Quem é
Zeus é o deus que governa os outros e o fiador, no poema, da lei da hospitalidade: o estrangeiro e o mendigo vêm dele, e é em nome dele que se pede abrigo. Quase não aparece em cena fora dos concílios, e decide de longe o retorno de Odisseu, com um aceno, um trovão, um raio. Abre o poema dizendo que os homens culpam os deuses pelos males, quando sofrem além da sua parte pela própria insensatez, e essa regra moral percorre a obra inteira.
Trajetória
No Canto I, abre o concílio dos deuses pensando em Egisto, que matou Agamêmnon depois de avisado por Hermes: os mortais culpam os deuses, mas sofrem além da sua parte pela própria insensatez. Depois explica a Atena por que Odisseu não volta, e o motivo é de pai: Odisseu cegou Polifemo, filho de Poseidon, e o deus não o mata, mas o faz vagar. O retorno é decidido no céu, com o deus contrário longe.
ὢ πόποι, οἷον δή νυ θεοὺς βροτοὶ αἰτιόωνται· / ἐξ ἡμέων γάρ φασι κάκʼ ἔμμεναι, οἱ δὲ καὶ αὐτοὶ / σφῇσιν ἀτασθαλίῃσιν ὑπὲρ μόρον ἄλγεʼ ἔχουσιν,(1.32-34), ai, como os mortais culpam os deuses! Dizem que de nós vêm os males, e eles mesmos, pela própria insensatez, têm dores além da sua parte.
ἐκ τοῦ δὴ Ὀδυσῆα Ποσειδάων ἐνοσίχθων / οὔ τι κατακτείνει, πλάζει δʼ ἀπὸ πατρίδος αἴης.(1.74-75), desde então Poseidon, que abala a terra, não mata Odisseu, mas o faz vagar longe da pátria.
No Canto II, envia do alto de um monte duas águias, que giram sobre a assembleia, olham as cabeças de todos com ar de morte e partem, e o adivinho Haliterses lê nelas o retorno de Odisseu.
No Canto III, Nestor conta que Zeus planejou um retorno doloroso para os aqueus, porque nem todos eram sensatos nem justos, e Telêmaco lhe diz que Zeus deixou ignorado o fim do pai.
καὶ τότε δὴ Ζεὺς λυγρὸν ἐνὶ φρεσὶ μήδετο νόστον / Ἀργείοις, ἐπεὶ οὔ τι νοήμονες οὐδὲ δίκαιοι / πάντες ἔσαν· τῶ σφεων πολέες κακὸν οἶτον ἐπέσπον(3.132-134), então Zeus planejou no ânimo um retorno doloroso para os argivos, porque nem todos eram sensatos nem justos; por isso muitos encontraram um destino mau.
No Canto IV, Menelau espera que ele ponha fim às suas penas, e Proteu lhe diz que devia ter sacrificado a Zeus e aos outros deuses antes de partir. Helena diz que Zeus dá a cada um bem e mal. Menelau, segundo Proteu, irá ao campo Elísio por ser genro de Zeus.
No Canto V, quando Atena se queixa de que ninguém se lembra de Odisseu, Zeus lhe devolve o plano, que foi dela, e manda Hermes dizer a Calipso que Odisseu partirá sem escolta de deuses nem de homens, numa balsa, e chegará, no vigésimo dia, à Esquéria, terra dos feácios, que o cobrirão de bens.
οὐ γὰρ δὴ τοῦτον μὲν ἐβούλευσας νόον αὐτή, / ὡς ἦ τοι κείνους Ὀδυσεὺς ἀποτίσεται ἐλθών(5.23-24), pois não foi tu mesma quem deliberou este desígnio: que Odisseu, ao chegar, os faria pagar?
οὔτε θεῶν πομπῇ οὔτε θνητῶν ἀνθρώπων· / ἀλλʼ ὅ γʼ ἐπὶ σχεδίης πολυδέσμου πήματα πάσχων / ἤματί κʼ εἰκοστῷ Σχερίην ἐρίβωλον ἵκοιτο(5.32-34), sem escolta de deuses nem de homens mortais; mas ele, numa balsa bem atada, sofrendo dores, ao vigésimo dia chegaria à fértil Esquéria.
No Canto VI, Nausícaa diz às servas que fugiram do homem nu que os estrangeiros e mendigos vêm de Zeus, e a dádiva, ainda que pequena, é querida. No Canto VII, Equeneu lembra a Alcínoo que é preciso libar a Zeus, protetor dos suplicantes respeitáveis, e o rei o faz.
πρὸς γὰρ Διός εἰσιν ἅπαντες / ξεῖνοί τε πτωχοί τε, δόσις δʼ ὀλίγη τε φίλη τε(6.207-208), pois de Zeus são todos os estrangeiros e mendigos, e a dádiva, ainda que pequena, é querida.
