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Personagem

Calipso

Quem é

Calipso é a ninfa que vive na ilha de Ogígia, numa gruta cercada de bosque, videira e quatro fontes, onde canta enquanto tece com uma naveta de ouro. É nela que o poema encontra Odisseu no começo da história: retido há anos, sem naus nem companheiros, longe de Ítaca. Ela o quer como marido e lhe oferece o que um mortal não tem, a vida sem velhice e sem morte. O poema não a mostra só como obstáculo, porque é ela quem, no fim, dá ao herói o machado, a vela, as provisões, o vento e a orientação pelas estrelas.

Trajetória

No Canto I, Calipso ainda não aparece em cena, e quem fala dela é Atena, no concílio dos deuses: Odisseu está preso na ilha da ninfa, que o encanta com palavras doces para que esqueça Ítaca. Ele não esquece, e o desejo dele é mínimo, ver ao menos a fumaça da própria terra.

αὐτὰρ Ὀδυσσεύς, / ἱέμενος καὶ καπνὸν ἀποθρῴσκοντα νοῆσαι / ἧς γαίης, θανέειν ἱμείρεται. (1.57-59), mas Odisseu, desejando ver ao menos a fumaça subindo da sua terra, anseia por morrer.
Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco

No Canto IV, Menelau repete a Telêmaco o que o velho do mar lhe contou: Odisseu está numa ilha, chorando, retido à força pela ninfa, sem naus de remos e sem companheiros. Para Telêmaco é a primeira notícia segura de que o pai vive.

τὸν δʼ ἴδον ἐν νήσῳ θαλερὸν κατὰ δάκρυ χέοντα, / νύμφης ἐν μεγάροισι Καλυψοῦς, ἥ μιν ἀνάγκῃ / ἴσχει· ὁ δʼ οὐ δύναται ἣν πατρίδα γαῖαν ἱκέσθαι (4.556-558), vi-o numa ilha, derramando lágrimas abundantes, no palácio da ninfa Calipso, que o retém à força; e ele não pode chegar à sua terra.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

O Canto V é o canto dela. Zeus manda Hermes dizer que Odisseu partirá sem escolta de deuses nem de homens, numa balsa. Calipso reage com uma queixa contra os deuses, que não suportam que uma deusa durma abertamente com um mortal, e dá como precedentes Aurora e Oríon, Deméter e Iásion, mortos por isso. Lembra que salvou Odisseu quando Zeus lhe partiu a nau com o raio, e admite que não pode ir contra a ordem.

σχέτλιοί ἐστε, θεοί, ζηλήμονες ἔξοχον ἄλλων, / οἵ τε θεαῖς ἀγάασθε παρʼ ἀνδράσιν εὐνάζεσθαι / ἀμφαδίην, ἤν τίς τε φίλον ποιήσετʼ ἀκοίτην (5.118-120), sois cruéis, deuses, invejosos acima de todos, vós que vos indignais de que deusas durmam abertamente com homens, se uma faz de algum o seu amado marido.
Canto V: Calipso e a balsa

Na praia, ela diz a Odisseu que deixe de chorar e faça uma balsa. Ele desconfia e só aceita se ela jurar que não lhe fará outro mal. Calipso sorri, chama-o de manhoso e jura pela água do Estige, dizendo de si que tem uma mente justa e um ânimo compassivo. Mas o poema registra também o lado de Odisseu: à noite ele dormia nas grutas porque era constrangido, sem querer, ao lado de quem queria.

ἀλλʼ ἦ τοι νύκτας μὲν ἰαύεσκεν καὶ ἀνάγκῃ / ἐν σπέσσι γλαφυροῖσι παρʼ οὐκ ἐθέλων ἐθελούσῃ (5.154-155), mas as noites dormia, por constrangimento, nas grutas fundas, sem querer, ao lado dela, que queria.
Canto V: Calipso e a balsa
καὶ γὰρ ἐμοὶ νόος ἐστὶν ἐναίσιμος, οὐδέ μοι αὐτῇ / θυμὸς ἐνὶ στήθεσσι σιδήρεος, ἀλλʼ ἐλεήμων (5.190-191), também eu tenho uma mente justa, e em meu peito o ânimo não é de ferro, mas compassivo.
Canto V: Calipso e a balsa

À mesa, ela faz a oferta decisiva. Se ele soubesse as penas que o destino lhe reserva antes de chegar, ficaria com ela e seria imortal. Odisseu concede a premissa inteira, que Penélope é mortal e inferior a ela em aparência, e continua querendo voltar todos os dias.

