Clavis Libri

Personagem

Sordello

Quem é

Sordello é a alma lombarda, altiva e desdenhosa, de olhos honestos e lentos, que Dante e Virgílio acham sozinha no Antepurgatório e que, como um leão que repousa, não responde ao pedido de caminho. O que a faz levantar é o nome de uma terra: Mântua. A partir daí o poema faz dele três coisas. É o patrício que abraça Virgílio sem saber ainda quem fala, e que por esse gesto dispara em Dante a invectiva mais famosa da cântica contra a Itália. É o discípulo que, ao ouvir o nome Virgílio, se abaixa e o saúda como glória dos latinos. E é o guia local do vale dos príncipes e da noite, que traça no chão uma linha para dizer o que o poeta mais velho não vê: que de noite não se sobe, porque a escuridão embaraça a vontade com o não poder. O texto não diz mais dele do que isso, nome, pátria, atos e um gesto de dedo, e é por isso que cada gesto pesa.

Trajetória

No canto VI do Purgatório Dante acaba de se livrar da turba que lhe pede orações e pergunta a Virgílio se um texto seu não nega que a oração dobre o decreto do céu. Mais adiante, a pedido de Dante, andam com este dia o quanto puderem, e Virgílio vê uma alma sozinha que os olha. É a lombarda: altiva e desdenhosa, de olhos honestos e lentos, ela os deixa passar olhando. Virgílio se aproxima e pede a melhor subida; ela não responde, pergunta da terra e da vida deles, e o doce guia começa. A palavra que desfaz tudo é o nome da cidade:

«Mantüa . . . », e l’ombra, tutta in sé romita, / surse ver’ lui del loco ove pria stava, / dicendo: «O Mantoano, io son Sordello / de la tua terra!»; e l’un l’altro abbracciava, Mântua..., e a sombra, toda recolhida em si, ergueu-se em direção a ele do lugar onde antes estava, dizendo: ó mantuano, eu sou Sordello da tua terra! e um ao outro abraçava.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

Quem se movia por altivez e desdém é o mesmo que abraça, e o que o move é a pátria, não o pedido. Dante, a partir desse abraço entre dois homens que nunca se viram, interrompe a narração com a invectiva mais famosa da cântica, que chama a Itália de serva, nau sem timoneiro, não senhora de províncias. A figura central é a da montaria indomada:

Che val perché ti racconciasse il freno / Iustinïano, se la sella è vòta? / Sanz’ esso fora la vergogna meno, de que vale que Justiniano te consertasse o freio, se a sela está vazia? sem ele a vergonha seria menor.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

No canto VII do Purgatório as saudações se repetem três e quatro vezes. Sordello recua e pergunta quem são, e Virgílio responde com o nome. O poeta mantuano fica como quem vê de repente algo diante de si e diz "é... não é", baixa as sobrancelhas, volta humilde e o abraça no lugar em que o menor se agarra ao maior:

«O gloria di Latin», disse, «per cui / mostrò ciò che potea la lingua nostra, / o pregio etterno del loco ond’ io fui, ó glória dos latinos, disse, por quem a nossa língua mostrou o que podia, ó louvor eterno do lugar de onde fui.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

O patrício virou discípulo. Sordello pergunta se Virgílio vem do Inferno e de qual claustro, e ouve que ele passou por todos os círculos movido por uma virtude do céu. Quando Virgílio lhe pede um indício do lugar em que o Purgatório começa de verdade, ele responde que lugar certo não há posto, que é lícito ir para cima e em volta e que acompanha Virgílio como guia até onde pode. O dia declina, e de noite não se sobe:

E ’l buon Sordello in terra fregò ’l dito, / dicendo: «Vedi? sola questa riga / non varcheresti dopo ’l sol partito: / non però ch’altra cosa desse briga, / che la notturna tenebra, ad ir suso; / quella col nonpoder la voglia intriga, vês? só esta linha não passarias depois que o sol partiu: não porque outra coisa desse empecilho a ir acima, senão a treva noturna; ela, com o não poder, embaraça a vontade.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

É a lição de um guia que explica um limite como impotência, não como proibição. Sordello leva os dois a um flanco do vale, num colo da encosta onde esperarão o novo dia, e de lá aponta as almas sentadas sobre a relva. Diz que não descerá com eles entre as sombras, porque do saliente os poetas as conhecerão melhor, e as nomeia uma a uma: o imperador Rodolfo, que podia sanar as feridas que mataram a Itália e não o fez, Ottacchero e seu filho Vincislao, e os que a tradição dos comentadores identifica pelo traço: Filipe III da França, Henrique de Navarra, Pedro de Aragão, Carlos de Anjou. A regra que fecha a lista desfaz a ideia de que a virtude passa de pai a filho:

Rade volte risurge per li rami / l’umana probitate; e questo vole / quei che la dà, perché da lui si chiami, raras vezes ressurge pelos ramos a probidade humana; e isto quer aquele que a dá, para que dele se peça.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

No canto VIII do Purgatório ao anoitecer Sordello propõe descer entre as grandes sombras para falar com elas, e Dante encontra Nino, o juiz. Quando a serpente chega, Sordello puxa Virgílio para si e aponta o inimigo: é ele quem avisa o perigo, e os anjos que vieram do seio de Maria, de espadas sem ponta, já postados desde o anoitecer, se movem para guardar o vale. Fora de cena, no canto IX do Purgatório, Virgílio conta a Dante que Sordello e as outras sombras ficaram no vale quando Luzia veio buscar o adormecido.

Temas que encarna

Sordello encarna a Política da cântica antes de qualquer teoria dela. O que é dito sobre a Itália no canto VI nasce de uma cena: dois mantuanos que se abraçam pelo nome da terra enquanto os vivos que a habitam se roem uns aos outros. O canto VII transforma a cena em exame dos príncipes que não souberam ser sela nem freio, e o critério é o mesmo que atravessa a parte inteira, o que cada um deixou de fazer enquanto podia. A Redenção aparece nele pelo avesso: o altivo se abaixa ao ouvir um nome, o patrício vira discípulo, e a lição do vale dos príncipes, de que a probidade raramente ressurge pelos ramos, lhe cabe dizer porque a vê melhor.

O poema põe Sordello entre os dois poetas como mediador de pátria: ele se levanta pelo nome da terra comum e se abaixa pelo nome do poeta que a terra deu. Não explica nem teoriza; mostra um vale e traça uma linha.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras do abraço do canto VI. Na primeira, é a prova de que a pátria ainda comove, e que à Itália viva falta o que os mortos têm, o afeto entre iguais. Na segunda, é o contraste que a invectiva usa contra os vivos: se os mortos se abraçam pelo nome da terra, por que os que a habitam se matam? O canto dá as duas, e Dante usa a segunda. O canto VII acrescenta uma terceira camada: o abraço do discípulo é diferente do do patrício, e o poema deixa claro qual dos dois Sordello dá a Virgílio quando sabe quem é.

Relações

  • Virgílio: o patrício que ele abraça e o poeta que reconhece como glória dos latinos.
  • Dante: o vivo a quem Sordello indica o vale e a quem avisa da serpente.