O tema na obra
No Livro I o orgulho é a armadura de um rapaz pobre. Julien Sorel recusa, ofendido, o dinheiro que a Madame de Rênal lhe oferece (Livro I, cap. 7), enfrenta o patrão e chama de batalha ganha o aumento arrancado (cap. 10), e faz da conquista da mulher um dever: impõe-se um prazo para lhe tomar a mão (cap. 9), decide por vaidade ser seu amante (cap. 13) e traça um plano de campanha porque o orgulho não deixa nada ao acaso (cap. 14). Em volta dele, o orgulho dos notáveis é de outra espécie: Monsieur de Rênal contrata o preceptor para não ficar atrás dos cavalos normandos de Valenod (cap. 3).
No Livro II o orgulho vira o terreno do próprio amor. Mathilde de La Mole mede os homens pela condenação à morte (Livro II, cap. 8), reina no salão por epigramas (cap. 11) e escreve a declaração depois de lutar contra o próprio orgulho (cap. 14). Daí em diante o caso é uma guerra em que quem ama perde: ela se entrega e logo tem horror de ter se dado ao primeiro que apareceu (caps. 16 e 17), jura servidão e a retira (cap. 19), declara que já não o ama (cap. 20). Julien só vence quando aprende a não demonstrar nada, e a cena em que ela cai a seus pés é o triunfo dele (cap. 29), seguido da decisão fria de amedrontá-la (cap. 31).
O orgulho de casta entra quando a gravidez se torna conhecida: o Marquês de La Mole não suporta perder o título de duquesa para a filha (cap. 33), e Mathilde responde com o gesto heroico de pedir ajuda à própria rival (cap. 39). Na prisão, Julien recusa apelar para não morrer provocando risos (cap. 42), mas diante da sra. de Rênal já não tem amor-próprio nenhum (cap. 45).
O orgulho é o que liga Julien a Mathilde e o que o separa da sra. de Rênal. Com Mathilde, cada gesto é medido pelo efeito sobre o outro, e o amor só dura enquanto a balança não pende; com a sra. de Rênal, o orgulho é o que ele precisa vencer em si mesmo para ser feliz. O livro termina com os dois movimentos lado a lado: o orgulho que ainda o faz recusar a apelação e a falta de amor-próprio diante da única pessoa a quem ele não precisa provar nada.
Onde aparece
- Livro I, capítulo 3: Um cura: Rênal contrata o preceptor por prestígio: Valenod acaba de comprar dois cavalos normandos e não tem preceptor para os filhos.
- Livro I, capítulo 7: As afinidades eletivas: Julien recusa, ofendido, os luíses que a sra. de Rênal lhe oferece e se diz pronto a mostrar ao prefeito o livro de despesas.
- Livro I, capítulo 9: Uma noite no campo: Julien se impõe um prazo para tomar a mão da sra. de Rênal, sob pena de estourar os miolos, e no dia seguinte responde com desprezo à repreensão do marido.
- Livro I, capítulo 10: Um grande coração: Fora de si, Julien enfrenta Rênal, diz que pode viver sem ele e, sozinho no bosque, chama o aumento de batalha ganha.
- Livro I, capítulo 11: Uma noite: Julien se apressa a contar o aumento a Valenod e, depois da noite no jardim, chama de puro Napoleão o plano de aproveitar a vitória e esmagar o orgulho do prefeito.
- Livro I, capítulo 13: As meias rendadas: Julien decide por vaidade e por dever tornar-se amante da sra. de Rênal.
- Livro I, capítulo 14: A tesoura inglesa: O orgulho de Julien não deixa nada ao acaso nem à inspiração do momento, e ele traça um plano de campanha detalhado.
- Livro II, capítulo 5: A sensibilidade e uma grande piedade: Na casa de La Mole, Julien se impõe a regra de nunca dirigir a palavra a Mathilde.
- Livro II, capítulo 6: Modo de pronunciar: Insultado num café, Julien vai à casa do cavalheiro cujo nome está nos cartões, derruba o cocheiro a chicotadas e se bate em duelo.
- Livro II, capítulo 8: Qual a condecoração mais honrosa: Mathilde mede os pretendentes pela máxima de que só a condenação à morte honra um homem, porque é a única coisa que não se compra.
