O tema na obra
O perdão no Purgatório tem três direções, e o poema as mostra todas antes de chegar à de Dante. A primeira é a do perdão de Deus a quem se volta no último instante. Manfredi, excomungado, ferido por duas pontas mortais, diz que os seus pecados foram horríveis e que a bondade infinita tem braços tão grandes que toma tudo o que se volta para ela. A mesma lógica sustenta os mortos à força do canto V, que pecaram até a última hora e foram salvos porque uma luz do céu os fez dar-se conta. O poema liga o arrependimento ao perdão que eles dão, e a frase que os resume é de reconciliação com o inimigo:
Noi fummo tutti già per forza morti, / e peccatori infino a l’ultima ora; / quivi lume del ciel ne fece accorti, / sì che, pentendo e perdonando, fora / di vita uscimmo a Dio pacificati, / che del disio di sé veder n’accora, nós fomos todos mortos à força, e pecadores até a última hora; ali uma luz do céu nos fez cair em si, de modo que, arrependidos e perdoando, saímos da vida pacificados com Deus, que nos aflige com o desejo de vê-lo.
E a cena de Bonconte é a mais arrojada: um anjo e um demônio disputam sua alma por uma lágrima pequena, e é essa pequenez que escandaliza o diabo.
Bonconte de Montefeltro, salvo por uma lágrima (canto V). Ferido na batalha de Campaldino e morto em fuga, junto ao Archiano, o corpo nunca encontrado, Bonconte conta como um anjo disputou sua alma com um demônio no instante da morte, numa cena que inverte a lógica do peso: não é o tamanho da vida que decide, é o instante final, e por isso o demônio se vinga arrastando a chuva para levar o corpo, já que não pode levar a alma:
l’angel di Dio mi prese, e quel d’inferno / gridava: “O tu del ciel, perché mi privi? / Tu te ne porti di costui l’etterno / per una lagrimetta che ’l mi toglie, o anjo de Deus me tomou, e o do inferno gritava: ó tu do céu, por que me privas? tu levas deste o eterno por uma lagrimazinha que mo tira. A lágrima é só pequena, e é a pequenez, não a sinceridade, que faz o escândalo do demônio.
A segunda direção é a do perdão que os vivos conseguem aos mortos pela oração. Todas as almas do Antepurgatório pedem a Dante a mesma coisa, que se lembre delas, e a pergunta de Dante a Virgílio é se isso dobra o decreto do céu. A resposta nega a contradição:
Ed elli a me: «La mia scrittura è piana; / e la speranza di costor non falla, / se ben si guarda con la mente sana; / ché cima di giudicio non s’avvalla / perché foco d’amor compia in un punto / ciò che de’ sodisfar chi qui s’astalla, a minha escrita é clara; e a esperança dessas almas não falha, se bem se olha com a mente sã; pois o alto do juízo não se rebaixa porque o fogo do amor cumpra num instante o que deve satisfazer quem aqui se instala.
O exemplo mais cheio é o de Forese, que foi tirado da encosta da espera pelas preces de Nella. A terceira direção é a do perdão que se pede: a humilhação de Provenzano Salvani, que se plantou no Campo de Siena e tremeu em todas as veias para tirar o amigo da prisão, e a mansidão das visões da cornija da ira, a oração do jovem apedrejado pelos seus perseguidores. O poema nunca diz que o perdão é fácil: o excomungado espera trinta vezes o tempo da presunção, e o que o encurta é a oração dos outros. A mercê, no Purgatório, também se conta em tempo.
Quem o encarna
Manfredi é o perdão recebido. Forese Donati é o perdão ajudado pela oração. Dante é o que o pede a Beatriz pela confissão. Virgílio é quem o transmite como explicação: a escrita dele é clara, e a esperança das almas não falha.
Onde aparece
- canto III: Manfredi diz que a bondade infinita tem braços tão grandes que toma tudo o que se volta para ela, e logo impõe a espera de trinta vezes a presunção aos excomungados.
- canto V: Os mortos à força dizem a Dante que se arrependeram e perdoaram antes de sair da vida, e Bonconte conta que um anjo lhe ganhou a alma por uma lágrima.
- canto VI: Virgílio responde à pergunta de Dante sobre a oração dizendo que o fogo do amor cumpre num instante o que a satisfação exigia.
- canto VIII: Nino pede a Dante que diga a sua Giovanna que reze por ele onde se responde aos inocentes, e duvida do amor da viúva.
- canto XI: Oderisi conta que Provenzano Salvani foi poupado da espera por ter se humilhado no Campo de Siena para resgatar o amigo.
- canto XIII: Sapia conta que só no fim da vida quis a paz com Deus e que a oração de Pedro Pettinaio, movido de caridade, lhe poupou mais atraso.
- canto XV: Dante vê em visão um jovem apedrejado que pede ao alto Senhor o perdão de seus perseguidores, com os olhos feitos portas para o céu.
- canto XXIII: Forese diz que a sua Nella, com preces devotas e suspiros, o tirou da encosta onde se espera e o libertou dos outros giros.
- canto XXXI: Beatriz exige a confissão de Dante, que responde com uma frase só, e Matelda o mergulha no Lete para que o pecado seja esquecido.
Onde as leituras divergem
O discurso de Manfredi põe lado a lado duas coisas que parecem se contradizer. A bondade infinita toma tudo o que se volta para ela, e quem morre em contumácia da Igreja espera trinta vezes o tempo da presunção. O texto sustenta duas leituras. Na primeira, a espera é parte da misericórdia, porque dá aos vivos um meio de ajudar quem partiu. Na segunda, é uma severidade de que a bondade infinita não precisaria, e o poema a faz dizer por um excomungado que sofre com ela. A ordem das frases, primeiro a bondade e depois a regra, deixa a primeira falar mais alto.
Provenzano mostra o outro lado do perdão. Foi poupado da espera por um ato de vergonha, e não por uma virtude duradoura, e o texto não diz quem decide que o ato basta. Duas leituras: a humilhação voluntária como mérito, ou como o que o poema cobra de quem tinha mais poder.