Clavis Libri

Personagem

Boaventura

Quem é

Boaventura é a voz que, no canto XII, responde ao dominicano Tomás de Aquino, do segundo círculo de sábios do Sol, e só se nomeia no fim do canto. Fala de uma das luzes novas, e o peregrino se volta para ela como a agulha à estrela. Franciscano, usa o amor que a faz bela como razão para falar do outro duque: onde se leva um, deve-se levar o outro, porque a glória dos dois brilha junta. Conta o berço de Domingos em Calaruega, na Espanha, sob a proteção do escudo de Castela, e faz dele o amante da fé e o atleta, benigno aos seus e cruel aos inimigos. Descreve o menino que, ainda no ventre, fez da mãe uma profetisa, a madrinha que viu em sonho o fruto, o nome tirado de Dominus, o lavrador que Cristo escolheu para ajudá-lo na horta. Fala do jurista e do médico que o mundo segue e que ele recusou por amor ao maná verdadeiro, e do pedido que fez à sé apostólica. Termina condenando a própria ordem, com a imagem do mofo onde havia crosta. Interessa aqui o gesto de ser o espelho exato do elogio de Tomás.

Trajetória

No canto XII ele começa descrevendo o berço de Domingos:

dentro vi nacque l’amoroso drudo / de la fede cristiana, il santo atleta / benigno a’ suoi e a’ nemici crudo, dentro dela nasceu o amoroso amante da fé cristã, o santo atleta, benigno para os seus e cruel para os inimigos.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Domingos pede à sé apostólica pela negativa, nada de isenção, nada de benefício vago, nada de dízimo:

non dispensare o due o tre per sei, / non la fortuna di prima vacante, / non decimas, quae sunt pauperum Dei, não dispensar dois ou três por seis, não a fortuna do primeiro benefício vago, não as décimas, que são dos pobres de Deus.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Depois de louvar o fundador alheio, Boaventura julga o próprio, com uma imagem de vinho:

Ma l’orbita che fé la parte somma / di sua circunferenza, è derelitta, / sì ch’è la muffa dov’ era la gromma, mas a órbita que fez a parte mais alta da sua circunferência está abandonada, de modo que há mofo onde havia crosta.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

E aponta os dois extremos da regra, um que a foge e outro que a aperta:

ma non fia da Casal né d’Acquasparta, / là onde vegnon tali a la scrittura, / ch’uno la fugge e altro la coarta, mas não será de Casal nem de Acquasparta, de onde vêm tais à regra que um a foge e outro a aperta.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Só no fim ele se apresenta:

São Boaventura, franciscano, faz o espelho exato. Io son la vita di Bonaventura / da Bagnoregio, che ne’ grandi offici / sempre pospuosi la sinistra cura. São Boaventura se apresenta como a vida de Boaventura de Bagnoregio, que nos grandes cargos sempre pôs de lado o cuidado com o próprio interesse, e passa a narrar a vida de Domingos: Domenico fu detto; e io ne parlo / sì come de l’agricola che Cristo / elesse a l’orto suo per aiutarlo. Chamaram-no Domingos, diz Boaventura, e fala dele como do lavrador que Cristo escolheu para ajudá-lo em sua horta. A simetria é exata e proposital: cada ordem elogia o fundador da outra pela boca de um dos seus maiores nomes, e o poema fecha a rixa histórica entre franciscanos e dominicanos com a prova mais forte que tinha à mão, a voz do adversário.
Paraíso

Com ele estão Iluminado e Agostinho, dos primeiros descalços, Hugo de São Vítor, Pedro Comedor e Pedro Espanhol, o profeta Natã, o metropolita Crisóstomo, Anselmo, Donato, Rabano e o abade Joaquim, dotado de espírito profético. A cortesia de Tomás moveu Boaventura a celebrar tão grande paladino, e moveu com ele esta companhia.

Temas que encarna

Boaventura encarna o Conhecimento e sabedoria e a Fé que se corrigem por dentro. O elogio ao fundador alheio é a prova de que o louvor é livre, e a crítica à própria ordem é a prova de que quem louva sabe o que se perdeu.

O texto sustenta duas leituras da condenação final. Na primeira, é um desabafo de quem viu a regra de Francisco afrouxar de um lado e apertar de outro. Na segunda, é um recurso literário do poeta, que pode condenar os franciscanos com mais força pela boca de um franciscano do que pela própria. A simetria exata com o canto XI, em que o dominicano condena o próprio rebanho, sugere que a segunda leitura não exclui a primeira.

Relações

  • Tomás de Aquino: o dominicano cujo elogio de Francisco ele devolve.
  • Dante: o vivo que se volta para ele como a agulha à estrela.
  • Beatriz: a que fica no centro das duas coroas com Dante.