Quem é
Tirésias é o adivinho cego de Tebas, o único morto do Hades que conserva a mente, por dom de Perséfone, enquanto as outras almas esvoaçam como sombras. Odisseu vai a ele por ordem de Circe, que diz que o adivinho lhe dirá o caminho e o retorno. Aparece com um cetro de ouro e bebe o sangue do fosso para falar. O que diz organiza o resto do poema: a ira de um deus, o gado do Sol, a casa tomada, a vingança e uma última viagem.
Trajetória
No Canto X, Tirésias ainda não aparece, mas é o objeto do pedido de Circe: antes de partir, Odisseu deve ir à casa de Hades consultar a alma do adivinho tebano, a quem Perséfone deu manter a mente depois de morto. Odisseu cai chorando sobre o leito, e Circe lhe dá o roteiro do fosso, das libações e dos carneiros negros.
No Canto XI, a alma de Tirésias chega depois de Elpenor, reconhece Odisseu, pergunta por que veio deixando a luz do sol e manda-o afastar a espada do fosso para beber o sangue. Profetiza que Odisseu busca um retorno doce, mas um deus o fará duro, porque Poseidon guarda rancor por ele ter cegado o filho. Ainda assim chegarão, se contiverem o ânimo na ilha da Trinácia e deixarem as vacas do Sol ilesas. Se as ferirem, anuncia a perdição do navio e dos companheiros, e Odisseu voltará tarde e mal, sem ninguém, em navio alheio, e encontrará desgraças em casa.
εἰ δέ κε σίνηαι, τότε τοι τεκμαίρομʼ ὄλεθρον, / νηί τε καὶ ἑτάροις. αὐτὸς δʼ εἴ πέρ κεν ἀλύξῃς, / ὀψὲ κακῶς νεῖαι, ὀλέσας ἄπο πάντας ἑταίρους, / νηὸς ἐπʼ ἀλλοτρίης· δήεις δʼ ἐν πήματα οἴκῳ,(11.112-115), mas se as feres, então te anuncio a perdição do navio e dos companheiros. E tu mesmo, ainda que escapes, voltarás tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros, em navio alheio; e encontrarás desgraças em casa,
Depois da vingança sobre os pretendentes, Odisseu deverá ir com um remo bem-feito até homens que não conhecem o mar nem comem comida com sal, e quando um caminhante chamar o remo de pá de joeirar, fincá-lo na terra e sacrificar a Poseidon um carneiro, um touro e um javali. A morte lhe virá do mar, muito suave, quando estiver gasto por uma velhice luzidia, com os povos felizes em volta.
ἔρχεσθαι δὴ ἔπειτα λαβὼν ἐυῆρες ἐρετμόν, / εἰς ὅ κε τοὺς ἀφίκηαι οἳ οὐκ ἴσασι θάλασσαν / ἀνέρες, οὐδέ θʼ ἅλεσσι μεμιγμένον εἶδαρ ἔδουσιν·(11.121-123), então vai, levando um remo bem-feito, até chegares aos homens que não conhecem o mar nem comem comida misturada com sal.
θάνατος δέ τοι ἐξ ἁλὸς αὐτῷ / ἀβληχρὸς μάλα τοῖος ἐλεύσεται, ὅς κέ σε πέφνῃ / γήραι ὕπο λιπαρῷ ἀρημένον· ἀμφὶ δὲ λαοὶ / ὄλβιοι ἔσσονται.(11.134-137), a morte te virá do mar, muito suave, a que te matará gasto por uma velhice luzidia; e em volta os povos serão felizes.
No Canto XII, ao ver a ilha do Sol, Odisseu lembra aos homens o que disseram o cego Tirésias e Circe, e que ali os espera o pior dos males. A profecia se cumpre pouco depois: os companheiros matam as vacas, e o navio é destruído por um raio de Zeus.
No Canto XXIII, depois do reconhecimento, Odisseu avisa a Penélope que ainda resta uma prova, a que Tirésias lhe profetizou no dia em que desceu ao Hades, e repete a viagem do remo e do sacrifício. Penélope responde que, se os deuses farão a velhice melhor, há esperança de escapar dos males.
ὦ γύναι, οὐ γάρ πω πάντων ἐπὶ πείρατʼ ἀέθλων / ἤλθομεν, ἀλλʼ ἔτʼ ὄπισθεν ἀμέτρητος πόνος ἔσται, / πολλὸς καὶ χαλεπός, τὸν ἐμὲ χρὴ πάντα τελέσσαι.(23.248-250), mulher, ainda não chegamos ao termo de todas as provas: por vir haverá um trabalho sem medida, muito e duro, que preciso cumprir inteiro.
Temas que encarna
Tirésias encarna a Vingança, que anuncia como certa, e mostra o que o poema chama de dupla determinação: a profecia dele condiciona o retorno a uma abstenção, deixar as vacas ilesas, e põe a responsabilidade sobre o chefe, que deve conter o próprio ânimo e o dos companheiros. Encarna o Lar, exílio e retorno ao dizer que a casa está tomada e que, depois da vingança, ainda haverá outra viagem.
A profecia de Tirésias abre as duas hipóteses e só prevê destruição na segunda, e a descrição do fim da viagem, tarde, sem companheiros, em navio alheio, com a casa tomada, repete a maldição de Polifemo, dita agora por um adivinho. A expressão que fecha a profecia, a morte ex halós, admite duas leituras, vinda do mar ou longe do mar, e o texto não decide. Em qualquer das duas, depois de tanto sofrimento, a morte prometida é suave, na velhice.