Clavis Libri

Personagem

Catão

Quem é

O velho que guarda a praia do Purgatório é um solitário de barba longa e branca, cujo rosto as quatro estrelas que só os primeiros homens viram iluminam a ponto de parecer que o sol o ilumina. O texto não lhe dá nome. Diz que ele deixou a vida em Útica e que tem uma esposa, Márcia, no círculo onde mora, e a tradição dos comentadores o identifica com Catão de Útica, o pagão que a mesma tradição diz ter se matado para não se render a César. É essa tradição, e não o verso, que fixa o nome. O que o poema mostra dele em dois cantos é uma autoridade: pergunta, ouve, recusa o apelo ao afeto, obedece à ordem do céu e manda o que tem de ser mandado. Para Dante é o primeiro obstáculo da montanha e o primeiro mestre, que lhe ensina por quem a passagem se abre e, no canto seguinte, o que a demora custa.

Trajetória

No canto I do Purgatório, o velho vê dois vultos chegarem a sua praia e pergunta como saíram da prisão eterna contra o curso do rio escuro, e se as leis do abismo foram rotas. Virgílio faz Dante se ajoelhar e responde: uma dama do céu os mandou, e o homem que traz busca liberdade, como sabe quem por ela recusa a vida. Virgílio invoca Márcia, que está no círculo onde ele mora, de olhos castos, e ainda lhe pede com o olhar, e o velho separa dois pedidos:

Ma se donna del ciel ti move e regge, / come tu di’, non c’è mestier lusinghe: / bastisi ben che per lei mi richegge, mas se uma dama do céu te move e te rege, como dizes, não são precisas lisonjas: basta que em nome dela me peças.
Cantos I a IV: A praia e o Antepurgatório

Ele cede ao nome da dama do céu, não ao afeto. Manda cingir Dante com um junco liso e lavar-lhe o rosto, para que não vá com o olho coberto de névoa diante do primeiro ministro, que é do paraíso, e explica que a ilha só produz juncos sobre a lama mole, porque nenhuma outra planta resiste às pancadas da água. O sol que nasce mostrará a subida mais leve. Depois some. Quem executa o gesto é Virgílio, e o espanto de Dante é com a planta que renasce igual no mesmo lugar:

Quivi mi cinse sì com’ altrui piacque: / oh maraviglia! ché qual elli scelse / l’umile pianta, cotal si rinacque / subitamente là onde l’avelse, ali me cingiu como outro quis: oh maravilha! que, qual ele escolheu a humilde planta, tal renasceu logo, ali onde a arrancou.
Cantos I a IV: A praia e o Antepurgatório

No canto II do Purgatório o velho volta, e é a voz que dispersa a festa. Dante pediu a Casella o canto amoroso que lhe acalmava as dores, o amigo começou, e Virgílio, Dante e as almas recém-chegadas ficaram tão contentes que nada mais lhes tocava a mente, até que o velho grita. O que manda não é um caminho, é uma direção e um motivo: ir ao monte e despir a crosta que impede ver a Deus.

No primeiro dia na montanha, Dante reencontra o amigo músico Casella e pede que cante para aliviar o cansaço da alma recém-chegada; toda a comitiva, Virgílio incluído, para para ouvir, esquecida do caminho, até Catão surgir e repreender a demora, no primeiro aviso do lugar: a beleza que consola não é falsa, mas também ela pode virar demora, e ali não se para nem para ouvir uma bela canção:

Correte al monte a spogliarvi lo scoglio / ch’esser non lascia a voi Dio manifesto, correi ao monte a despir-vos da crosta que não deixa que Deus vos seja manifesto.
Purgatório

As almas largam o canto e fogem para a encosta, como pombos assustados no pasto, sem saber onde vão dar. Dante e Virgílio saem tão depressa quanto elas.

così vid’ io quella masnada fresca / lasciar lo canto, e fuggir ver’ la costa, / com’ om che va, né sa dove rïesca; / né la nostra partita fu men tosta, assim vi aquela turba recente largar o canto e fugir para a encosta, como quem vai sem saber onde vai dar; e a nossa partida não foi menos pronta.
Cantos I a IV: A praia e o Antepurgatório

Temas que encarna

Catão encarna a Redenção como disciplina da pressa: o monte começa pela exigência de que se deixe a praia e se vá. O que nele pesa é o tempo, e a pena do Antepurgatório que os cantos seguintes vão medir em anos e em trintas é a da demora. A Política está nele pelo nome de Útica e pela liberdade que o texto diz que ele deixou em troca da vida. O Purgatório se abre, portanto, com um pagão e com uma ordem, e a ordem é a primeira aula da cântica: purgar é tirar de si o que impede ver a Deus.

O guardião separa o pedido da autoridade com precisão: Márcia lhe agradou em vida e já não o move, a dama do céu basta dita em nome. Quando interrompe o canto, não dá caminho, dá direção ao monte e motivo. É o contrário do afeto de Virgílio, que apela à ternura, e o poema o põe na porta justamente por isso: a montanha não se abre por lisonja.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras do que Dante busca, quando Virgílio diz liberdade: a que a montanha dá, longe do pecado, ou a que Catão defendeu com a vida. O canto não escolhe, e o poema não explica por que um pagão guarda a porta de um monte de salvação. A identificação é da tradição, e as razões de a tradição a firmar são do comentário, não do verso.

Relações

  • Virgílio: o guia que lhe apela pela ternura e ouve a autoridade, e que executa a ordem do junco.
  • Dante: o vivo cuja chegada o velho estranha, e que recebe dele o junco e o rosto lavado.
  • Beatriz: a dama do céu, que o velho invoca sem nomear, e que abre a passagem pelo nome.