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Personagem

Folquet de Marselha

Quem é

Folquet é a alma de Vênus a quem Cunizza da Romano aponta como a joia mais próxima, de cuja fama ainda se falará por cinco séculos, e que Dante interpela com dois verbos que ele mesmo inventa, intuarsi e inmiarsi, entrar no outro como o outro entra nele. Responde com um mapa: o Mediterrâneo, o maior vale em que a água se espalha, e em sua orla, entre o Ebro e o Magra, uma terra que fez do próprio sangue, já quente, o seu porto, Marselha. A gente que conheceu o nome o chamou Folco, e este céu se imprime dele como ele se imprimiu do céu. A tradição o lê como o trovador que se fez monge e depois bispo de Toulouse, e o poema não diz nada disso. Diz que nem Dido, que ofendeu Siqueu e Creúsa, nem Fílis, enganada por Demofoonte, nem Alcides, quando teve Iole no coração, ardeu mais do que ele enquanto convinha ao cabelo. Aparece só no canto IX, e é ali que define o Paraíso pelo que ele deixa de fazer, arrepender. Aponta Raab, a primeira alma assunta no triunfo de Cristo, e fecha com a invectiva contra Florença e a Igreja, com uma esperança no fim.

Trajetória

No canto IX ele afasta o pasmo diante de quem foi tão ardente e agora ri:

Non però qui si pente, ma si ride, / non de la colpa, ch’a mente non torna, / ma del valor ch’ordinò e provide. / Qui si rimira ne l’arte ch’addorna / cotanto affetto, e discernesi ’l bene / per che ’l mondo di sù quel di giù torna, aqui, porém, não nos arrependemos, mas rimos, não da culpa, que não volta à mente, mas do valor que ordenou e proveu. Aqui se contempla a arte que adorna tanto afeto, e se discerne o bem pelo qual o mundo de cima faz girar o de baixo.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Aponta a luz que cintila ao seu lado como raio de sol em água limpa: Raab, a prostituta de Jericó que escondeu os espiões de Josué, no último céu que a sombra da terra alcança.

Da questo cielo, in cui l’ombra s’appunta / che ’l vostro mondo face, pria ch’altr’ alma / del trïunfo di Cristo fu assunta, deste céu, em que a sombra que o vosso mundo faz termina em ponta, antes de qualquer outra alma, foi ela assunta no triunfo de Cristo.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Depois volta a Florença, que chama de planta daquele que primeiro voltou as costas ao Criador:

La tua città, che di colui è pianta / che pria volse le spalle al suo fattore / e di cui è la ’nvidia tanto pianta, / produce e spande il maladetto fiore / c’ha disvïate le pecore e li agni, / però che fatto ha lupo del pastore, a tua cidade, que é planta daquele que primeiro voltou as costas ao seu Criador e de quem tanto se chora a inveja, produz e espalha a flor maldita que desviou as ovelhas e os cordeiros, porque fez do pastor um lobo.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Por causa dessa flor, o Evangelho e os grandes doutores estão abandonados e só as Decretais se estudam. O canto, porém, não acaba na censura:

Ma Vaticano e l’altre parti elette / di Roma che son state cimitero / a la milizia che Pietro seguette, / tosto libere fien de l’avoltero, mas o Vaticano e as outras partes eleitas de Roma, que foram cemitério da milícia que seguiu Pedro, logo serão livres do adultério.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Temas que encarna

Folquet encarna o Amor reordenado: o desejo que o queimou mais do que a Dido não foi apagado, foi recolocado, e o que volta à mente é a potência que o previu. Encarna também o limite da Justiça e lei humana, na crítica à moeda de Florença e às Decretais que tomaram o lugar do Evangelho.

O texto sustenta duas leituras de por que nada se arrepende em Vênus. Na primeira, a culpa foi expiada e por isso esquecida. Na segunda, o amor desordenado só aparece como falta a quem ainda não vê a ordem em que entra, e no céu a ordem se vê. O canto liga as duas coisas sem mudar de registro: o mesmo amor que ardeu em Folquet é o desejo de ter que desvia os pastores do rebanho.

Relações

  • Cunizza da Romano: quem o aponta e vem antes no mesmo canto.
  • Dante: o vivo que o interpela com verbos novos.
  • Beatriz: a que sustenta o olhar de Dante enquanto Folquet fala.