Clavis Libri

Tema em Purgatório

Política

A vida da cidade e do Estado: governo, regime, ideologia, democracia, tirania de Estado, nação.

O tema na obra

A política no Purgatório não é um desvio da cântica, é a face pública do mesmo desejo mal dirigido que a montanha cura nas almas. O poema a trata em três escalas: a Itália, as dinastias e a Igreja, e as junta numa pergunta, quem responde pelo mundo perdido. A primeira escala é a da Itália. Sordello e Virgílio, mantuanos que se abraçam pelo nome da terra, disparam em Dante a invectiva mais famosa da cântica, que chama a Itália de serva, nau sem timoneiro, não senhora de províncias. A Itália é uma montaria indomada, o Império é a sela e as leis de Justiniano são o freio, e de nada vale o freio sem quem monte:

Che val perché ti racconciasse il freno / Iustinïano, se la sella è vòta? / Sanz’ esso fora la vergogna meno, de que vale que Justiniano te consertasse o freio, se a sela está vazia? sem ele a vergonha seria menor.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

A invectiva se volta a Florença, que muda leis, moeda, ofícios e costumes tantas vezes que se parece com a enferma que, sem achar repouso nas plumas, se vira na cama para esquivar a dor.

E se ben ti ricordi e vedi lume, / vedrai te somigliante a quella inferma / che non può trovar posa in su le piume, / ma con dar volta suo dolore scherma, e se bem te lembras e vês luz, verás que te pareces com aquela enferma que não acha repouso nas plumas, mas, virando-se, afasta a dor.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

A segunda escala é a das dinastias. No vale dos príncipes, Sordello aponta o imperador Rodolfo, que podia sanar as feridas da Itália e não o fez, e fecha a lista com a regra que desfaz a ideia de virtude herdada:

Colui che più siede alto e fa sembianti / d’aver negletto ciò che far dovea, / e che non move bocca a li altrui canti, / Rodolfo imperador fu, che potea / sanar le piaghe c’hanno Italia morta, / sì che tardi per altri si ricrea, aquele que mais alto está sentado e parece ter negligenciado o que devia fazer, e que não move a boca aos cantos dos outros, foi Rodolfo imperador, que podia sanar as feridas que mataram a Itália, de modo que tarde por outros ela se recria.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde
Rade volte risurge per li rami / l’umana probitate; e questo vole / quei che la dà, perché da lui si chiami, raras vezes ressurge pelos ramos a probidade humana; e isto quer aquele que a dá, para que dele se peça.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

No canto XX é Hugo Capeto, fundador da casa reinante da França, quem se apresenta como a raiz da planta má que toda a terra cristã ensombra, e quem vê em Anagni o ultraje ao papa como nova paixão de Cristo:

Io fui radice de la mala pianta / che la terra cristiana tutta aduggia, / sì che buon frutto rado se ne schianta, eu fui a raiz da planta má que toda a terra cristã ensombra, de modo que dela raramente se colhe bom fruto.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza
Perché men paia il mal futuro e ’l fatto, / veggio in Alagna intrar lo fiordaliso, / e nel vicario suo Cristo esser catto. / Veggiolo un’altra volta esser deriso; / veggio rinovellar l’aceto e ’l fiele, / e tra vivi ladroni esser anciso, para que menos pareça o mal futuro e o passado, vejo em Anagni entrar a flor-de-lis e no seu vigário Cristo ser preso. Vejo-o outra vez ser escarnecido; vejo renovarem-se o vinagre e o fel, e ser morto entre ladrões vivos.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

A terceira escala é a da Igreja. Marco Lombardo põe a causa do mundo perdido no governo e na mistura dos dois poderes de Roma:

Soleva Roma, che ’l buon mondo feo, / due soli aver, che l’una e l’altra strada / facean vedere, e del mondo e di Deo. / L’un l’altro ha spento; ed è giunta la spada / col pasturale, e l’un con l’altro insieme / per viva forza mal convien che vada;, Roma, que fez o bom mundo, costumava ter dois sóis, que faziam ver um e outro caminho, o do mundo e o de Deus. Um apagou o outro; e a espada se juntou ao báculo, e um com o outro, juntos, por força viva forçosamente vão mal.
Cantos XIII a XVI: Inveja e ira

