O tema na obra
A Odisseia é o poema do retorno, e o retorno se mede pela casa que espera. O proêmio pede à Musa o homem que vagou muito depois de saquear Troia (Canto I). Quando a história começa, todos os sobreviventes da guerra já voltaram, menos Odisseu, retido na ilha de Calipso, e o que ele deseja é pouco: ver ao menos a fumaça que sobe da própria terra, e sem isso quer morrer.
A casa que espera está ocupada. No Canto I, os pretendentes comem o sustento de Odisseu sem pagar, e Telêmaco imagina o pai chegando para expulsá-los. No Canto II, ele convoca a assembleia, atira o cetro ao chão e chora. No Canto XVI, imagina o leito do pai coberto de teias de aranha, se a mãe já tiver casado.
O exílio tem rostos. No Canto V, Calipso oferece a imortalidade, e Odisseu concede que Penélope é mortal e inferior em aparência, mas diz que quer, todos os dias, voltar e ver o dia do regresso. No Canto IX, diz aos feácios que Ítaca é áspera e que não vê terra mais doce, e conta que os lotófagos oferecem um fruto que faz esquecer o retorno, e que ele arrasta de volta às naus os que o provaram. No Canto X, Circe o retém por um ano, até os companheiros lembrarem a pátria.
O retorno falha de perto. No Canto X, Odisseu avista os fogos da pátria no décimo dia, adormece, e os companheiros abrem o odre dos ventos, que os leva de volta. No Canto XII, os companheiros matam as vacas do Sol enquanto ele dorme, e Zeus destrói o navio. No Canto XI, Tirésias já tinha dito que, se ele escapar, voltará tarde, sem companheiros e em navio alheio, e encontrará desgraças em casa.
O retorno não é uma chegada. Odisseu desembarca dormindo, não reconhece a terra e confere os presentes antes de chorar a pátria (Canto XIII). Entra na própria casa como mendigo e a recupera por provas, o arco, a cicatriz, o leito, que o fazem dono sem que ele precise pedir. Mesmo depois do leito, avisa a Penélope que resta uma última viagem, a do remo que Tirésias anunciou (Canto XXIII), e a paz de Ítaca vem decretada por Atena e por Zeus, não pelas famílias (Canto XXIV). Ítaca é parada, não repouso.
Onde aparece
- Canto I: Atena diz a Zeus que Odisseu, preso na ilha de Calipso, deseja ver ao menos a fumaça subindo de sua terra e, sem isso, quer morrer, e os deuses decidem o retorno.
- Canto V: Calipso oferece a imortalidade, e Odisseu, que reconhece Penélope como inferior em aparência, responde que quer todos os dias voltar para casa e ver o dia do regresso.
- Canto IX: Odisseu diz aos feácios que Ítaca é áspera, mas que nada é mais doce do que a pátria, e conta que os lotófagos oferecem um fruto que apaga o desejo de voltar.
- Canto X: Os fogos de Ítaca ficam à vista no décimo dia de viagem, mas Odisseu dorme, os companheiros abrem o odre dos ventos e a tempestade os leva de volta.
- Canto XI: Na descida aos mortos, Tirésias anuncia que o retorno será duro e que Odisseu voltará tarde, sem companheiros e em navio alheio, e encontrará desgraças em casa.
- Canto XIII: Os feácios deixam Odisseu dormindo na praia de Ítaca, e ele acorda sem reconhecer a terra, porque Atena derramou névoa sobre ele para adiar o reconhecimento.
- Canto XVI: Telêmaco diz a Eumeu que veio saber se a mãe ainda está na casa, e imagina o leito do pai coberto de teias de aranha.
- Canto XVII: À porta do palácio, o cão Argos reconhece Odisseu depois de vinte anos, e o herói, disfarçado de mendigo, só pode enxugar uma lágrima às escondidas.
- Canto XXIII: Penélope reconhece o marido pela descrição do leito feito em torno da oliveira, e Odisseu avisa em seguida que ainda resta uma última prova, anunciada por Tirésias.
- Canto XXIV: Odisseu reencontra Laertes no pomar, é reconhecido pela cicatriz e pelas árvores que o pai lhe deu, e a luta com os itacenses só termina quando Atena firma o pacto.
Passagens
Atena lembra a Zeus o desejo mínimo de Odisseu.
αὐτὰρ Ὀδυσσεύς, / ἱέμενος καὶ καπνὸν ἀποθρῴσκοντα νοῆσαι / ἧς γαίης, θανέειν ἱμείρεται.(1.57-59), mas Odisseu, desejando ver ao menos a fumaça subindo da sua terra, anseia por morrer.
Calipso oferece a imortalidade, e Odisseu concede a premissa e recusa a conclusão.
