Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em folhetins na Revista Brasileira a partir de março de 1880 e em livro em 1881, costuma ser apontado como o divisor de águas da obra de Machado de Assis e o marco inicial do Realismo no Brasil. Os romances anteriores dele, como Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia, seguiam o gosto romântico da época, com enredo de amor e conflito de sentimentos. A partir deste livro vem a fase que o consagrou, com Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires.
A mudança está, antes de tudo, no narrador. Brás Cubas conta a própria vida depois de morto, interrompe a história para falar com o leitor, corrige capítulos anteriores e escreve capítulos de uma linha. Machado reconhece a dívida com a forma livre de Laurence Sterne e de Xavier de Maistre, mas, no prólogo da terceira edição, aponta o que separa o livro desses modelos: "Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir de seus modelos."
O que o livro tem de realista é o olhar sem ilusão sobre a sociedade do Rio no século XIX: o interesse por trás dos amores, a vaidade que move a carreira política, a escravidão tratada com naturalidade pelos donos, a opinião pública que importa mais que a consciência. Nada disso é contado com indignação; é mostrado pela voz de um homem que se confessa sem pudor porque já não tem nada a perder.