Quem é
Tomás de Aquino é, no Sol, a voz que nomeia e descreve os doze sábios da primeira coroa. Apresenta-se como cordeiro do rebanho que Domingos guia, e nomeia ou descreve, em ordem, quem o acompanha: Santo Alberto Magno, seu mestre; Graciano; Pedro, que a leitura corrente diz Lombardo; a luz mais bela, que a leitura corrente diz Salomão; Dionísio, Orósio e Boécio, que o poema só descreve; Isidoro, Beda, Ricardo e, por último, Sigieri de Brabante, que os comentadores dão como adversário seu na terra. Dominicano, gasta o canto XI inteiro louvando Francisco, o fundador franciscano, e termina denunciando o rebanho do próprio fundador: quanto mais as ovelhas se afastam do pastor, mais voltam vazias de leite. No XIII responde a uma dúvida de Dante sobre Salomão, separa saber de prudência régia e termina com um aviso contra o juízo apressado, em que manda pôr chumbo nos pés. É um mestre que resolve a dúvida e dá o método: antes de afirmar ou negar, distinguir. Interessa aqui a personagem que o poema constrói, o professor que ensina por exemplo, que corrige a si mesmo na hora e que usa a boca do adversário.
Trajetória
No canto X ele aponta a quinta luz, a mais bela, e a ressalva é de teólogo:
La quinta luce, ch’è tra noi più bella, / spira di tale amor, che tutto ’l mondo / là giù ne gola di saper novella: / entro v’è l’alta mente u’ sì profondo / saver fu messo, che, se ’l vero è vero, / a veder tanto non surse il secondo, a quinta luz, a mais bela entre nós, respira tal amor que todo o mundo lá embaixo tem gula de saber notícia dela: nela está a alta mente em que se pôs saber tão profundo que, se o verdadeiro é verdadeiro, ninguém surgiu para ver tanto.
A lista fecha com um adversário, e a escolha é do poema:
essa è la luce etterna di Sigieri, / che, leggendo nel Vico de li Strami, / silogizzò invidïosi veri, essa é a luz eterna de Sigieri, que, ensinando na Rua da Palha, silogizou verdades que despertaram inveja.
No canto XI ele retoma a imagem do próprio rebanho, apresentada no canto X, e dedica o resto a Francisco:
São Tomás de Aquino, dominicano, se apresenta falando do próprio rebanho, no canto X.Io fui de li agni de la santa greggia / che Domenico mena per cammino / u’ ben s’impingua se non si vaneggia.São Tomás de Aquino se apresenta como um dos cordeiros do rebanho que Domingos conduz, onde se engorda bem se não se anda vaidoso, e só depois de se nomear dedica o resto do canto a narrar a vida de Francisco de Assis, dizendo explicitamente o que está fazendo:Francesco e Povertà per questi amanti / prendi oramai nel mio parlar diffuso.Ele pede que se tome Francisco e a Pobreza por estes amantes, num discurso que ele mesmo chama de difuso. Um dominicano gastar um canto inteiro louvando o fundador franciscano não é gentileza gratuita, é construção: o poema usa a boca do rival para provar que a santidade ultrapassa a rixa entre ordens que, na Florença e na Itália do próprio Dante, era notoriamente real.
Corrige o nome da cidade como quem corrige uma medida:
Però chi d’esso loco fa parole, / non dica Ascesi, ché direbbe corto, / ma Orïente, se proprio dir vuole, por isso, quem falar desse lugar não diga Assis, que diria pouco, mas Oriente, se quer dizer com propriedade.
A história de Francisco é a de um casamento com a Pobreza, viúva do primeiro marido, Cristo, que esperou onze séculos pelo segundo:
Questa, privata del primo marito, / millecent’ anni e più dispetta e scura / fino a costui si stette sanza invito, esta, privada do primeiro marido, por mil e cem anos e mais ficou desprezada e obscura, sem convite, até este.
E termina denunciando o rebanho de Domingos:
e quanto le sue pecore remote / e vagabunde più da esso vanno, / più tornano a l’ovil di latte vòte, e quanto mais as suas ovelhas, afastadas e vagabundas, se vão dele, mais voltam ao redil vazias de leite.
No canto XIII retoma a dúvida deixada pelo X, e começa pelo princípio de tudo: o que não morre e o que pode morrer é esplendor de uma só ideia.
Ciò che non more e ciò che può morire / non è se non splendor di quella idea / che partorisce, amando, il nostro Sire, o que não morre e o que pode morrer não é senão esplendor daquela ideia que o nosso Senhor gera, amando.
A diferença entre os homens vem da matéria que recebe a marca:
ma la natura la dà sempre scema, / similemente operando a l’artista / ch’a l’abito de l’arte ha man che trema, mas a natureza a dá sempre diminuída, operando de modo semelhante ao artista que, no hábito da arte, tem a mão que treme.
O caso de Salomão se resolve por uma distinção:
Onde, se ciò ch’io dissi e questo note, / regal prudenza è quel vedere impari / in che lo stral di mia intenzion percuote, por isso, se notas o que eu disse e isto, prudência régia é a visão sem par em que fere a seta da minha intenção.
A regra de conduta que ele dá a Dante é o chumbo nos pés:
E questo ti sia sempre piombo a’ piedi, / per farti mover lento com’ uom lasso / e al sì e al no che tu non vedi, e que isto te seja sempre chumbo nos pés, para te fazer mover lento como homem cansado, tanto ao sim como ao não que não vês.
E remata com a seara verde e com dois nomes vulgares:
Non sien le genti, ancor, troppo sicure / a giudicar, sì come quei che stima / le biade in campo pria che sien mature, que as gentes ainda não sejam demasiado seguras ao julgar, como quem avalia as searas no campo antes que estejam maduras.
Non creda donna Berta e ser Martino, / per vedere un furare, altro offerere, / vederli dentro al consiglio divino; / ché quel può surgere, e quel può cadere, não creia dona Berta e senhor Martinho, por verem um roubar, outro oferecer, vê-los dentro do conselho divino; pois aquele pode se levantar, e este, cair.
No canto XII ele é a cortesia inflamada que move Boaventura a celebrar o outro duque, e no canto XXVIII a regra de que o ser beato nasce do ver é, na leitura corrente, a posição dele sobre a bem-aventurança.
Temas que encarna
Tomás encarna o Conhecimento e sabedoria como distinção: o que ele ensina é um método, o de pesar antes de afirmar, e o que ele faz é aplicar o método a si mesmo, ao rebanho que dirige e a um rei do Antigo Testamento. Encarna também a Fé que pergunta: a dúvida de Dante é tratada como parte do caminho.
O texto sustenta duas leituras do aviso final do canto XIII. Na primeira, é conselho de professor a um aluno apressado. Na segunda, vale também para o poeta, que condena nomes vivos e mortos ao longo do poema, e o aviso soa como autocrítica antecipada. A simetria dos cantos XI e XII, em que cada fundador é louvado pelo membro da ordem rival, reforça a segunda: o poema usa a boca do adversário para provar que o louvor é livre.
Relações
- Boaventura: o franciscano que faz o espelho do seu elogio no canto XII.
- Dante: o aluno a quem dá o chumbo nos pés.
- Beatriz: quem continua a voz dele no começo do XIV.
- São Pedro: o apóstolo que examina Dante sobre a fé, em objeção e réplica, nas estrelas fixas.