πότνα θεά, μή μοι τόδε χώεο· οἶδα καὶ αὐτὸς / πάντα μάλʼ, οὕνεκα σεῖο περίφρων Πηνελόπεια / εἶδος ἀκιδνοτέρη μέγεθός τʼ εἰσάντα ἰδέσθαι· / ἡ μὲν γὰρ βροτός ἐστι, σὺ δʼ ἀθάνατος καὶ ἀγήρως. / ἀλλὰ καὶ ὣς ἐθέλω καὶ ἐέλδομαι ἤματα πάντα / οἴκαδέ τʼ ἐλθέμεναι καὶ νόστιμον ἦμαρ ἰδέσθαι(5.215-220), soberana deusa, não te irrites comigo por isto: eu mesmo sei muito bem que a prudente Penélope é inferior a ti no aspecto e na estatura, a quem a olhe de frente; pois ela é mortal, e tu és imortal e sem velhice. Mas, ainda assim, quero e desejo todos os dias voltar para casa e ver o dia do regresso.
Ítaca é pobre, e o herói não a troca por nenhuma outra terra.
τρηχεῖʼ, ἀλλʼ ἀγαθὴ κουροτρόφος· οὔ τοι ἐγώ γε / ἧς γαίης δύναμαι γλυκερώτερον ἄλλο ἰδέσθαι.(9.27-28), áspera, mas boa criadora de rapazes; eu, de fato, não consigo ver nenhuma outra terra mais doce do que a dela.
Odisseu acorda em Ítaca sem saber onde está, e o narrador diz por quê.
ὁ δʼ ἔγρετο δῖος Ὀδυσσεὺς / εὕδων ἐν γαίῃ πατρωΐῃ, οὐδέ μιν ἔγνω, / ἤδη δὴν ἀπεών· περὶ γὰρ θεὸς ἠέρα χεῦε / Παλλὰς Ἀθηναίη, κούρη Διός, ὄφρα μιν αὐτὸν / ἄγνωστον τεύξειεν ἕκαστά τε μυθήσαιτο, / μή μιν πρὶν ἄλοχος γνοίη ἀστοί τε φίλοι τε, / πρὶν πᾶσαν μνηστῆρας ὑπερβασίην ἀποτῖσαι.(13.187-193), E despertou o divino Odisseu, dormindo na terra paterna, e não a reconheceu, depois de tanto tempo ausente; pois a deusa Palas Atena, filha de Zeus, derramara névoa em volta dele, para torná-lo irreconhecível e lhe contar cada coisa, a fim de que nem a esposa, nem os cidadãos, nem os amigos o reconhecessem antes que os pretendentes pagassem toda a sua insolência.
Penélope reconhece o marido, e o poema compara o alívio dela ao de um náufrago que avista terra.
ὡς δʼ ὅτʼ ἂν ἀσπάσιος γῆ νηχομένοισι φανήῃ, / ὧν τε Ποσειδάων εὐεργέα νῆʼ ἐνὶ πόντῳ / ῥαίσῃ, ἐπειγομένην ἀνέμῳ καὶ κύματι πηγῷ· / παῦροι δʼ ἐξέφυγον πολιῆς ἁλὸς ἤπειρόνδε / νηχόμενοι, πολλὴ δὲ περὶ χροῒ τέτροφεν ἅλμη, / ἀσπάσιοι δʼ ἐπέβαν γαίης, κακότητα φυγόντες· / ὣς ἄρα τῇ ἀσπαστὸς ἔην πόσις εἰσοροώσῃ, / δειρῆς δʼ οὔ πω πάμπαν ἀφίετο πήχεε λευκώ.(23.233-240), como quando a terra aparece acolhedora a nadadores cuja bem construída nau Poseidon despedaça no mar, empurrada pelo vento e pela onda pesada; poucos escapam do mar cinzento para a terra firme nadando, e muito sal lhes cobre a pele, e eles pisam a terra alegres, tendo fugido ao mal; assim era acolhedor para ela o marido que ela olhava, e do pescoço não largava de todo os braços brancos.
Na mesma noite, ele avisa que o retorno tem ainda uma última prova.
ὦ γύναι, οὐ γάρ πω πάντων ἐπὶ πείρατʼ ἀέθλων / ἤλθομεν, ἀλλʼ ἔτʼ ὄπισθεν ἀμέτρητος πόνος ἔσται, / πολλὸς καὶ χαλεπός, τὸν ἐμὲ χρὴ πάντα τελέσσαι.(23.248-250), mulher, ainda não chegamos ao termo de todas as provas: por vir haverá um trabalho sem medida, muito e duro, que preciso cumprir inteiro.