No Canto VIII, na canção de Demódoco, Hefesto exige de Zeus a devolução dos presentes de núpcias antes de soltar Ares e Afrodite, e Odisseu promete invocar Nausícaa se Zeus o fizer chegar em casa.
No Canto IX, Odisseu invoca Zeus Xênio, vingador dos suplicantes e dos hóspedes, diante de Polifemo, que responde que os ciclopes não se importam com Zeus, porque são mais fortes. Depois da fuga, Odisseu diz ao ciclope que Zeus o castigou por devorar hóspedes. Ao fim, Zeus recusa o sacrifício do carneiro e pensa em como perderia as naus e os companheiros.
ἀλλʼ αἰδεῖο, φέριστε, θεούς· ἱκέται δέ τοί εἰμεν, / Ζεὺς δʼ ἐπιτιμήτωρ ἱκετάων τε ξείνων τε, / ξείνιος, ὃς ξείνοισιν ἅμʼ αἰδοίοισιν ὀπηδεῖ.(9.269-271), mas respeita os deuses, excelente homem: somos teus suplicantes, e Zeus é o vingador dos suplicantes e dos hóspedes, Zeus Xênio, que acompanha os hóspedes veneráveis.
οὐ γὰρ Κύκλωπες Διὸς αἰγιόχου ἀλέγουσιν / οὐδὲ θεῶν μακάρων, ἐπεὶ ἦ πολὺ φέρτεροί εἰμεν·(9.275-276), pois os ciclopes não se importam com Zeus portador da égide, nem com os deuses bem-aventurados, porque somos muito mais fortes.
Ζηνὶ κελαινεφέι Κρονίδῃ, ὃς πᾶσιν ἀνάσσει, / ῥέξας μηρίʼ ἔκαιον· ὁ δʼ οὐκ ἐμπάζετο ἱρῶν, / ἀλλʼ ὅ γε μερμήριξεν ὅπως ἀπολοίατο πᾶσαι / νῆες ἐύσσελμοι καὶ ἐμοὶ ἐρίηρες ἑταῖροι.(9.552-555), ao Zeus das nuvens negras, filho de Crono, que a todos governa, queimei as coxas do sacrifício; mas ele não aceitou os ritos, e sim pensou em como perderiam todas as naus bem-bancadas e os meus fiéis companheiros.
No Canto X, é Zeus quem fez Éolo guardião dos ventos, para acalmá-los ou agitá-los como quiser. No Canto XI, Odisseu diz a Agamêmnon, no Hades, que Zeus odiou a casa de Atreu desde o princípio, por conselhos de mulheres, e a Ájax que Zeus odiou o exército dos dânaos.
No Canto XII, levanta a tempestade no terceiro quarto da noite, sobre a ilha do Sol. O Sol ameaça descer ao Hades se os companheiros de Odisseu não pagarem as vacas, e Zeus lhe diz que continue a brilhar e promete despedaçar o navio com o raio. Depois cessa o vento no sétimo dia, põe uma nuvem sobre o navio, lança o raio, e tira aos companheiros o retorno.
No Canto XIII, Poseidon se queixa de que os feácios, que são de seu sangue, deixaram Odisseu em Ítaca, e lembra que nunca lhe negou o retorno de todo, porque Zeus o prometera com um aceno. Zeus responde que os deuses não o desonram e que ele pode castigar os mortais que o desprezam. Aconselha transformar o navio em pedra à vista de todos.
No Canto XIV, Eumeu, que acolhe o mendigo sem saber quem é, diz que não lhe é lícito desonrar um hóspede, porque de Zeus vêm todos os estrangeiros e mendigos, e que o acolhe por temor de Zeus hospitaleiro e por compaixão. Odisseu, na história que inventa, também faz do suplicante egípcio alguém poupado por temor de Zeus Xênio.
ξεῖνʼ, οὔ μοι θέμις ἔστʼ, οὐδʼ εἰ κακίων σέθεν ἔλθοι, / ξεῖνον ἀτιμῆσαι· πρὸς γὰρ Διός εἰσιν ἅπαντες / ξεῖνοί τε πτωχοί τε·(14.56-58), estrangeiro, não me é lícito desonrar um hóspede, nem que viesse pior que tu; pois de Zeus vêm todos, estrangeiros e mendigos.
ἀλλʼ ἀπὸ κεῖνος ἔρυκε, Διὸς δʼ ὠπίζετο μῆνιν / ξεινίου, ὅς τε μάλιστα νεμεσσᾶται κακὰ ἔργα.(14.283-284), mas ele os afastou, e temia a ira de Zeus hospitaleiro, que mais que todos se indigna com as más ações.
οὐ γὰρ τοὔνεκʼ ἐγώ σʼ αἰδέσσομαι οὐδὲ φιλήσω, / ἀλλὰ Δία ξένιον δείσας αὐτόν τʼ ἐλεαίρων.(14.388-389), pois não é por isso que te respeitarei nem te estimarei, mas por temer Zeus hospitaleiro e por compaixão de ti mesmo.
