Clavis Libri

Personagem

Casca

Quem é

Casca é o conspirador de língua afiada e modos rudes. Bruto estranha a grosseria que ele passou a ter desde a escola, e Cássio a chama de molho de um bom juízo. É quem conta a Bruto e a Cássio o que aconteceu na festa das Lupercais, com o desprezo de quem desmonta um espetáculo, e quem dá o primeiro golpe em Júlio César no Capitólio.

Trajetória

Na cena 2 do Ato I, Bruto o puxa pelo manto quando o cortejo de César passa, e Casca conta que Antônio ofereceu uma coroa, três vezes, e que César a recusou, cada vez com mais suavidade. Diz que, a seu ver, César a queria, e admite que não prestou atenção, porque tudo aquilo era bobagem. Descreve a multidão aplaudindo como se aplaude atores, os barretes suados jogados ao ar, o hálito fétido dos que gritaram a ponto de César desmaiar e espumar. Sobre Cícero, diz que falou grego, e que, para ele, era grego: quem entendeu sorria e balançava a cabeça. Avisa que Flávio e Marulo foram silenciados por tirar os enfeites das estátuas. Quando Cássio o convida para jantar, responde que sim, se estiver vivo, se Cássio mantiver a opinião e se o jantar valer. Depois que ele sai, Bruto estranha a grosseria, e Cássio responde que ela é o molho do juízo dele.

Na cena 3 do Ato I, na noite de tempestade, corre com a espada na mão ao encontro de Cícero e conta os prodígios: um escravo cuja mão esquerda ardeu como vinte tochas sem queimar, um leão que o encarou e passou sem tocá-lo no Capitólio, cem mulheres que juraram ter visto homens em fogo. Cícero responde que os homens interpretam os fatos a seu modo, e vai embora. Cássio o encontra e o acha lento. Casca diz que cada servo tem na própria mão o poder de cancelar o cativeiro, aceita a mão de Cássio e promete ir tão longe quanto o mais longe. Depois, comenta que Bruto está alto no coração do povo e que o que em outros seria ofensa será virtude nele.

Na cena 1 do Ato II, chega com os outros, encapuzados, e discute com Décio e Cina de onde vem o sol. Defende incluir Cícero e, ouvindo Bruto, concorda que ele não serve. Na cena 2 do Ato II, vem com Bruto buscar César, que o cumprimenta pelo nome. Na cena 1 do Ato III, é quem diz "Falem, mãos, por mim" e dá o primeiro golpe, no pescoço, e depois pede a Bruto que vá ao púlpito. Diz que quem corta vinte anos de vida corta outros tantos anos de medo da morte.

Não aparece mais em cena depois disso. Na cena 2 do Ato III, Antônio mostra o rasgo no manto e diz que foi a faca do invejoso Casca. Na cena 1 do Ato V, o chama de cão que feriu César por trás.

Temas que encarna

Casca é o que conta e é o que age, e as duas coisas combinam: na cena 2 do Ato I, desmonta o ritual com desprezo, e na cena 1 do Ato III, abre o ritual do assassinato com uma frase curta, "falem, mãos, por mim". Cina o lembra de que ele será o primeiro a erguer a mão, e ele é.

A cena da coroa, o fato mais grave de Roma naquele dia, chega ao leitor pelo narrador mais hostil possível: Casca não gosta de César, não gosta do povo e não gosta de contar. O que ele conta é o desprezo e a dúvida, e não o que viu: nem ele sabe se César queria a coroa. A Linguagem e narração da peça começa com quem não quer narrar, e no Ato III a Lealdade e traição se faz com uma frase só. Na noite de tempestade, Casca lê os prodígios como sinal do céu, e Cássio lê os mesmos prodígios como sinal contra César: a leitura serve a quem a faz.

Relações

  • Cássio: quem o recruta na noite da tempestade, depois de tê-lo achado lento, e quem manda Bruto puxar Casca pelo manto para saber o que aconteceu.
  • Bruto: quem o puxa pelo manto para ouvir a cena da coroa, e a quem ele manda ao púlpito depois do golpe.
  • Júlio César: a vítima, que o cumprimenta pelo nome na manhã dos Idos e cai com o primeiro golpe dele.
  • Marco Antônio: quem o chama de cão que feriu César por trás.