Quem é
Circe é a deusa que mora na ilha Eeia, filha do Sol e irmã de Eetes, numa casa de pedra polida cercada de lobos e leões que ela encantou com drogas. Canta e tece junto à porta e recebe os visitantes com banquete e feitiço. Ela é a primeira adversária de Odisseu que o herói vence com ajuda de um deus, e depois se torna a sua guia: é ela quem lhe diz como chegar à casa de Hades, como passar pelas Sereias e por Cila e o que fazer na ilha do Sol.
Trajetória
No Canto VIII, ela aparece só como lembrança: Odisseu fecha a arca dos presentes dos feácios com um nó que a senhora Circe um dia lhe ensinara, e o poema não conta ainda como.
αὐτὰρ ἐπεὶ τό γʼ ἄκουσε πολύτλας δῖος Ὀδυσσεύς, / αὐτίκʼ ἐπήρτυε πῶμα, θοῶς δʼ ἐπὶ δεσμὸν ἴηλεν / ποικίλον, ὅν ποτέ μιν δέδαε φρεσὶ πότνια Κίρκη·(8.446-448), quando o ouviu o muito sofredor, o divino Odisseu, logo ajustou a tampa e lançou depressa sobre ela um laço engenhoso, que a senhora Circe um dia lhe ensinara no ânimo.
No Canto IX, Odisseu diz aos feácios que ela e Calipso quiseram retê-lo como marido sem convencer-lhe o ânimo.
No Canto X, Circe é a figura central. Quando Euríloco e vinte e dois companheiros chegam à casa, ela os convida, serve queijo, farinha e mel em vinho Pramnio com drogas funestas para que esqueçam a pátria, toca-os com a vara e os fecha em chiqueiros. Têm dos porcos o corpo, a voz e as cerdas, mas a mente continua firme. Odisseu, avisado por Hermes e munido da erva, bebe a mistura e não é enfeitiçado. Ela o reconhece pela resistência e o convida ao leito. Antes de subir, Odisseu exige, como Hermes lhe ensinou, o grande juramento dos deuses de que ela não tramará outro mal.
οἱ δὲ συῶν μὲν ἔχον κεφαλὰς φωνήν τε τρίχας τε / καὶ δέμας, αὐτὰρ νοῦς ἦν ἔμπεδος, ὡς τὸ πάρος περ.(10.239-240), eles tinham dos porcos a cabeça, a voz, as cerdas e o corpo, mas o espírito era firme, como antes.
ἀλλὰ κέλεσθαί μιν μακάρων μέγαν ὅρκον ὀμόσσαι, / μή τί τοι αὐτῷ πῆμα κακὸν βουλευσέμεν ἄλλο, / μή σʼ ἀπογυμνωθέντα κακὸν καὶ ἀνήνορα θήῃ.(10.299-301), mas manda que ela jure o grande juramento dos bem-aventurados, de que não tramará contra ti nenhum outro mal, para que não te torne, despido, vil e sem vigor.
σοὶ δέ τις ἐν στήθεσσιν ἀκήλητος νόος ἐστίν. / ἦ σύ γʼ Ὀδυσσεύς ἐσσι πολύτροπος,(10.329-330), tens no peito uma mente que o feitiço não prende. Tu és certamente Odisseu, o de muitas voltas,
Depois do juramento, Circe prepara o banho, a roupa e a mesa. Odisseu não come: só o fará quando vir os companheiros livres. Ela solta os homens, que voltam mais jovens, mais belos e maiores do que antes, e os recebe com banho e banquete. Ficam um ano, e é a tripulação que lembra a Odisseu a hora de partir. Circe aceita, com uma condição: ele deve primeiro ir à casa de Hades consultar a alma de Tirésias. Odisseu cai chorando sobre o leito, e ela lhe dá o roteiro do fosso, das libações e dos carneiros negros. No fim, passa invisível por eles e amarra ao navio um carneiro e uma ovelha negra.
ὦ Κίρκη, τίς γάρ κεν ἀνήρ, ὃς ἐναίσιμος εἴη, / πρὶν τλαίη πάσσασθαι ἐδητύος ἠδὲ ποτῆτος, / πρὶν λύσασθʼ ἑτάρους καὶ ἐν ὀφθαλμοῖσιν ἰδέσθαι;(10.383-385), Circe, que homem, que fosse justo, teria coragem de provar comida e bebida antes de libertar os companheiros e vê-los com os próprios olhos?
