O tema na obra
O poema pergunta quem é o herói antes de dizer o nome dele. O proêmio o define por um adjetivo, polýtropos, e o nome só aparece no verso 21 (Canto I). Telêmaco, por sua vez, não sabe se é filho do pai: diz a Atena que a mãe afirma que sim e que ninguém conhece por si mesmo a própria origem (Canto I). A dúvida é resolvida por terceiros: Menelau e Helena reconhecem o rapaz pelo rosto, pelas mãos, pelos pés e pelos cabelos (Canto IV), depois de Nestor se espantar com a maneira de falar dele (Canto III).
Entre os feácios, o herói é um hóspede sem nome. Atena o faz parecer mais alto e mais forte, Euríalo o toma por um mercador, e Alcínoo declara que ignora o nome dele (Canto VIII). O que o tira do anonimato é o choro diante das canções de Demódoco, e Alcínoo diz que ninguém é de todo sem nome e pede o dele. No Canto IX, Odisseu responde com o nome, o pai e os ardis; na gruta de Polifemo, troca tudo por Ninguém, para depois gritar o nome verdadeiro, com filiação e endereço.
Em Ítaca, o problema se inverte. Atena derrama névoa sobre ele para que nem a esposa, nem os cidadãos, nem os amigos o reconheçam (Canto XIII), e o torna um mendigo velho. Os reconhecimentos vêm um a um, cada qual com o seu sinal: Telêmaco aceita a explicação de que Atena mudou o pai (Canto XVI); o cão Argos reconhece o dono (Canto XVII); a ama Euricleia, a cicatriz (Canto XIX); Eumeu e Filécio, a cicatriz mostrada (Canto XXI); Penélope, o leito (Canto XXIII); Laertes, a cicatriz e as árvores do pomar (Canto XXIV).
O poema trata a identidade como algo que se prova diante de alguém, e por meios diferentes para cada um. O nome não basta, porque o herói o esconde ou o troca por Ninguém; o corpo basta para a ama e para o pai; só o que pertence ao casal convence Penélope. A pergunta que o primeiro canto deixa em Telêmaco, de quem se é filho, e a que o herói enfrenta, quem se é sem o nome, têm no texto a mesma resposta: alguém que o reconheça.
Onde aparece
- Canto I: Telêmaco diz que a mãe afirma ser ele filho de Odisseu, mas que ninguém conhece por si mesmo a própria origem, e deseja ter sido filho de um homem feliz.
- Canto III: Nestor se espanta com a maneira de falar de Telêmaco, parecida com a do pai, e a dúvida do rapaz sobre a origem é resolvida por um terceiro.
- Canto IV: Helena reconhece Telêmaco pelo rosto, sem que ele diga uma palavra, e Menelau confirma pelas mãos, pelos pés, pelo olhar e pelos cabelos.
- Canto VIII: Alcínoo diz que ninguém é de todo sem nome e exige o do hóspede, depois de o ver chorar com a canção sobre Odisseu em Troia.
- Canto IX: Odisseu diz o nome, o pai e os ardis aos feácios, apresenta-se como Ninguém ao ciclope e depois grita o nome verdadeiro, com filiação e endereço.
- Canto XIII: Atena derrama névoa sobre Odisseu para que ninguém o reconheça e depois o disfarça de mendigo velho, de pele murcha, sem cabelos e com os olhos turvos.
- Canto XVI: Telêmaco toma o hóspede transformado por um deus e só aceita que é o pai depois que Odisseu explica que a mudança é obra de Atena.
- Canto XVII: O cão Argos abana a cauda ao ver Odisseu, o único a reconhecê-lo à entrada do palácio, e morre em seguida.
- Canto XIX: Euricleia reconhece a cicatriz ao lavar os pés do mendigo, e Odisseu a obriga ao silêncio com uma ameaça de morte.
- Canto XXIII: Penélope só aceita o marido quando ele descreve o leito feito em torno da oliveira, sinal que apenas os dois e uma serva conheciam.
Passagens
Telêmaco responde a Atena sobre a própria origem.
