Clavis Libri

Tema em Madame Bovary

Amor

O amor como vínculo que move a obra: amor romântico, amor cortês, amor de pai e de filho, amor a Deus.

O tema na obra

Emma Bovary conhece o amor pelos livros antes de conhecê-lo pela vida. No capítulo 6 da Parte I, a perturbação da novidade, quando Charles Bovary aparece no Bertaux, basta para convencê-la de que sente a paixão que vira nos romances; no capítulo 5, a felicidade que esse amor devia trazer não vem, e ela conclui que se enganou; no capítulo 7, tenta amar o marido recitando versos ao luar e não sente nada.

Na Parte II o amor tem dois rostos. Com Léon, ele nasce de gostos trocados no jantar do capítulo 2, é definido no capítulo 4 como tempestade que deve cair dos céus, é reconhecido por Emma no capítulo 5 e reprimido na virtude, e termina no capítulo 6 num aperto de mão à inglesa. Com Rodolphe Boulanger, é uma corte de comício no capítulo 8, uma rendição na floresta no capítulo 9, um rio que baixa até mostrar o lodo no capítulo 10, um plano de fuga no capítulo 12 e uma carta de ruptura no 13. No capítulo 14 Emma dirige a Deus as palavras do amante, e no 15, na ópera, reencontra Léon.

Na Parte III, Léon a leva da catedral ao fiacre no capítulo 1, e os três dias do capítulo 3 são uma lua de mel. No capítulo 5 os papéis se invertem, e é Léon quem se porta como amante dela; no 6, os dois estão cansados um do outro, e Emma encontra no adultério a insipidez do casamento. No capítulo 8, Rodolphe recusa o dinheiro que salvaria Emma, e ela, já agonizante, dá ao crucifixo o maior beijo de amor da vida. Restam os que a amaram sem que ela visse: no capítulo 10, Charles tenta se atirar na cova e Justin chora de noite sobre o túmulo; no 11, Charles escreve, nas felicitações pelo casamento de Léon, que a pobre mulher teria ficado feliz, e morre segurando uma mecha do cabelo dela.

O livro tem dois amores que não se encontram. O de Emma é uma forma à procura de conteúdo: muda de homem e conserva o vocabulário, e por isso nenhum dos três a satisfaz. O de Charles não tem vocabulário nenhum e não muda de objeto, nem depois que ele descobre as cartas. Flaubert dá o amor mais constante ao homem menos capaz de dizê-lo, e é justamente esse que Emma nunca vê.

Onde aparece

Passagens

O amor que Emma espera vem dos livros, e tem forma de tempestade.

o amor, segundo acreditava, devia surgir de repente, com grande tumulto e fulgurações [...] tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo o coração inteiro.
Parte II, capítulo 4

Com Rodolphe, o amor baixa até mostrar o fundo.

o grande amor existente entre ambos, e em que ela vivia mergulhada, lhe pareceu diminuir aos seus pés, como a água de um rio absorvida pelo seu próprio leito descobrindo o lodo.
Parte II, capítulo 10

Com Léon, os papéis se invertem.

era ele quem realmente se comportava como se fosse uma amante
Parte III, capítulo 5

O pedido de dinheiro é a prova que o amor de Rodolphe não aguenta.

porque um pedido pecuniário é a mais fria e devastadora de todas as tempestades que podem desabar sobre o amor.
Parte III, capítulo 8

O amor de Charles fala sem saber o que diz.

Como a minha pobre mulher se teria sentido feliz!
Parte III, capítulo 11