εἴ γε μὲν εἰδείης σῇσι φρεσὶν ὅσσα τοι αἶσα / κήδεʼ ἀναπλῆσαι, πρὶν πατρίδα γαῖαν ἱκέσθαι, / ἐνθάδε κʼ αὖθι μένων σὺν ἐμοὶ τόδε δῶμα φυλάσσοις / ἀθάνατός τʼ εἴης (5.206-209), se soubesses no teu íntimo quantas penas o destino te manda cumprir antes de chegar à tua terra, ficarias aqui comigo a guardar esta casa e serias imortal.
Canto V: Calipso e a balsa
πότνα θεά, μή μοι τόδε χώεο· οἶδα καὶ αὐτὸς / πάντα μάλʼ, οὕνεκα σεῖο περίφρων Πηνελόπεια / εἶδος ἀκιδνοτέρη μέγεθός τʼ εἰσάντα ἰδέσθαι· / ἡ μὲν γὰρ βροτός ἐστι, σὺ δʼ ἀθάνατος καὶ ἀγήρως. / ἀλλὰ καὶ ὣς ἐθέλω καὶ ἐέλδομαι ἤματα πάντα / οἴκαδέ τʼ ἐλθέμεναι καὶ νόστιμον ἦμαρ ἰδέσθαι (5.215-220), soberana deusa, não te irrites comigo por isto: eu mesmo sei muito bem que a prudente Penélope é inferior a ti no aspecto e na estatura, a quem a olhe de frente; pois ela é mortal, e tu és imortal e sem velhice. Mas, ainda assim, quero e desejo todos os dias voltar para casa e ver o dia do regresso.
Canto V: Calipso e a balsa

Depois dessa conversa, Calipso cumpre o que prometeu: dá o machado e a enxó, o pano da vela, o vinho e a água, manda um vento suave e ensina a navegar com as Plêiades, o Boieiro e a Ursa à esquerda.

No Canto VII, Odisseu conta a Alcínoo e à rainha como ela o acolheu, o alimentou e prometeu torná-lo imortal sem lhe persuadir o coração, e como ele passou sete anos ali banhando de lágrimas as roupas que ela lhe deu. No Canto VIII, o banho quente que os feácios lhe oferecem é o primeiro desde que deixou a ninfa. No Canto IX, ele conta que ela e Circe quiseram retê-lo como marido sem convencer-lhe o ânimo.

τρηχεῖʼ, ἀλλʼ ἀγαθὴ κουροτρόφος· οὔ τοι ἐγώ γε / ἧς γαίης δύναμαι γλυκερώτερον ἄλλο ἰδέσθαι. (9.27-28), áspera, mas boa criadora de rapazes; eu, de fato, não consigo ver nenhuma outra terra mais doce do que a dela.
Canto IX: O ciclope

No Canto XII, o narrador de Odisseu cita Calipso como a fonte de uma notícia: foi ela quem lhe contou, por Hermes, a ira do Sol e a decisão de Zeus de destruir a nau. O relato termina na chegada à ilha dela. No Canto XXIII, ao contar a noite inteira a Penélope, ele inclui Calipso, que o reteve querendo-o como marido e prometendo torná-lo imortal, e não o convenceu.

Temas que encarna

Calipso encarna o lado atraente de Lar, exílio e retorno: o exílio que não parece prisão, porque oferece abrigo, canto, comida e a vida eterna. Por isso põe à prova o centro da Identidade de Odisseu, que é mortal e quer voltar para uma casa onde vai envelhecer.

Calipso não é uma carcereira. O poema a mostra cedendo à ordem de Zeus, jurando, ensinando o caminho e dando as provisões, e ao mesmo tempo registra que Odisseu só dorme com ela por constrangimento. As duas coisas ficam lado a lado: ela é generosa e a vontade dele não conta nesse arranjo. A recusa da imortalidade vale mais por ser feita diante de alguém que é, de fato, boa.

Relações

  • Odisseu: o homem que ela retém, ama e acaba por ajudar a partir.
  • Zeus: o deus cuja ordem, levada por Hermes, ela não pode contrariar.
  • Atena: quem leva o caso dela ao concílio do Canto I e quer o retorno de Odisseu.
  • Penélope: a rival mortal, que Calipso supera em aparência e que Odisseu prefere assim mesmo.
  • Circe: a outra deusa que quis retê-lo como marido e depois o ajudou a seguir.