μήτηρ μέν τέ μέ φησι τοῦ ἔμμεναι, αὐτὰρ ἐγώ γε / οὐκ οἶδʼ· οὐ γάρ πώ τις ἑὸν γόνον αὐτὸς ἀνέγνω.(1.215-216), minha mãe diz que sou filho dele; eu, porém, não sei, pois ninguém jamais conheceu por si mesmo a própria origem.
Alcínoo trata o nome como condição de ser homem.
οὐ μὲν γάρ τις πάμπαν ἀνώνυμός ἐστʼ ἀνθρώπων, / οὐ κακὸς οὐδὲ μὲν ἐσθλός, ἐπὴν τὰ πρῶτα γένηται, / ἀλλʼ ἐπὶ πᾶσι τίθενται, ἐπεί κε τέκωσι, τοκῆες.(8.552-554), pois ninguém entre os homens é de todo sem nome, nem mau nem bom, desde que nasce, mas os pais o dão a todos, depois que os geram.
O homem que disse a Alcínoo quem era troca o nome para sobreviver.
Οὖτις ἐμοί γʼ ὄνομα· Οὖτιν δέ με κικλήσκουσι / μήτηρ ἠδὲ πατὴρ ἠδʼ ἄλλοι πάντες ἑταῖροι.(9.366-367), Ninguém é meu nome: Ninguém me chamam minha mãe, meu pai e todos os outros companheiros.
Longe da margem, ele quer que o feito tenha dono.
Κύκλωψ, αἴ κέν τίς σε καταθνητῶν ἀνθρώπων / ὀφθαλμοῦ εἴρηται ἀεικελίην ἀλαωτύν, / φάσθαι Ὀδυσσῆα πτολιπόρθιον ἐξαλαῶσαι, / υἱὸν Λαέρτεω, Ἰθάκῃ ἔνι οἰκίʼ ἔχοντα.(9.502-505), Ciclope, se algum dos mortais te perguntar sobre a vergonhosa cegueira do olho, diz que quem te cegou foi Odisseu, saqueador de cidades, filho de Laertes, que tem casa em Ítaca.
Em Ítaca, o narrador explica a névoa.
ὁ δʼ ἔγρετο δῖος Ὀδυσσεὺς / εὕδων ἐν γαίῃ πατρωΐῃ, οὐδέ μιν ἔγνω, / ἤδη δὴν ἀπεών· περὶ γὰρ θεὸς ἠέρα χεῦε / Παλλὰς Ἀθηναίη, κούρη Διός, ὄφρα μιν αὐτὸν / ἄγνωστον τεύξειεν ἕκαστά τε μυθήσαιτο, / μή μιν πρὶν ἄλοχος γνοίη ἀστοί τε φίλοι τε, / πρὶν πᾶσαν μνηστῆρας ὑπερβασίην ἀποτῖσαι.(13.187-193), E despertou o divino Odisseu, dormindo na terra paterna, e não a reconheceu, depois de tanto tempo ausente; pois a deusa Palas Atena, filha de Zeus, derramara névoa em volta dele, para torná-lo irreconhecível e lhe contar cada coisa, a fim de que nem a esposa, nem os cidadãos, nem os amigos o reconhecessem antes que os pretendentes pagassem toda a sua insolência.
Penélope responde ao filho que há sinais que só os dois conhecem.
εἰ δʼ ἐτεὸν δὴ / ἔστʼ Ὀδυσεὺς καὶ οἶκον ἱκάνεται, ἦ μάλα νῶϊ / γνωσόμεθʼ ἀλλήλων καὶ λώϊον· ἔστι γὰρ ἡμῖν / σήμαθʼ, ἃ δὴ καὶ νῶϊ κεκρυμμένα ἴδμεν ἀπʼ ἄλλων.(23.107-110), se de fato é Odisseu e está em casa, certamente nos reconheceremos ainda melhor um ao outro; pois temos sinais que também nós dois conhecemos, ocultos aos outros.
Laertes cede à conta de um menino que seguia o pai pelo pomar.
ὄγχνας μοι δῶκας τρισκαίδεκα καὶ δέκα μηλέας, / συκέας τεσσαράκοντʼ(24.340-341), deste-me treze pereiras e dez macieiras, e quarenta figueiras.