O tema na obra
O Paraíso é a cântica do exílio dito de dentro. Nas outras duas Dante já ouvira falar do futuro dele pelas bocas de Farinata e de Brunetto, mas é no céu de Marte, com o trisavô, que o exílio se torna uma notícia completa. Antes dela, o poema fala da cidade perdida pela voz de quem a viu inteira. Cacciaguida descreve a Florença antiga por ausências, e a primeira palavra do louvor é paz.
Fiorenza dentro da la cerchia antica, / ond’ ella toglie ancora e terza e nona, / si stava in pace, sobria e pudica, Florença, dentro da cerca antiga, de onde ainda toma terça e nona, estava em paz, sóbria e pudica.
A origem da cidade é contada pelas mulheres à roca, e o presente, desfeito pela soberba e pela mistura de gentes, é o catálogo das casas do canto XVI, que termina no lírio que nunca foi posto ao revés na lança, nem tornado vermelho por divisão.
Con queste genti vid’io glorïoso / e giusto il popol suo, tanto che ’l giglio / non era ad asta mai posto a ritroso, / né per divisïon fatto vermiglio, com essas gentes vi glorioso e justo o seu povo, a tal ponto que o lírio nunca era posto ao revés na lança, nem por divisão tornado vermelho.
Só então vem o exílio, e vem com um mito por termo de comparação, o de Hipólito expulso de Atenas pela madrasta:
Qual si partio Ipolito d’Atene / per la spietata e perfida noverca, / tal di Fiorenza partir ti convene., como Hipólito partiu de Atenas por causa da madrasta impiedosa e pérfida, assim te convém partir de Florença.
O que o exílio custa é o gosto do pão alheio e os degraus das escadas dos outros:
A sentença do exílio, na boca de Cacciaguida.Tu lascerai ogne cosa diletta / più caramente; e questo è quello strale / che l’arco de lo essilio pria saetta. / Tu proverai sì come sa di sale / lo pane altrui, e come è duro calle / lo scendere e ’l salir per l’altrui scale.Deixarás tudo o que mais amas, e essa é a primeira flecha que o arco do exílio atira; provarás como tem sabor de sal o pão alheio, e como é duro caminho descer e subir pela escada dos outros. É o coração autobiográfico do poema: Dante escreve a Comédia já exilado, e coloca na boca do próprio ancestral a imagem exata da humilhação que vivia ao escrevê-la.
Dante teme perder a vida entre os que chamarão este tempo antigo, e o consolo de Cacciaguida tem duas partes: o castigo dos companheiros virá deles mesmos, e será belo ter feito partido de si mesmo.
che tutta ingrata, tutta matta ed empia / si farà contr’ a te; ma, poco appresso, / ella, non tu, n’avrà rossa la tempia. / Di sua bestialitate il suo processo / farà la prova; sì ch’a te fia bello / averti fatta parte per te stesso., que, toda ingrata, toda louca e ímpia, se voltará contra ti; mas, pouco depois, ela, e não tu, terá a têmpora vermelha. O seu próprio procedimento, bestial, fará a prova disso, de modo que será belo para ti teres feito partido de ti mesmo.
Do alto de Gêmeos, no canto XXII, o canteiro que torna os homens ferozes aparece inteiro, das colinas às fozes, e Dante sorri do seu vil aspecto:
L’aiuola che ci fa tanto feroci, / volgendom’ io con li etterni Gemelli, / tutta m’apparve da’ colli a le foci, o canteiro que nos faz tão ferozes, enquanto eu girava com os Gêmeos eternos, apareceu-me todo, das colinas às fozes.
O XXIII muda o sentido da palavra, porque o tesouro do céu foi ganho chorando no exílio de Babilônia, onde se deixou o ouro. E no XXV o exílio recebe seu horizonte: Dante volta poeta à pia do batismo, com outra voz e outra lã, se o poema vencer a crueldade que o fecha fora do belo redil.
vinca la crudeltà che fuor mi serra / del bello ovile ov’ io dormi’ agnello, / nimico ai lupi che li danno guerra; / con altra voce omai, con altro vello / ritornerò poeta, e in sul fonte / del mio battesmo prenderò ’l cappello, vença a crueldade que me fecha para fora do belo redil onde dormi cordeiro, inimigo dos lobos que lhe fazem guerra; com outra voz agora, com outra lã voltarei poeta, e sobre a pia do meu batismo tomarei o chapéu.
O horizonte, portanto, não é um perdão da cidade, é uma coroação do poema, e quem decide se ela virá é a própria Florença. Adão (na leitura corrente), o primeiro exilado, fecha o arco ao explicar que o exílio dele veio de transpor o sinal, e não de provar o fruto.
Or, figluol mio, non il gustar del legno / fu per sé la cagion di tanto essilio, / ma solamente il trapassar del segno, ora, filho meu, não o provar do lenho foi por si a causa de tão longo exílio, mas somente o transpor do sinal.
Quem o encarna
Dante é o exilado que ouve a sentença e aceita o encargo. Cacciaguida é o ancestral que a diz e que recorda a cidade. Adão é o primeiro exilado. Folquet de Marselha é a voz que acusa a cidade natal de Dante, a planta de quem primeiro voltou as costas ao Criador.
Onde aparece
- Canto IX: Folquet chama Florença de planta de quem voltou as costas ao Criador e acusa a flor maldita que desviou ovelhas e cordeiros.
- Canto XV: Cacciaguida descreve a Florença dentro da cerca antiga, sóbria e pudica, e sua vida de batizado, cavaleiro e cruzado.
- Canto XVI: Cacciaguida recorda as casas desfeitas por soberba e o noivado de Buondelmonte que dividiu a cidade.
- Canto XVII: Cacciaguida anuncia a Dante a partida de Florença, o pão de gosto de sal, e manda manifestar toda a visão.
- Canto XXII: Dante vê a Terra de cima como um canteiro pequeno e sorri do seu vil aspecto.
- Canto XXIII: O poeta lembra que o tesouro do céu foi ganho chorando no exílio de Babilônia, onde se deixou o ouro.
- Canto XXV: Dante declara a esperança de voltar poeta à pia do batismo, com outra voz, se o poema vencer a crueldade.
- Canto XXVI: Adão diz que a causa de tão longo exílio foi o transpor do sinal, e não o provar do lenho.
- Canto XXXI: Dante compara seu espanto ao dos bárbaros diante de Roma, ele que vem de Florença a um povo justo e são.
Onde as leituras divergem
Carpeaux fecha o retrato de Dante com a imagem do túmulo do exilado, em Ravena:
Mas Dante continua até hoje na solidão do seu túmulo de exilado, em Ravenna.
O texto sustenta duas leituras da pureza de sangue que Cacciaguida celebra. Na primeira, é queixa cívica de um velho contra os que vieram do campo e trocaram a cidade pelo dinheiro. Na segunda, é defesa de uma pureza que o próprio Cacciaguida desmente quando diz que as cidades e as linhagens também morrem. O mesmo vale para o retorno: a esperança de voltar poeta é uma volta com outra lã, e o poema não diz se a cidade abre a porta.