no sangue de César até os cotovelos e saiam gritando "paz, liberdade". Recebe Antônio, que se oferece à morte, e o acolhe com amizade. Concede a ele a palavra no funeral, contra o aviso de Cássio, mas com condições: ele fala primeiro, explica o ato, e Antônio só depois, sem culpar os conspiradores.
Na cena 2 do Ato III, no Fórum, divide a multidão com Cássio e fala em prosa. Diz que amou César, mas amou mais Roma, e pergunta quem seria tão vil a ponto de querer ser escravo, concluindo que não ofendeu ninguém. Diz que tem o mesmo punhal para si, caso Roma precise da morte dele, e é aclamado: um cidadão diz que ele devia ser César. Ao sair, pede que fiquem para ouvir Antônio.
Na cena 2 do Ato IV, em Sardes, ouve de Lucílio que Cássio o recebeu com cortesia, mas sem a intimidade de antes, e reconhece nisso um amigo que esfria. Na cena 3 do Ato IV, na tenda, Cássio reclama que Bruto puniu Lúcio Pella por suborno, e Bruto responde que o próprio Cássio tem a palma coçando e vende cargos por ouro. Lembra que os conjurados mataram César por justiça e conta que lhe pediu dinheiro para pagar as legiões e Cássio o negou. A briga chega a ameaças, os dois se reconciliam, e Bruto revela que Pórcia morreu. Pergunta a Messala, mais tarde, se as cartas trazem notícias dela e, ao ouvir a confirmação, aceita a perda como um romano. Contra Cássio, que prefere esperar o inimigo, decide marchar logo a Filipos, com o argumento da maré:
There is a tide in the affairs of men, / Which, taken at the flood, leads on to fortune;, há uma maré nos assuntos dos homens que, tomada na cheia, leva à fortuna (IV.3)
Com os criados dormindo, vê o espectro de César, que diz ser o mau espírito dele e que o verá em Filipos.
Na cena 1 do Ato V, em Filipos, troca palavras duras com Antônio e Otávio e, na despedida, diz a Cássio que acha vil e covarde se matar por medo do que possa vir, mas que não irá preso a Roma, e que o dia há de terminar a obra que os Idos de Março começaram. Na cena 2 do Ato V, manda Messala dar a ordem de atacar, e na cena 3 do Ato V Titínio diz que Bruto deu o sinal cedo demais. Ao ver os corpos de Cássio e de Titínio, diz que o espírito de César ainda anda por aí e chama Cássio de último dos romanos. Na cena 4 do Ato V, anima os seus, e Lucílio se faz passar por ele e diz a Antônio que Bruto será encontrado igual a si mesmo. Na cena 5 do Ato V, cercado, pede a Clito, a Dardânio e a Volúmnio que o matem, e os três recusam. Diz a Volúmnio que o espectro lhe apareceu duas vezes e que a hora chegou, e Estratão segura a espada. Antes de se lançar sobre ela, diz a César que o matou com muito menos vontade do que agora se mata. Antônio o elogia diante de Otávio, e Otávio manda dar-lhe honras fúnebres.
Temas que encarna
Bruto decide pelo futuro e pela imagem. Como não há causa pessoal, ele diz que é preciso moldá-la no que César poderia vir a ser, e molda também a figura do ato: sacrifício, não assassinato, sacrificadores, não açougueiros. Quer que a conspiração tenha a limpeza de uma cerimônia, e é isso que propõe aos conspiradores depois do golpe, com as mãos no sangue e o grito de liberdade pelas ruas.
O julgamento sobre os outros é onde ele falha. Poupa Antônio por achá-lo dado a esportes, extravagâncias e companhia, e não um perigo, deixa que ele fale por acreditar que a razão exposta basta, e Cássio avisa duas vezes e perde as duas. No Ato V, Titínio diz que Bruto deu o sinal de ataque cedo demais.
Na cena 2 do Ato I, Bruto diz que o olho só se vê por reflexo, e Cássio se oferece como espelho. Na cena 4 do Ato V, Lucílio diz que Bruto será achado igual a si mesmo, e na cena 5 do Ato V Antônio fala dele como do único conspirador que agiu pelo bem comum. A peça trata de um homem cuja imagem, desde o começo, depende de quem a segura, e em Filipos ela é segurada pelos que o derrotaram. A Honra e reputação aparece nele como o lugar onde a Lealdade e traição se embaralha: o mesmo homem que trai o amigo para ser fiel a Roma não aceita ser levado preso a Roma.
Relações
- Cássio: quem o seduz no Ato I e quem briga com ele na tenda, em Sardes; o amigo que ele reconhece esfriando e chama de último dos romanos.
- Júlio César: o amigo que mata por Roma e que volta como espectro, a quem diz, ao morrer, que se mata com mais vontade do que o matou.
- Pórcia: a esposa que exige o segredo dele, e cuja morte ele conta a Cássio na tenda.
- Marco Antônio: o homem que ele poupa e a quem deixa a palavra, e que o elogia no fim.
- Casca: o conspirador que dá o primeiro golpe, antes do dele.
- Otávio: o jovem que diz não ter nascido para morrer na espada de Bruto, e que lhe concede as honras fúnebres.