Odisseu recusa a imortalidade porque quer voltar para casa. Calipso, a ninfa que o mantém na sua ilha, lhe oferece uma vida sem velhice nem morte ao lado dela, e ele prefere regressar a Ítaca, a Penélope, ao filho e ao pai, mesmo sabendo que continuará mortal e que pode sofrer muito ainda no caminho.
A cena está no canto V. Depois de sete anos na ilha, Odisseu passa os dias chorando na praia, com os olhos postos no mar, e as noites com a ninfa, "por constrangimento". Quando Hermes traz a ordem de Zeus para soltá-lo, Calipso se queixa de que os deuses são "invejosos acima de todos" e não suportam que uma deusa durma abertamente com um mortal. Cede, mas ainda tenta convencê-lo: se ele soubesse as penas que o destino lhe prepara até a pátria, ficaria com ela e seria imortal.
A resposta de Odisseu é cortês e firme. Ele reconhece que a prudente Penélope "é inferior a ti no aspecto e na estatura", porque é mortal e Calipso é imortal e sem velhice, "mas, ainda assim, quero e desejo todos os dias voltar para casa e ver o dia do regresso". E aceita o preço: se um deus o ferir no mar, suportará, porque já sofreu muito nas ondas e na guerra. Calipso, por sua vez, lhe dá um machado, ferramentas e provisões, e Odisseu constrói a balsa.
O poema deixa a escolha sem comentário, mas a reforça por contraste. No canto XI, a alma de Aquiles diz que preferiria ser lavrador a serviço de um homem pobre a reinar sobre todos os mortos; viver, mesmo mal, vale mais que a glória sem vida. A recusa de Odisseu mostra o mesmo valor por outro caminho: o que dá sentido à vida, na Odisseia, não é a duração nem o esplendor, mas a casa, a família e a terra onde se é conhecido pelo nome.