O tema na obra
O amor entra no romance tarde, no capítulo 13, e entra contado de segunda mão: é o O mestre quem narra a Ivan Nikoláievitch Bezdômny, no hospício, o encontro, na primavera anterior, com uma desconhecida que levava flores amarelas. Ela era casada, passou a visitá-lo todos os dias no subsolo perto da Arbat, leu o romance sobre Pilatos enquanto ele o escrevia e foi quem começou a chamá-lo de mestre. Quando os ataques dos críticos o adoecem de medo e ele queima o manuscrito, ela chega a tempo de salvar um maço de folhas e promete deixar o marido; ele recusa, doente e com medo de arrastá-la consigo.
A Segunda Parte abre com ela, no capítulo 19, e só então ela ganha nome: Margarida Nikoláievna, trinta anos, casada com um homem rico e bom a quem não ama, vivendo há meses o luto por um homem que ninguém sabe se está vivo. O narrador interrompe a história para garantir ao leitor que o amor verdadeiro existe. Daí em diante é o amor que move o enredo: ela aceita o convite de Azazello porque ele promete notícias do mestre, passa o creme e deixa ao marido um bilhete de adeus no capítulo 20, destrói o apartamento do crítico Latunski no capítulo 21 e preside o baile de Woland no 23.
No capítulo 24, quando Woland lhe oferece a paga, ela pede primeiro por Frida e só depois pelo mestre, que volta do hospício doente e assustado. Dali ao fim o amor aparece sobretudo como constância: no capítulo 29, Mateus Levi pede a Woland que leve junto aquela que amou o mestre e sofreu por ele; no 30, o mestre pede que ela volte para casa, e ela recusa; no 32, é ela quem o conduz até a casa eterna e promete guardar o seu sono.
O romance dá ao amor a iniciativa que nega ao talento: o mestre escreve o livro e o queima, Margarida salva do fogo o que restou e depois o tira do hospício. A imagem do capítulo 13, o amor que surge como um assassino numa travessa, já avisa que ele não vai pedir licença à moral corrente, e de fato não pede: o adultério, o pacto e a bruxaria são o preço que ela paga, e o livro não a censura por nenhum deles. O desfecho recompensa esse amor com sossego, não com glória, e quem tem a última fala na caminhada até a casa eterna é ela, não o mestre.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo 13: Surge o herói: o mestre conta a Ivan o encontro das flores amarelas, o romance lido a dois e a recusa de deixá-la partilhar a sua ruína.
- Segunda Parte, capítulo 19: Margarida: Margarida entra em cena de luto pelo mestre, e o narrador jura ao leitor que o amor verdadeiro existe.
- Segunda Parte, capítulo 20: O creme de Azazello: ela abandona o marido com um bilhete e vira bruxa para ir atrás do mestre.
- Segunda Parte, capítulo 21: O voo: a fúria contra Latunski é a vingança de quem ama o autor que ele destruiu.
- Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestre: a paga do baile é o mestre de volta, doente, pedindo que ela não chore.
- Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido: Levi pede que a mulher que amou e sofreu pelo mestre o acompanhe no destino dele.
- Segunda Parte, capítulo 30: Está na hora! Está na hora!: o mestre tenta mandá-la de volta para casa, e ela recusa.
- Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno: Margarida conduz o mestre até a casa eterna e promete velar o seu descanso.
Passagens
O encontro na travessa, contado pelo mestre, com a imagem que define o amor no livro.
O amor surgiu diante de nós, como um assassino que surge do nada em uma travessa, e nos acertou em cheio.
A abertura da Segunda Parte, em que o narrador fala direto ao leitor.
Quem lhe disse que não existe no mundo o verdadeiro, o fiel, o eterno amor? Pois que cortem a língua desse mentiroso infame!
O bilhete deixado ao marido, a ruptura sem volta.
Perdoe-me e me esqueça o mais rápido possível. Estou te abandonando para a eternidade. Não me procure, é inútil. Tornei-me uma bruxa por causa das desgraças e das tristezas que me atingiram. Está na minha hora. Adeus.
O reencontro, que não tem nada de triunfal.
Não chore, Margot, não me faça sofrer. Estou muito doente.
A chegada à casa eterna, na voz de Margarida.
Ouça o sossego [...] ouça e deleite-se com aquilo que não lhe deram em vida, o silêncio.