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Personagem

Cássio

Quem é

Cássio é o arquiteto da conspiração. Magro e faminto, na descrição de Júlio César, lê muito, observa tudo e não se alegra com música nem com jogos. Diz ter salvado César do Tibre quando ele se afogava e vê agora esse homem tratado como deus. Seduz Bruto com um espelho, recruta Casca, forja cartas para empurrar Bruto e perde, uma a uma, as discussões em que se opõe a ele. Epicurista, passa a dar crédito aos presságios no dia do aniversário, em Filipos, e morre com a espada que atravessou César.

Trajetória

Na cena 2 do Ato I, trabalha Bruto a sós. Diz que ele não vê o próprio rosto e se oferece como o espelho que mostra o que há de oculto nele. Conta que, num dia de vento, César o desafiou a nadar no Tibre revolto e gritou, no meio, que o salvasse, e que a febre na Espanha fez César tremer e pedir água como uma menina doente. Diz que Roma se curva a um homem fraco, e tira a conclusão para Bruto:

Men at some time are masters of their fates: / The fault, dear Brutus, is not in our stars, / But in ourselves, that we are underlings, os homens são às vezes donos do próprio destino: a culpa, caro Bruto, não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos, que somos subalternos (I.2)
Ato I: O triunfo e a sedução de Bruto

Cássio pergunta o que há no nome "César" que não haja no de Bruto, e lembra o Bruto antigo, que não toleraria um rei. Sai de cena dizendo, sozinho, que Bruto é nobre mas seduzível, e que vai lançar pelas janelas dele cartas que pareçam de cidadãos, falando da opinião que Roma tem do nome dele.

Na cena 3 do Ato I, na noite de tempestade, caminha com o peito aberto aos raios e diz a Casca que o céu avisa contra um homem que cresceu demais, chama os romanos de decadentes e diz que neles governa o espírito das mães. Ao saber que o Senado quer coroar César, jura matar-se antes de aceitar a servidão, e diz que a vida cansada nunca falta ao poder de se dispensar. A frase que resume é de uma linha:

Cassius from bondage will deliver Cassius, Cássio livrará Cássio da servidão (I.3)
Ato I: O triunfo e a sedução de Bruto

Entrega cartas a Cina, para plantar onde Bruto as ache, e diz a Casca que três partes de Bruto já são deles.

Na cena 1 do Ato II, chega com os conspiradores encapuzados, sussurra com Bruto e propõe que Cícero seja sondado. Bruto o recusa, e Cássio aceita. Propõe que Antônio caia junto com César e, vencido por Bruto, ainda diz que o teme. Observa que César se tornou supersticioso nos últimos tempos, ao contrário da opinião que tinha dos sonhos e das cerimônias, e que os prodígios dessa noite podem prendê-lo em casa. Decide que todos irão buscá-lo.

Na cena 1 do Ato III, quando Popílio sussurra que deseja sucesso à empresa, Cássio teme que tudo esteja descoberto e diz a Casca que seja rápido, pois, se for descoberto, ele mesmo se mata. Ajoelha-se junto a Bruto para apoiar o pedido de Metelo Címber e, depois do golpe, manda que alguns proclamem a liberdade nos púlpitos. Imagina a cena sendo encenada pelos séculos, em línguas ainda desconhecidas. Quando Bruto concede a Antônio a palavra no funeral, avisa que ele não sabe o que faz e que não gosta daquilo. Na cena 2 do Ato III, vai para outra rua dividir a multidão com Bruto.

Na cena 2 do Ato IV, em Sardes, chega com seu exército e diz, diante dos soldados, que Bruto o ofendeu, até Bruto pedir que falem na tenda. Na cena 3 do Ato IV, protesta contra a punição de Lúcio Pella, aceita mal ser chamado de vendedor de cargos e diz que, em vida, César não ousaria tratá-lo assim. Oferece o peito ao punhal de Bruto: que o fira como feriu César, pois sabe que, mesmo quando mais o odiava, Bruto amava César mais do que a ele. A reconciliação é rápida, e ele pede que Bruto o suporte quando o humor que a mãe lhe deu o faz esquecer. Quando Bruto lhe diz que Pórcia morreu, pergunta como escapou com vida depois de contrariá-lo daquele jeito. Propõe esperar o inimigo, cansá-lo e poupar as forças, e cede ao argumento da maré sem insistir.

Na cena 1 do Ato V, o parlamento com Antônio e Otávio vira insulto: chama Otávio de colegial birrento e Antônio de mascarado e festeiro e, chamado de adulador por Antônio, diz a Bruto que agradeça a si mesmo, porque a língua de Antônio não teria ofendido se Cássio tivesse mandado. Diz a Messala que é o dia do aniversário, que passou a dar crédito aos presságios e que as águias que acompanhavam o exército foram trocadas por corvos. Pergunta a Bruto o que fará se perderem e despede-se dele com a frase de que, se não se encontrarem, a despedida foi bem feita.

Na cena 3 do Ato V, mata o porta-estandarte que recuava, vê a fuga dos soldados e manda Titínio verificar se as tropas distantes são amigas. Do alto de um monte, Píndaro diz que Titínio foi capturado, e Cássio, achando o amigo perdido, lembra a Píndaro que o capturou na Pártia e que lhe fez jurar obediência, e pede que o mate com a espada que atravessou César, de rosto coberto. Morre dizendo que César está vingado.

Temas que encarna

Cássio é quem usa a palavra para fazer o outro agir. Além de argumentar contra César, devolve a Bruto uma imagem de Bruto: ele se oferece como espelho, fala do nome, lembra o Bruto antigo, forja as cartas. Na tempestade, lê o céu como aviso contra César. A sedução funciona porque o outro ainda não sabe de si.

O homem que diz, no começo, que a culpa não está nas estrelas, e que nota a superstição recente de César, é quem, em Filipos, passa a dar crédito aos presságios, no dia em que nasceu e no dia em que morre. Morre por erro de percepção: julga Titínio capturado e se mata antes de saber que o amigo trazia boas notícias.

O tema do Destino e livre-arbítrio passa por Cássio duas vezes, e a peça deixa ver a conveniência: ele nega os sinais quando quer agir e os aceita quando perde. No que o texto mostra, Cássio tem razão sobre Antônio e sobre o funeral e perde as duas discussões para Bruto, que tem a razão mais alta e o julgamento mais frágil. Sobre o Poder, fica a dúvida que o texto não resolve: o ressentimento que César descreve nele, e que ele mesmo confessa quando fala de se curvar a um homem que salvou, convive com a convicção de que Roma se curva a um fraco.

Relações

  • Bruto: o amigo que ele seduz no Ato I, de quem se afasta em Sardes e que o chama de último dos romanos.
  • Júlio César: o homem a quem diz ter salvado do Tibre e que o aponta como perigoso; morre com a espada que o matou.
  • Casca: o primeiro que ele ganha na noite da tempestade.
  • Marco Antônio: o homem que ele quer matar e a quem Bruto poupa, e que o chama de velho Cássio, ainda o mesmo, em Filipos.
  • Otávio: o jovem que ele chama de colegial birrento diante da batalha.
  • Pórcia: a esposa de Bruto, cuja morte ele ouve na tenda.