Quem é
Polifemo é o ciclope que pastoreia sozinho, numa gruta fechada por uma pedra que nem vinte e duas carroças moveriam, longe dos outros, e que só conhece ações sem lei. É filho de Poseidon. A Odisseia o conhece antes de contar o encontro: no primeiro canto, é o motivo da ira do deus contra Odisseu, que o cegou. Aparece em cena no relato que o próprio Odisseu faz aos feácios, e é o adversário que melhor mostra o que o poema entende por hospitalidade, por ser o que a nega.
Trajetória
No Canto I, o poema o menciona por intermédio de Zeus, que explica a Atena que Poseidon persegue Odisseu porque ele cegou o filho do deus. O castigo é a errância.
ἐκ τοῦ δὴ Ὀδυσῆα Ποσειδάων ἐνοσίχθων / οὔ τι κατακτείνει, πλάζει δʼ ἀπὸ πατρίδος αἴης.(1.74-75), desde então Poseidon, que abala a terra, não mata Odisseu, mas o faz vagar longe da pátria.
No Canto II, o velho Egípcio chora o filho Ántifo, que foi a Troia com Odisseu e foi devorado pelo Ciclope.
No Canto IX, Polifemo é o centro do relato. Odisseu e doze companheiros entram na gruta enquanto ele está fora. Odisseu quer ver o dono e receber presentes de hóspede, apesar do pedido dos companheiros para partir. Quando o ciclope volta, Odisseu pede hospitalidade e invoca Zeus Xênio, vingador dos hóspedes. Polifemo responde que os ciclopes não se importam com Zeus, porque são mais fortes, e devora dois companheiros, batendo-os contra o chão como cachorrinhos.
οὐ γὰρ Κύκλωπες Διὸς αἰγιόχου ἀλέγουσιν / οὐδὲ θεῶν μακάρων, ἐπεὶ ἦ πολὺ φέρτεροί εἰμεν·(9.275-276), pois os ciclopes não se importam com Zeus portador da égide, nem com os deuses bem-aventurados, porque somos muito mais fortes.
σὺν δὲ δύω μάρψας ὥς τε σκύλακας ποτὶ γαίῃ / κόπτʼ· ἐκ δʼ ἐγκέφαλος χαμάδις ῥέε, δεῦε δὲ γαῖαν.(9.289-290), e agarrando dois juntos, como a cachorrinhos, bate-os contra o chão; o cérebro correu para o chão e molhou a terra.
Na noite seguinte, bebe o vinho que Odisseu leva e pede o nome, e Odisseu diz que é Ninguém. O ciclope responde que o comerá por último, depois dos companheiros, e que esse será o presente de hóspede, e dorme. Os homens enfiam a estaca de oliveira no olho dele. Quando os outros ciclopes acodem, Polifemo diz de dentro da gruta que Ninguém o mata por dolo, e não por violência, e eles concluem que a doença vem de Zeus.
Οὖτιν ἐγὼ πύματον ἔδομαι μετὰ οἷς ἑτάροισιν, / τοὺς δʼ ἄλλους πρόσθεν· τὸ δέ τοι ξεινήιον ἔσται.(9.369-370), comerei Ninguém por último, depois dos seus companheiros; os outros, antes. Este será o teu presente de hóspede.
ὦ φίλοι, Οὖτίς με κτείνει δόλῳ οὐδὲ βίηφιν.(9.408), amigos, Ninguém me mata por dolo, e não por violência.
Cego, senta-se diante da porta para pegar quem tente sair e apalpa o dorso dos carneiros, sem perceber os homens atados sob o peito. Fala ao carneiro que sai por último, imaginando-o triste pelo dono, e diz que, se ele pudesse dizer onde Ninguém se esconde, lhe esmagaria o cérebro contra o chão. Quando Odisseu grita o nome verdadeiro, Polifemo lembra uma profecia antiga do adivinho Télemo, de que perderia a vista por Odisseu, e que esperava um homem grande e forte, não um pequeno e fraco que o dominou com vinho. Chama Odisseu de volta, oferecendo presentes e a escolta de Poseidon, e é recusado.
ἦ σύ γʼ ἄνακτος / ὀφθαλμὸν ποθέεις, τὸν ἀνὴρ κακὸς ἐξαλάωσε / σὺν λυγροῖς ἑτάροισι δαμασσάμενος φρένας οἴνῳ, / Οὖτις, ὃν οὔ πώ φημι πεφυγμένον εἶναι ὄλεθρον.(9.452-455), acaso sentes falta do olho do teu senhor, que um homem mau cegou, com seus miseráveis companheiros, depois de domar-lhe o juízo com vinho, Ninguém, que ainda não digo ter escapado da ruína?.
