O que é
Os sinais do céu, da terra e dos sonhos que a peça distribui em torno do assassinato: a tempestade de fogo, o leão solto na rua, a ave noturna em pleno dia, o animal sacrificado sem coração, os sonhos de Calpúrnia e do poeta Cina, as águias trocadas por corvos. Ninguém lê o mesmo sinal do mesmo jeito.
Onde aparece
Na cena 3 do Ato I, numa noite de tempestade, Casca conta a Cícero o que viu: um escravo cuja mão ardia sem queimar, um leão que passou sem lhe fazer mal, mulheres que juravam ter visto homens em chamas, a ave noturna no mercado ao meio-dia. Cícero responde que os homens interpretam os fatos a seu modo, e Cássio, sob os mesmos raios, lê neles um aviso do céu contra um homem que cresceu demais.
Na cena 1 do Ato II, Bruto lê a carta anônima à luz dos meteoros que cortam o ar.
Na cena 2 do Ato II, Calpúrnia relata o que a guarda viu: uma leoa que pariu na rua, túmulos abertos, guerreiros de fogo que lutam nas nuvens e pingam sangue sobre o Capitólio, e conta o sonho em que a estátua de César jorrava sangue. Os augúrios não acharam coração no animal sacrificado. César responde que o que os deuses decidiram não se evita e chama de covardia o medo; Décio reinterpreta o sonho como sinal de que Roma beberá a vida de César.
Cowards die many times before their deaths; / The valiant never taste of death but once, os covardes morrem muitas vezes antes de morrer; o valente só prova a morte uma vez (II.2)
Na cena 3 do Ato III, o poeta Cina sai de casa depois de sonhar que jantava com César, sem vontade e sem saber por que, e a turba o mata pelo nome.
Na cena 1 do Ato V, Cássio, que seguia Epicuro, confessa que passou a dar crédito em parte ao que anuncia o futuro: as duas águias que acompanharam o exército até Filipos sumiram, e corvos, gralhas e milhafres voam sobre as tropas como sobre uma presa doente. Messala pede que ele não creia, e Cássio diz que crê só em parte.
O que significa
Cada sinal serve a quem o lê. Cássio o usa como aviso do céu contra César, mas já tinha dito que a culpa não está nas estrelas; Décio inverte o sonho de Calpúrnia a favor da saída de César; Cícero lembra que os homens leem as coisas fora do propósito delas. O único que muda de ideia é o próprio Cássio, no Ato V, quando o epicurista passa a crer.
Os presságios da peça não decidem nada, mas todos os que os leem agem conforme a leitura: César sai porque Décio troca o sinal, Cássio conspira porque a tempestade lhe convém, e é só quando o fim chega que o descrente trata o céu como prova.
Relações
- Temas-padrão: Destino e livre-arbítrio, Linguagem e narração.
- Personagens: Calpúrnia, Casca, Cássio, Júlio César.
- Símbolos vizinhos: Os Idos de Março, o aviso que o adivinho dá em voz humana; O espectro de César, o último dos sinais.