- Livro II, capítulo 10: A rainha Margarida: Mathilde se veste de luto pelo antepassado decapitado e confessa amar o século das guerras da Liga Santa.
- Livro II, capítulo 11: O império de uma moça: Mathilde reina no salão por epigramas e compara as cartas todas iguais dos pretendentes aos atos de grandeza do Império.
- Livro II, capítulo 12: Será um Danton: Mathilde desmonta Caylus e os outros quando atacam Julien e acha o maior dos elogios a ideia de que ele seria um Danton.
- Livro II, capítulo 13: Uma conspiração: Julien festeja a declaração de Mathilde como a vitória do carpinteiro do Jura sobre Croisenois.
- Livro II, capítulo 14: Pensamentos de uma moça: Mathilde escreve depois de lutar contra o próprio orgulho e responde ao poder que daria a Julien citando Medeia: resta-lhe ela mesma.
- Livro II, capítulo 15: Será uma conspiração: Recusar o convite seria uma covardia aos olhos de Mathilde e aos seus, e Julien não quer carregar essa dúvida pelo resto da vida.
- Livro II, capítulo 16: Uma hora da manhã: Na noite da escada, Julien não sente ternura e só chega, pela razão, à alegria do amor-próprio de se ver estimado por uma moça tão orgulhosa.
- Livro II, capítulo 17: Uma velha espada: Mathilde diz ter horror de ter se entregado ao primeiro que apareceu, e Julien se lança sobre a velha espada da biblioteca.
- Livro II, capítulo 18: Momentos cruéis: Com a certeza de ser amada, Mathilde o despreza por completo e o faz ouvir seus entusiasmos por outros.
- Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe: Mathilde jura servidão e lhe atira uma mecha de cabelo, e logo depois volta a olhá-lo com olhos educados e calmos.
- Livro II, capítulo 20: O vaso japonês: Mathilde declara na biblioteca que não o ama mais, e Julien tenta em vão se justificar.
- Livro II, capítulo 29: O tédio: Mathilde cai aos pés de Julien pedindo perdão, e ele pensa que ali está a orgulhosa a seus pés.
- Livro II, capítulo 30: Um camarote na Ópera Bouffe: Julien diz a Mathilde que também tem orgulho e resiste até o limite do que a coragem de um homem suporta.
- Livro II, capítulo 31: Amedrontá-la: Julien decide amedrontá-la e lhe responde em tom glacial que nada garante que ela o amará por oito dias.
- Livro II, capítulo 33: O inferno da fraqueza: O marquês cobre Julien de insultos porque a filha não será duquesa, e Mathilde jura ao pai que será publicamente a viúva Sorel.
- Livro II, capítulo 39: A intriga: Mathilde pede à rival, a marechala de Fervaques, que venha a Besançon, gesto heroico de uma criatura orgulhosa e ciumenta.
- Livro II, capítulo 42: Julien recusa apelar porque agora se sente com coragem para morrer sem provocar risos, e não sabe se a terá dentro de dois meses.
- Livro II, capítulo 45: Diante da sra. de Rênal, Julien não tem o menor amor-próprio e lhe conta todas as suas fraquezas.
Passagens
O orgulho de Julien desde a primeira conquista, que ele transforma em campanha:
Seu orgulho não queria deixar nada ao acaso, nem à inspiração do momento. De acordo com as confidências de Fouqué e com o pouco que lera sobre o amor em sua Bíblia, traçou um plano de campanha bastante detalhado.
A vitória sobre o patrão, contada no vocabulário da guerra:
Cap. X. Depois de arrancar o aumento, Julien sobe ao bosque e dá nome ao que fez no vocabulário do chefe que admira, a guerra:Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!
Mathilde, diante do poder que daria a Julien se o amasse:
Cap. XIV. Mathilde, diante do poder que daria a Julien:Quais serão suas pretensões, se algum dia tiver todo o poder sobre mim? Pois bem! Direi como Medeia: Em meio a tantos perigos, resta-me EU.
O triunfo dele, no ponto mais alto da guerra de vaidades:
Aí está essa orgulhosa, a meus pés!, pensou Julien.
E o fim do amor-próprio, diante da sra. de Rênal:
Julien não tinha o menor amor-próprio perante ela e lhe contou todas as suas fraquezas.