A Odisseia começa pelo filho porque o poema quer mostrar a casa de Odisseu antes de mostrar o próprio Odisseu. Os quatro primeiros cantos, chamados de Telemaquia, ocupam-se de Ítaca e da viagem de Telêmaco, e só no canto V o herói aparece, preso na ilha de Calipso. Odisseu existe até lá como ausência: na queixa de Atena, nos ossos que o filho imagina apodrecendo na chuva, no canto do aedo que faz Penélope chorar.
O primeiro motivo é de enredo. Telêmaco é um rapaz que ainda não age. No primeiro canto, está sentado entre os pretendentes, triste, imaginando o pai chegando para expulsá-los, e Atena, disfarçada de Mentes, lhe diz que "já não tens essa idade" para infantilidades. A deusa o manda convocar a assembleia, mandar os pretendentes embora e procurar notícias do pai em Pilos e em Esparta; depois parte voando como um pássaro, e o rapaz percebe que falou com um deus. Mais tarde, no vigésimo canto, ele dirá aos pretendentes: "antes eu ainda era criança".
O segundo motivo é a medida de valor. Nestor e Menelau, ao receberem Telêmaco, contam o que aconteceu aos outros heróis na volta de Troia, em especial a Agamêmnon, assassinado em casa por Egisto e vingado pelo filho Orestes. O poema usa esse caso como espelho: um filho que defende a casa do pai ganha fama entre os vindouros, e a própria Atena cita Orestes a Telêmaco. Também fica claro o que está em jogo em Ítaca antes de Odisseu chegar: uma casa devorada, uma mãe que nem recusa nem aceita casar, um povo que se comove na assembleia e não decide nada.
Por fim, o recurso mostra que o retorno não é só de um homem, mas de uma família. Quando pai e filho se encontram, no canto XVI, Telêmaco já viajou, enfrentou os pretendentes em público e escapou da emboscada, e por isso pode ser aliado, não apenas herdeiro. A Telemaquia é, assim, a primeira metade de uma montagem em duas peças: o filho se constrói enquanto o pai é reconstruído.