Clavis Libri

Tema em O Vermelho e o Negro

Amor

O amor como vínculo que move a obra: amor romântico, amor cortês, amor de pai e de filho, amor a Deus.

O tema na obra

A Madame de Rênal, casada aos dezesseis anos, nunca sentira nada parecido com o amor (Livro I, cap. 7), e o descobre quase sem perceber: a alegria desproporcional quando Julien Sorel recusa Elisa (cap. 8), a mão que fica na dele sob a tília (cap. 9), o terror da palavra adultério (cap. 11). Julien começa do outro lado, por dever e por vaidade, com plano escrito (caps. 13 e 14), e o narrador avisa que, mesmo apaixonado, o amor dele ainda é ambição (cap. 16). A doença do filho caçula torna os dois mais sombrios (cap. 19), e a carta anônima acaba por separá-los (cap. 23).

Mathilde de La Mole é a experiência oposta. Ela decide amar para escapar do tédio de sua classe (Livro II, cap. 11), escolhe Julien justamente porque ele não é nobre (cap. 12) e faz de cada passo uma prova de coragem: a escada à uma da manhã (cap. 16), as confidências cruéis (cap. 18), a declaração de que já não o ama (cap. 20). O narrador chama esse sentimento de amor cerebral (cap. 19), e Julien só a reconquista fingindo, com as cartas de Korasoff (caps. 24 a 29). O contraste entre os dois amores é ele mesmo quem formula (cap. 30).

A carta da sra. de Rênal ao Marquês de La Mole desfaz o casamento e leva ao tiro na igreja de Verrières (cap. 35). Na prisão a ordem se inverte: a devoção de Mathilde cansa Julien (cap. 39), a sra. de Rênal escreve aos jurados (cap. 40) e vem suplicar que ele apele (cap. 43). No fim, Mathilde beija a cabeça do amante e manda ornar a gruta com mármores; a sra. de Rênal morre três dias depois dele, abraçada aos filhos (cap. 45).

Os dois amores são o experimento central do romance, e Stendhal não diz qual vale mais: o fim só mostra para qual dos dois Julien volta. Um nasce sem saber que é amor, o outro nasce de um projeto e de uma leitura; um vive de impulso, o outro precisa de motivo novo a cada capítulo. Julien passa o livro apostando no segundo, que confirma a ambição dele, e só descobre na cela que o primeiro era o único lugar onde não precisava calcular. O tiro é o ponto onde as duas linhas se cruzam: ele mesmo não sabe dizer se atirou por ambição ou por amor a Mathilde (cap. 42), e é o amor pela sra. de Rênal que sobrevive ao tiro.

Onde aparece

Passagens

O ponto de partida da sra. de Rênal, que não sabia o que era amar:

Cap. VII. O narrador sobre a formação sentimental da sra. de Rênal: A sra. de Rênal, rica herdeira de uma tia devota, casada aos dezesseis anos com um bom fidalgo, nunca na vida sentira ou vira nada que se parecesse minimamente com o amor.
Livro I, capítulo 7: As afinidades eletivas

A primeira noite sob a tília, do lado dela:

Cap. IX. Na mesma noite, do lado dela: Quanto à sra. de Rênal, de mãos dadas com Julien, esta não pensava em nada, deixava-se viver.
Livro I, capítulo 9: Uma noite no campo

O nome que o narrador dá ao amor de Mathilde:

O amor cerebral é sem dúvida mais espirituoso que o verdadeiro amor, mas só tem alguns instantes de entusiasmo; ele se conhece demais, ele se julga sem cessar; em vez de extraviar o pensamento, só se constrói por força dos pensamentos.
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe

O contraste dos dois amores, pensado pelo próprio Julien:

A sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que seu coração lhe ditava; essa moça da alta sociedade só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova.
Livro II, capítulo 30: Um camarote na Ópera Bouffe

O fim da sra. de Rênal, sem cena e sem discurso:

A sra. de Rênal se manteve fiel a sua promessa. Não tentou de modo algum atentar contra sua vida; mas, três dias depois morreu abraçada aos filhos.
Livro II, capítulo 45