ἀλλʼ ἄλλην χρὴ πρῶτον ὁδὸν τελέσαι καὶ ἱκέσθαι / εἰς Ἀίδαο δόμους καὶ ἐπαινῆς Περσεφονείης, / ψυχῇ χρησομένους Θηβαίου Τειρεσίαο,(10.490-492), mas é preciso primeiro cumprir outra viagem e chegar à casa de Hades e da temível Perséfone, para consultardes a alma do tebano Tirésias,
No Canto XI, manda por trás da proa um vento favorável, bom companheiro, e as instruções dela se cumprem no limite do Oceano. Não aparece, mas é o roteiro que Odisseu segue com o carneiro e o fosso.
No Canto XII, ao voltarem a Eeia, chama os homens de duas vezes mortais, porque os outros morrem uma vez só, e manda que comam o dia inteiro. À noite, interroga Odisseu e lhe descreve as provas que vêm. Quanto às Sereias, ele pode ouvi-las se for amarrado, e os homens devem apertar os laços se ele pedir para ser solto. Sobre Cila, diz que é um mal imortal que não se combate, e o melhor é fugir e sentir a falta de seis em vez de todos. Sobre a ilha do Sol, avisa que, se as vacas ficarem ilesas, chegarão a Ítaca, e, se forem feridas, ele voltará tarde, mal e sem companheiros.
ἀτὰρ αὐτὸς ἀκουέμεν αἴ κʼ ἐθέλῃσθα, / δησάντων σʼ ἐν νηὶ θοῇ χεῖράς τε πόδας τε / ὀρθὸν ἐν ἱστοπέδῃ, ἐκ δʼ αὐτοῦ πείρατʼ ἀνήφθω, / ὄφρα κε τερπόμενος ὄπʼ ἀκούσῃς Σειρήνοιιν. / εἰ δέ κε λίσσηαι ἑτάρους λῦσαί τε κελεύῃς, / οἱ δέ σʼ ἔτι πλεόνεσσι τότʼ ἐν δεσμοῖσι διδέντων.(12.49-54), mas tu mesmo, se quiseres ouvi-las, que os companheiros te prendam no navio veloz, pés e mãos, de pé na base do mastro, com as pontas das cordas atadas ao próprio mastro, para que escutes com deleite a voz das duas Sereias. E se pedires aos companheiros que te soltem e mandares que o façam, que eles então te prendam com ainda mais laços.
σχέτλιε, καὶ δὴ αὖ τοι πολεμήια ἔργα μέμηλε / καὶ πόνος· οὐδὲ θεοῖσιν ὑπείξεαι ἀθανάτοισιν; / ἡ δέ τοι οὐ θνητή, ἀλλʼ ἀθάνατον κακόν ἐστι, / δεινόν τʼ ἀργαλέον τε καὶ ἄγριον οὐδὲ μαχητόν· / οὐδέ τις ἔστʼ ἀλκή· φυγέειν κάρτιστον ἀπʼ αὐτῆς.(12.116-120), Obstinado, de novo te ocupam obras de guerra e fadiga? Nem aos deuses imortais cederás? Ela não é mortal: é um mal imortal, terrível, penoso, selvagem e impossível de combater; não existe defesa, o melhor é fugir dela.
τὰς εἰ μέν κʼ ἀσινέας ἐάᾳς νόστου τε μέδηαι, / ἦ τʼ ἂν ἔτʼ εἰς Ἰθάκην κακά περ πάσχοντες ἵκοισθε· / εἰ δέ κε σίνηαι, τότε τοι τεκμαίρομʼ ὄλεθρον, / νηί τε καὶ ἑτάροις· αὐτὸς δʼ εἴ πέρ κεν ἀλύξῃς, / ὀψὲ κακῶς νεῖαι, ὀλέσας ἄπο πάντας ἑταίρους.(12.137-141), Se as deixares ilesas e pensares no regresso, ainda chegareis a Ítaca, embora sofrendo males; mas se as lesares, então te anuncio a ruína, para o navio e para os companheiros; e tu mesmo, se escapares, voltarás tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros.
No Canto XXIII, Odisseu inclui as artes de Circe no relato da noite que faz a Penélope.
Temas que encarna
Circe encarna o Lar, exílio e retorno pelo lado da tentação: a droga que ela mistura é feita para que esqueçam a pátria, e o banquete de um ano é uma versão amena do mesmo esquecimento. Encarna a Identidade, porque a transformação em porcos mantém a mente humana e aprisiona cada um dentro de si mesmo.
No Canto X, a mesma mulher que transforma os homens em porcos os devolve mais jovens, e a que prende Odisseu no leito lhe dá o roteiro de volta. O poema não explica a mudança, mas mostra o que a precede, a resistência de Odisseu e o juramento. A feiticeira e a guia são a mesma mulher. A droga dela é o oposto do lótus, que dá esquecimento sem dor, porque deixa os homens saberem o que perderam.