No Canto XV, Telêmaco pede a Zeus que cumpra o presságio da águia e Laertes, segundo Eumeu, pede todos os dias a Zeus que a vida o deixe. No Canto XVI, Telêmaco admite que Atena e Zeus bastam como defensores.
No Canto XVII, Eumeu diz que Zeus de voz ampla tira metade da excelência do homem quando o dia de escravo o apanha. No Canto XVIII, Odisseu diz a Anfínomo que a mente dos homens é como o dia que lhes traz o pai dos homens e dos deuses.
ἥμισυ γάρ τʼ ἀρετῆς ἀποαίνυται εὐρύοπα Ζεὺς / ἀνέρος, εὖτʼ ἄν μιν κατὰ δούλιον ἦμαρ ἕλῃσιν.(17.322-323), pois Zeus de voz ampla tira metade da excelência do homem, quando o dia de escravo o apanha.
τοῖος γὰρ νόος ἐστὶν ἐπιχθονίων ἀνθρώπων / οἷον ἐπʼ ἦμαρ ἄγησι πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε.(18.136-137), pois tal é o pensamento dos homens que vivem na terra, qual o dia que lhes traz o pai dos homens e dos deuses.
No Canto XIX, Odisseu jura por Zeus, e Euricleia lamenta que Zeus tenha odiado Odisseu mais que a todos. No Canto XX, Odisseu pede a Zeus, de mãos erguidas, um sinal duplo, e Zeus troveja do alto das nuvens. No Canto XXI, troveja de novo quando a corda do arco canta.
Ζεῦ πάτερ, εἴ μʼ ἐθέλοντες ἐπὶ τραφερήν τε καὶ ὑγρὴν / ἤγετʼ ἐμὴν ἐς γαῖαν, ἐπεί μʼ ἐκακώσατε λίην, / φήμην τίς μοι φάσθω ἐγειρομένων ἀνθρώπων / ἔνδοθεν, ἔκτοσθεν δὲ Διὸς τέρας ἄλλο φανήτω.(20.98-101), Pai Zeus, se de bom grado me trouxestes por terra e por mar à minha terra, depois de me castigarem tanto, que alguém dos homens que acordam diga dentro de casa uma palavra de agouro, e que fora se mostre outro prodígio de Zeus.
No Canto XXII, Eurímaco diz que os planos de Antínoo não foram cumpridos por Zeus, e Fêmio hesita entre o altar de Zeus e os joelhos de Odisseu. No Canto XXIII, Penélope chama Helena de nascida de Zeus, e Odisseu, no relato da noite, conta o raio de Zeus que destruiu a nau dos companheiros.
No Canto XXIV, Atena lhe pergunta se a guerra continua. Zeus lembra que o plano da vingança foi dela e dita os termos: juramentos fiéis, Odisseu rei, e os deuses farão esquecer a morte dos filhos e dos irmãos. Um raio cai diante de Atena para deter Odisseu, e ele para.
ἡμεῖς δʼ αὖ παίδων τε κασιγνήτων τε φόνοιο / ἔκλησιν θέωμεν· τοὶ δʼ ἀλλήλους φιλεόντων / ὡς τὸ πάρος, πλοῦτος δὲ καὶ εἰρήνη ἅλις ἔστω.(24.484-486), e nós, por nossa vez, façamos esquecer a morte dos filhos e dos irmãos; que eles se amem uns aos outros como antes, e que haja riqueza e paz em abundância.
Temas que encarna
Zeus encarna a Vingança, pela via da hospitalidade: é a ele que todos recorrem para pedir abrigo e é em nome dele que se pune quem a viola. Encarna o Lar, exílio e retorno, porque é ele quem decide o retorno de Odisseu, e mostra o que o poema chama de dupla determinação: os deuses decidem, mas os homens também respondem pelo que fazem.
O Zeus da Odisseia é mais regra do que presença. A regra que ele enuncia no primeiro canto, a de que quem sofre pode ter culpa no próprio sofrimento, é a que o poema aplica a Egisto, aos companheiros de Odisseu e aos pretendentes. Ao mesmo tempo, o deus que Odisseu invoca como vingador dos hóspedes recusa o sacrifício no fim do Canto IX. O texto não explica por quê, e deixa as duas coisas lado a lado: Zeus é o garantidor da lei e age segundo planos que os mortais não leem.
Relações
- Odisseu: o homem cujo retorno ele decide com um aceno e cujo sofrimento mede.
- Atena: a filha que traz o caso de Odisseu ao concílio e a quem ele devolve o plano da vingança.
- Poseidon: o outro deus, cuja ira contra Odisseu ele reconhece e limita.
- Polifemo: o ciclope que diz não se importar com Zeus.
- Eumeu: o servo que acolhe o mendigo por temor de Zeus hospitaleiro.