Clavis Libri

Tema em O Vermelho e o Negro

Orgulho

A soberba: vaidade, arrogância, a desmedida que os gregos chamavam de hýbris.

O tema na obra

No Livro I o orgulho é a armadura de um rapaz pobre. Julien Sorel recusa, ofendido, o dinheiro que a Madame de Rênal lhe oferece (Livro I, cap. 7), enfrenta o patrão e chama de batalha ganha o aumento arrancado (cap. 10), e faz da conquista da mulher um dever: impõe-se um prazo para lhe tomar a mão (cap. 9), decide por vaidade ser seu amante (cap. 13) e traça um plano de campanha porque o orgulho não deixa nada ao acaso (cap. 14). Em volta dele, o orgulho dos notáveis é de outra espécie: Monsieur de Rênal contrata o preceptor para não ficar atrás dos cavalos normandos de Valenod (cap. 3).

No Livro II o orgulho vira o terreno do próprio amor. Mathilde de La Mole mede os homens pela condenação à morte (Livro II, cap. 8), reina no salão por epigramas (cap. 11) e escreve a declaração depois de lutar contra o próprio orgulho (cap. 14). Daí em diante o caso é uma guerra em que quem ama perde: ela se entrega e logo tem horror de ter se dado ao primeiro que apareceu (caps. 16 e 17), jura servidão e a retira (cap. 19), declara que já não o ama (cap. 20). Julien só vence quando aprende a não demonstrar nada, e a cena em que ela cai a seus pés é o triunfo dele (cap. 29), seguido da decisão fria de amedrontá-la (cap. 31).

O orgulho de casta entra quando a gravidez se torna conhecida: o Marquês de La Mole não suporta perder o título de duquesa para a filha (cap. 33), e Mathilde responde com o gesto heroico de pedir ajuda à própria rival (cap. 39). Na prisão, Julien recusa apelar para não morrer provocando risos (cap. 42), mas diante da sra. de Rênal já não tem amor-próprio nenhum (cap. 45).

O orgulho é o que liga Julien a Mathilde e o que o separa da sra. de Rênal. Com Mathilde, cada gesto é medido pelo efeito sobre o outro, e o amor só dura enquanto a balança não pende; com a sra. de Rênal, o orgulho é o que ele precisa vencer em si mesmo para ser feliz. O livro termina com os dois movimentos lado a lado: o orgulho que ainda o faz recusar a apelação e a falta de amor-próprio diante da única pessoa a quem ele não precisa provar nada.

Onde aparece

Passagens

O orgulho de Julien desde a primeira conquista, que ele transforma em campanha:

Seu orgulho não queria deixar nada ao acaso, nem à inspiração do momento. De acordo com as confidências de Fouqué e com o pouco que lera sobre o amor em sua Bíblia, traçou um plano de campanha bastante detalhado.
Livro I, capítulo 14: A tesoura inglesa

A vitória sobre o patrão, contada no vocabulário da guerra:

Cap. X. Depois de arrancar o aumento, Julien sobe ao bosque e dá nome ao que fez no vocabulário do chefe que admira, a guerra: Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!
Livro I, capítulo 10: Um grande coração

Mathilde, diante do poder que daria a Julien se o amasse:

Cap. XIV. Mathilde, diante do poder que daria a Julien: Quais serão suas pretensões, se algum dia tiver todo o poder sobre mim? Pois bem! Direi como Medeia: Em meio a tantos perigos, resta-me EU.
Livro II, capítulo 14: Pensamentos de uma moça

O triunfo dele, no ponto mais alto da guerra de vaidades:

Aí está essa orgulhosa, a meus pés!, pensou Julien.
Livro II, capítulo 29: O tédio

E o fim do amor-próprio, diante da sra. de Rênal:

Julien não tinha o menor amor-próprio perante ela e lhe contou todas as suas fraquezas.
Livro II, capítulo 45