ὅς μοι ἔφη τάδε πάντα τελευτήσεσθαι ὀπίσσω, / χειρῶν ἐξ Ὀδυσῆος ἁμαρτήσεσθαι ὀπωπῆς. / ἀλλʼ αἰεί τινα φῶτα μέγαν καὶ καλὸν ἐδέγμην / ἐνθάδʼ ἐλεύσεσθαι, μεγάλην ἐπιειμένον ἀλκήν· / νῦν δέ μʼ ἐὼν ὀλίγος τε καὶ οὐτιδανὸς καὶ ἄκικυς / ὀφθαλμοῦ ἀλάωσεν, ἐπεί μʼ ἐδαμάσσατο οἴνῳ.(9.511-516), ele me disse que tudo isto se cumpriria depois, que eu perderia a vista pelas mãos de Odisseu. Mas eu sempre esperava que viesse aqui um homem grande e belo, revestido de grande força; agora, sendo pequeno, insignificante e fraco, cegou-me o olho, depois de me domar com vinho.
Então reza a Poseidon, repetindo o nome, a filiação e o endereço que ouviu: se é filho dele, que Odisseu não chegue a casa, e, se o destino quer que chegue, que chegue tarde e mal, sem companheiros, em nau alheia, e encontre desgraças em casa. Poseidon o ouve, e Polifemo atira uma pedra maior que a primeira.
εἰ ἐτεόν γε σός εἰμι, πατὴρ δʼ ἐμὸς εὔχεαι εἶναι, / δὸς μὴ Ὀδυσσῆα πτολιπόρθιον οἴκαδʼ ἱκέσθαι / υἱὸν Λαέρτεω, Ἰθάκῃ ἔνι οἰκίʼ ἔχοντα.(9.529-531), se de fato sou teu, e te gabas de ser meu pai, concede que Odisseu, saqueador de cidades, filho de Laertes, que tem casa em Ítaca, não chegue à sua casa.
ἀλλʼ εἴ οἱ μοῖρʼ ἐστὶ φίλους τʼ ἰδέειν καὶ ἱκέσθαι / οἶκον ἐυκτίμενον καὶ ἑὴν ἐς πατρίδα γαῖαν, / ὀψὲ κακῶς ἔλθοι, ὀλέσας ἄπο πάντας ἑταίρους, / νηὸς ἐπʼ ἀλλοτρίης, εὕροι δʼ ἐν πήματα οἴκῳ.(9.532-535), mas, se lhe cabe por destino rever os seus e chegar à casa bem construída e à sua terra pátria, que chegue tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros, numa nau alheia, e encontre desgraças em casa.
No Canto X, Odisseu continua o relato depois de Polifemo, e mais adiante Euríloco usa a gruta como argumento para acusar Odisseu de ter causado a morte dos companheiros. No Canto XI, Tirésias diz a Odisseu que o rancor de Poseidon vem do filho cegado.
No Canto XX, na véspera da matança, Odisseu manda o coração suportar, lembrando que já suportou algo pior: o dia em que o Ciclope devorava os companheiros e ele aguentou até que o plano o tirou da gruta.
τέτλαθι δή, κραδίη· καὶ κύντερον ἄλλο ποτʼ ἔτλης. / ἤματι τῷ ὅτε μοι μένος ἄσχετος ἤσθιε Κύκλωψ / ἰφθίμους ἑτάρους· σὺ δʼ ἐτόλμας, ὄφρα σε μῆτις / ἐξάγαγʼ ἐξ ἄντροιο ὀϊόμενον θανέεσθαι.(20.18-21), suporta, coração! Já suportaste coisa ainda mais vil, no dia em que o Ciclope, de força irresistível, devorava os meus valentes companheiros; tu aguentaste, até que o plano te tirou da caverna, quando pensavas morrer.
Temas que encarna
Polifemo encarna a violação da hospitalidade, que o poema trata como a medida de um povo, e com ela a Verdade e mentira: o nome Ninguém é o ardil que o vence, e o nome verdadeiro, gritado por Odisseu, é o que lhe dá alguém a quem amaldiçoar. Encarna também a Vingança de um filho que reza a um pai, e o Lar, exílio e retorno, porque a maldição que lança faz o retorno de Odisseu longo e caro.
Polifemo é descrito pela falta de assembleias e de leis, cada um dita a lei aos seus filhos e mulheres, e a violência dele é consequência dessa falta. Mas o poema dá a ele também um instante de linguagem de hóspede, quando chama Odisseu de volta oferecendo presentes. Pode-se ler a oferta como sincera e tardia, ou como armadilha, e Odisseu nem a discute: responde com o desejo da morte dele.