Clavis Libri

Personagem

Marco Antônio

Quem é

Marco Antônio é o amigo e braço direito de Júlio César, corredor da festa das Lupercais e quem lhe oferece a coroa três vezes. Os conspiradores o têm por homem de esporte, de farra e de companhia, e Bruto o poupa por achar que, sem a cabeça de César, ele só tem a força do braço. Fala com ternura ao corpo, aperta as mãos dos assassinos, pede para falar no funeral e vira a multidão contra eles. Em seguida, junto com Otávio e Lépido, marca quem deve morrer e, em Filipos, vence a ala de Cássio e protege Lucílio. No fim, pronuncia o elogio de Bruto.

Trajetória

Na cena 2 do Ato I, na procissão das Lupercais, corre a corrida que César lhe ordenou, com a missão de tocar Calpúrnia, e diz que, quando César manda, está feito. Defende Cássio diante de César, dizendo que ele não é perigoso e é um nobre romano. É ele quem oferece a coroa, três vezes, segundo Casca.

Na cena 1 do Ato II, não está presente, mas é assunto. Cássio quer que ele caia com César, porque, bem-amado do chefe, pode ser um articulador astuto, e Bruto o poupa: é só um membro de César, dado a esportes, à vida desregrada e à companhia, e, se amar César, tudo o que fará é matar-se de dor. Trebônio diz que ele viverá e rirá disso depois.

Na cena 1 do Ato III, é retido fora do Senado por Trebônio e foge para casa, assustado, quando o golpe cai. Manda um criado se ajoelhar diante de Bruto e dizer que ele honra Bruto e que, vivo, Bruto lhe é mais caro que César morto. Chega, vê o corpo e se oferece aos assassinos, dizendo que não encontrará hora tão boa para morrer quanto a da morte de César. Bruto o acolhe, e Antônio aperta a mão de cada um, nomeando todos. Pede perdão a César por ter apertado a mão dos que o mataram e o compara a um cervo atingido por muitos príncipes. Obtém licença para falar no funeral, e Cássio avisa Bruto, sem resultado. Sozinho, jura sobre o corpo, em profecia, que uma praga cairá sobre os homens, que a fúria civil tomará a Itália e que o espírito de César, vindo do inferno com Ate ao lado, soltará os cães da guerra. Manda o criado de Otávio voltar e avisá-lo de que Roma ainda não é segura para ele. Na cena 2 do Ato III, depois de Bruto, sobe à tribuna:

Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; / I come to bury Caesar, not to praise him., amigos, romanos, compatriotas, emprestem-me os ouvidos; venho enterrar César, não elogiá-lo. (III.2)
Ato III: O assassinato e o Fórum

Repete que Bruto é um homem honrado até a frase virar acusação, lembra que César trouxe prisioneiros cujos resgates encheram os cofres, que chorou pelos pobres e que três vezes recusou a coroa que ele mesmo lhe ofereceu. Diz que prefere não ler o testamento e guarda a leitura para quando a multidão o exigir. Desce, mostra o manto de César, aponta onde passou o punhal de Cássio e onde a faca de Casca abriu o rasgo, e conta que Bruto era o anjo de César. Diz que não é orador, e sim um homem simples que mostra as feridas, as bocas mudas, e pede que falem por ele. Quando a multidão se levanta, ele a detém para ler o testamento: setenta e cinco dracmas a cada cidadão e os jardins de César ao povo. Quando os cidadãos saem para queimar as casas dos conspiradores, diz que agora a desgraça está solta, e que tome o caminho que quiser.

Na cena 1 do Ato IV, com Otávio e Lépido, risca os nomes dos que devem morrer e aceita incluir o sobrinho, Públio, em troca do irmão de Lépido. Quando Lépido sai para buscar o testamento, chama-o de homem insignificante, bom para recados, e diz que ele carregará as honras como o burro carrega o ouro, para gemer e suar, e depois será dispensado para pastar. Quando Otávio lembra que Lépido é soldado provado, responde que o cavalo dele também é, e que tem mais dias de vida que o jovem. Avisa que Bruto e Cássio reúnem tropas e que é preciso reforçar a aliança.

Na cena 1 do Ato V, em Filipos, discute com Otávio a posição de cada um, ouve que ele impõe a sua, e responde a Bruto no parlamento com o buraco que ele fez no coração de César. Acusa os conspiradores de terem se curvado e adulado como cães antes do golpe e chama Casca de cão que feriu por trás. Na cena 3 do Ato V, invade as tendas de Cássio e cerca o resto das tropas dele. Na cena 4 do Ato V, ao descobrir que o prisioneiro é Lucílio, e não Bruto, diz que prefere ter homens assim como amigos e manda tratá-lo bem. Na cena 5 do Ato V, chega ao corpo de Bruto e diz:

This was the noblest Roman of them all. / All the conspirators save only he, / Did that they did in envy of great Caesar;, este foi o mais nobre dos romanos. Todos os conspiradores, menos ele, fizeram o que fizeram por inveja do grande César (V.5)
Ato V: Filipos e a morte de Bruto

Temas que encarna

Antônio usa a palavra como o contrário de Bruto. Bruto fala em prosa, pede que acreditem nele pela honra e oferece um argumento, e Antônio fala em verso, diz que não é orador e troca o argumento por coisas que o povo vê e ganha: o manto, as feridas, o testamento, os dracmas. Repete "Bruto é um homem honrado" até virar ironia. Diante da mesma multidão, um obtém aplauso, o outro obtém ação.

O mesmo homem que sabe quando ler o testamento sabe quando descartar Lépido. Em Roma, Antônio se oferece à morte, fala com ternura ao corpo e aperta as mãos dos assassinos, e, no Ato IV, risca nomes, inclusive o do próprio sobrinho. Cada gesto serve à situação do momento.

O elogio final é o único ponto em que o orador parece não calcular: Antônio reconhece em Bruto o que os outros conspiradores não tinham, e o diz ao inimigo morto, diante de Otávio. A peça deixa aberto se isso é generosidade ou o último gesto de uma retórica que sempre soube o que dizia. O Poder se divide, nesta dupla de vencedores, entre quem fala e quem manda: a cena em que Antônio chama Otávio de César e ouve a ordem dele já mostra por onde o poder vai passar. A Linguagem e narração é a arma de Antônio, e ele a usa para virar o sentido do crime.

Relações

  • Marco Antônio: o general e político romano histórico. O que se descreve aqui é o personagem da peça, e não o homem histórico.
  • Júlio César: o amigo a quem serve e que enterra com a palavra, e cujo espírito ele invoca para soltar os cães da guerra.
  • Bruto: o homem que o poupa e a quem ele responde com o elogio do inimigo morto.
  • Cássio: o único que quis matá-lo, e a quem derrota em Filipos.
  • Otávio: o jovem aliado que Antônio acha que pode guiar e que não lhe cede a posição em Filipos.
  • Casca: o conspirador a quem ele chama de cão que feriu César por trás.