"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria" é a última frase de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Brás, morto, soma o que não foi nem teve (a celebridade do emplasto, o ministério, o casamento), compara tudo ao que a sorte lhe poupou e conclui que ficou com "um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas": nenhum filho.
A frase é ao mesmo tempo um ganho e uma perda. Brás encerra a linhagem e se alivia disso, e a "nossa miséria" que não passou adiante é a de todos, não só a dele. Duas leituras cabem: a de um pessimismo pleno, para quem viver é herdar uma miséria, e a do alívio de quem não deixa ninguém para sofrer.
A ideia de ter filhos aparece antes, e sempre como sensação, não como razão. Quando a irmã Sabina decreta que ele deve casar, porque um solteirão sem filhos tem mau futuro, Brás registra: "Sem filhos! A idéia de ter filhos deu-me um sobressalto". Quando Virgília engravida, ele exclama "Um filho! Um ser tirado do meu ser!" e passa as semanas a conversar em pensamento com o embrião; ao perder o embrião, responde com a piada de que ali "se não distingue Laplace de uma tartaruga". Assim o saldo final é uma ausência que o defunto lança a seu favor.