E conclui, com a aprovação de Dante, que a Igreja de Roma, por confundir em si dois governos, cai na lama e suja a si e à carga:

Dì oggimai che la Chiesa di Roma, / per confondere in sé due reggimenti, / cade nel fango, e sé brutta e la soma». / «O Marco mio», diss’ io, «bene argomenti; / e or discerno perché dal retaggio / li figli di Levì furono essenti., dize, pois, de agora em diante, que a Igreja de Roma, por confundir em si dois governos, cai na lama e suja a si e a carga. Ó meu Marco, disse eu, bem argumentas; e agora discirno por que da herança os filhos de Levi foram isentos.
Cantos XIII a XVI: Inveja e ira

A cena final do tema é a visão do carro no Éden, coberto de penas e transformado em monstro com uma prostituta e um gigante, e a profecia obscura de Beatriz, que pede um enviado de Deus.

Sicura, quasi rocca in alto monte, / seder sovresso una puttana sciolta / m’apparve con le ciglia intorno pronte, segura, quase fortaleza em alto monte, sentada sobre ele uma prostituta solta me apareceu, com os olhos prontos em volta.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Quem o encarna

Sordello é a pátria que se abraça e os príncipes que se julgam. Marco Lombardo é a doutrina dos dois sóis. Forese Donati é a Florença do futuro, no animal que arrasta o irmão. Beatriz é a profetisa do enviado.

Onde aparece

  • canto III: Manfredi conta que a maldição da Igreja tirou o sepulcro aos seus ossos, e que o pastor de Cosenza, mandado por Clemente, não leu bem a face de Deus.
  • canto VI: Dante, depois do abraço de Sordello e Virgílio, acusa a Itália, o imperador Alberto, a Igreja e Florença na mesma invectiva.
  • canto VII: Sordello aponta os príncipes do vale, de Rodolfo a Guiglielmo, pelo que fizeram ou deixaram de fazer, e fecha com a regra de que a probidade raramente ressurge pelos ramos.
  • canto VIII: Currado Malaspina profetiza que a opinião cortês de Dante sobre a casa dele será cravada na cabeça com cravos maiores, em sete anos, se o julgamento não se detiver.
  • canto XIV: Guido del Duca percorre o vale do Arno e a Romanha nomeando casas e lugares em que quem foi bom morreu ou partiu, e os que ficam geram filhos piores.
  • canto XVI: Marco Lombardo diz que Roma tinha dois sóis, o do mundo e o de Deus, e que a espada se juntou ao báculo e os dois vão mal.
  • canto XX: Hugo Capeto denuncia a rapina de seus descendentes, dos Carlos que vieram à Itália ao ultraje ao papa em Anagni, e vê Cristo preso no vigário.
  • canto XXIV: Forese avisa a Dante que aquele que mais tem culpa pela ruína da cidade é levado à cauda de uma besta rumo ao vale onde nunca se desculpa.
  • canto XXXII: Dante vê o carro da procissão ser ferido por uma águia, tomado por uma raposa, emplumado e transformado em monstro com uma prostituta e um gigante.
  • canto XXXIII: Beatriz profetiza um enviado de Deus que matará a ladra e o gigante, num número que ela mesma chama de obscuro.

Onde as leituras divergem

Uma leitura crítica vê no poema uma obra de expressão pessoal e põe o lirismo no centro vital da obra, de modo que a política de Dante aparece como paixão e não como programa.

O texto sustenta duas leituras dos dois sóis. Na primeira, é nostalgia de um Império que um dia funcionou. Na segunda, é um ideal de poderes separados que o verbo no passado apresenta como já vivido. A mesma dúvida atravessa a profecia do cinco-dez-cinco: ela pede um enviado, mas a obscuridade que Beatriz cultiva deixa o leitor sem saber se o mundo será corrigido por um homem ou por um tempo.