Clavis Libri

Personagem

Adão

Quem é

Adão é a quarta luz que aparece entre as três dos apóstolos nas estrelas fixas, quando Beatriz diz que dentro daqueles raios a alma primeira, a que a primeira virtude criou, contempla o seu fazedor. O poema nunca lhe diz o nome: Dante o chama de fruto que maduro foi produzido sozinho, pai antigo de quem toda esposa é filha e nora, e é a tradição que identifica essa alma com o primeiro homem. A luz que o cobre se agita como animal coberto cujo afeto transparece, e mostra o quanto vem alegre contentá-lo. Ele lê o desejo de Dante melhor do que Dante lê qualquer coisa certa, porque o vê no espelho verdadeiro, e enumera, sem ser perguntado, as quatro coisas que o peregrino quer saber: quanto tempo faz que Deus o pôs no jardim, quanto foi o deleite dos olhos dele, a causa da grande ira e a língua que usou e que fez. Responde aos quatro pontos em ordem, com números, com uma correção de teologia e com uma correção da própria obra de Dante sobre a língua. É um dos raros personagens da cântica a ensinar sem ser perguntado, e corrige a imagem popular da culpa.

Trajetória

No canto XXVI Dante o chama assim:

E cominciai: «O pomo che maturo / solo prodotto fosti, o padre antico / a cui ciascuna sposa è figlia e nuro, / divoto quanto posso a te supplìco / perché mi parli: tu vedi mia voglia, / e per udirti tosto non la dico», e comecei: ó fruto que, maduro, foste produzido sozinho, ó pai antigo de quem toda esposa é filha e nora, devoto quanto posso te suplico que me fales: tu vês o meu desejo, e para te ouvir logo não o digo.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

Adão tira o peso do gesto: o lenho não foi a causa do exílio, o limite foi.

Or, figluol mio, non il gustar del legno / fu per sé la cagion di tanto essilio, / ma solamente il trapassar del segno, ora, filho meu, não o provar do lenho foi por si a causa de tão longo exílio, mas somente o transpor do sinal.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

Sobre os tempos, diz que desejou o concílio do céu por quatro mil trezentos e dois cursos do sol no limbo, e que viveu na terra novecentos e trinta voltas do sol. A língua que falou estava extinta antes da obra de Nemrod, o que contradiz o que Dante sustentara em tratado, onde a língua de Adão sobrevivia em hebraico. O nome de Deus mudou na boca dos homens:

Pria ch’i’ scendessi a l’infernale ambascia, / I s’appellava in terra il sommo bene / onde vien la letizia che mi fascia; / e El si chiamò poi: e ciò convene, / ché l’uso d’i mortali è come fronda / in ramo, che sen va e altra vene, antes que eu descesse à angústia infernal, I se chamava na terra o sumo bem de que vem a alegria que me envolve; e El se chamou depois: e isso convém, porque o uso dos mortais é como a folha no ramo, que se vai e outra vem.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

Fala do monte em que esteve, com vida pura e depois desonesta, da primeira hora até a que segue a sexta, quando o sol muda de quadrante, e a explicação do exílio liga o canto ao eco do canto XXXI do Inferno, onde Virgílio diz que já não se usa uma só língua no mundo. No canto XXXII Bernardo o põe como raiz da rosa, à esquerda, pelo gosto ousado de quem a espécie humana prova tanto amargo, ao lado de Moisés e em frente a Lúcia.

Temas que encarna

Adão encarna a Linguagem e narração: a língua dele estava extinta antes de Nemrod, e o uso dos mortais é como a folha no ramo, que se vai e outra vem. Encarna também a Justiça e lei, porque a culpa é o transpor do sinal, não o fruto. A Fé que Dante examina nos cantos anteriores tem aqui a sua origem e a sua queda.

O texto sustenta duas leituras da correção que Adão faz à imagem da queda. Na primeira, a culpa é a travessia do limite, o que desloca o peso da maçã para a ordem desobedecida. Na segunda, o poema corrige o seu próprio autor, porque Adão contradiz o que o Dante do tratado sobre a língua afirmara. A atribuição ao primeiro homem é da tradição, e a autoridade da correção vem do que o poema faz com a cena, não do nome dito.

Relações

  • Dante: o neto distante que o chama de pai antigo.
  • Beatriz: a que nomeia a alma pelo que ela contempla.
  • São Pedro: a outra raiz da rosa, à direita, na ponta oposta.
  • São Bernardo: o guia que o põe como raiz da rosa, à esquerda.