"Póstumas" quer dizer escritas depois da morte. O livro se chama Memórias Póstumas de Brás Cubas porque Brás Cubas as escreve já morto, e ele explica a escolha no primeiro capítulo: "eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço". A frase inverte os termos: ele não é um escritor que morreu, é um morto que escreve, e a sepultura, para ele, foi um segundo berço. A morte é o lugar de onde ele fala.
A dedicatória já é do morto: ele dedica as memórias "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver", como saudosa lembrança. O livro abre pelo fim, com a data da morte, a idade, o estado civil e os onze amigos que foram ao enterro, e só depois recua ao nascimento.
Estar morto serve a Brás para falar sem medo. No capítulo XXIV ele diz que "a franqueza é a primeira virtude de um defunto" e avisa os vivos de que "não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados". Quem nada mais arrisca pode confessar o interesse por trás de cada gesto, a começar pelo dele: no emplasto que o matou, o motivo principal era ver o próprio nome impresso, mais do que aliviar a humanidade. O livro deixa em aberto se essa franqueza é liberdade de quem nada mais arrisca ou pose de quem escolhe com cuidado o que mostrar.