Clavis Libri

Personagem

Monsenhor Partanna

Quem é

Monsenhor Partanna é o bispo de Richieri, e o homem a quem Vitangelo Moscarda vai pedir proteção contra a interdição. Dizia-se na cidade que fora eleito por instâncias e maus ofícios de poderosos prelados de Roma, e que, depois de alguns anos à frente da diocese, ainda não conquistara a simpatia nem a confiança de ninguém (capítulo VI do Livro VII). Desce a pé do palácio, magro e embuçado, entre dois secretários, num lugar que se acostumara com o fausto do antecessor, Monsenhor Vivaldi, e com a carruagem de parelha de todos os bispos. O que ele quer é que o bispado seja obra, e não honra: despediu criados, cozinheiro e cocheiro, aposentou a carruagem e inaugurou a mais estrita economia numa das dioceses mais ricas da Itália. O que rejeita são os confortos: o fausto da corte, os doces e licores das freiras, o confessor particular. O que sabe é a letra dos deveres de cada um. Onde se engana, na leitura de Vitangelo: lê o caso dele como caso de consciência, e não vê que o problema é o ponto vital de um homem que não pode mais ser tido por usurário (capítulo VII do Livro VII).

Trajetória

No capítulo III do Livro VII, no corredor da Abadia, as freiras velhas acodem piando ao tiro do revólver, mas o que lhes mete terror não é a ferida: é que vai chegar Monsenhor. No capítulo IV do Livro VII Anna Rosa explica que sabia que ele visitaria as freiras da Abadia Grande naquela manhã, como costuma fazer todo mês, e que queria que Vitangelo falasse com ele a tempo de impedir a interdição.

O capítulo VI do Livro VII é o perfil. As freiras dos cinco mosteiros, menos as decrépitas da Abadia, o odeiam pelas ordens cruéis: nada de fazer ou vender doces e licores, nada de bordar, só meia, nada de confessor particular. Mais graves ainda foram as ordens a cônegos e beneficiados: a mais rígida observância de todos os deveres. Visita a diocese em carruagens de aluguel, burros e mulas. Vitangelo vê nisso o que lhe convém:

Un vescovo così non è comodo per tutti coloro che han voluto mettere fuori di sè il sentimento di Dio costruendogli una casa fuori, tanto più bella quanto maggiore il bisogno di farsi perdonare., um bispo assim não é cômodo para todos aqueles que quiseram pôr fora de si o sentimento de Deus, construindo para ele uma casa fora, tanto mais bela quanto maior a necessidade de se fazer perdoar.
Livro VII: O revólver e o bispo

O antecessor, benquisto e acomodatício, teria achado o modo de arranjar tudo, salvando o banco e a consciência, para contentar também Firbo, Quantorzo e os demais. Ele sente que já não pode se acomodar com ninguém:

Ora io sentivo che non potevo più accomodarmi nè con me nè con nessuno., eu sentia agora que não podia mais me acomodar nem comigo nem com ninguém.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo VII do Livro VII Monsenhor o recebe na vasta sala da antiga chancelaria, de teto afrescado coberto de pó, paredes de retratos de prelados sujos de mofo e dois janelões sacudidos pelo vento. Durante o discurso sobre escrúpulos de consciência, Vitangelo vê no terraço de uma casa em frente um homem que fugiu da cama com a ideia de provar a volúpia do voo, exposto ao vento, a coberta vermelha de lã voando em volta do corpo magro. Interrompe o bispo e o aponta, e Monsenhor responde, com um sorriso que faz as vezes de suspiro, que é um pobre louco, inofensivo, assim há tantos anos. Escapa a Vitangelo, sem querer:

Spontaneamente, proprio senza volerlo, mi scappò detto allora: - Come me., espontaneamente, sem querer mesmo, escapou-me então dizer: Como eu.
Livro VII: O revólver e o bispo

Monsenhor se sobressalta, e Vitangelo explica, com a cara plácida, que quer dizer inofensivo na opinião dos que o querem interditar. O bispo retoma os escrúpulos de consciência, que lhe parecem a ideia mais própria ao caso e a única a opor, com a autoridade espiritual, às manobras dos inimigos. Vitangelo não pode lhe dizer que o seu não é caso de consciência:

Il Dio che in me voleva riavere il danaro della banca perchè io non fossi più chiamato usurajo, era un Dio nemico di tutte le costruzioni., o Deus que em mim queria reaver o dinheiro do banco para que eu não fosse mais chamado de usurário era um Deus inimigo de todas as construções.
Livro VII: O revólver e o bispo

No fim, Monsenhor pergunta com ar solene se ele não quer instituir uma obra de caridade, e Vitangelo tem de responder que quer. O bispo toca um velho sininho de prata, chama um jovem clérigo e manda vir o cônego Dom Antonio Sclepis, diretor do Colégio dos Oblatos.

Temas que encarna

Monsenhor Partanna é o Deus e o divino no modo "de fora", o que tem a casa, os servidores e todos os poderes constituídos no mundo. Vitangelo o distingue do Deus de dentro, o do ponto vital que o riso de Dida feriu, e vai pedir a um o que o outro não pode ter: um álibi que nenhum Firbo ou Quantorzo ousará chamar de louco. O bispo austero faz esse papel melhor que o antecessor, porque não negocia, e é também o ponto em que o romance mostra o que a Loucura é para o poder: um enquadramento, não uma escuta. O louco do terraço é "inofensivo" porque está classificado há anos.

A sala empoeirada da chancelaria, os retratos de prelados cobertos de mofo e o vento nos janelões são a imagem da Igreja que o livro põe em cena: não a de um poder que ameaça, mas a de uma instituição cujo sentimento religioso foi posto fora de si, numa casa, e que por isso tem de ser visitada para pedir proteção. O bispo austero é o único da casa que quer o contrário, e é por ele que Vitangelo se interessa. O fecho do capítulo, com o sininho de prata e o cônego chamado, mostra que mesmo o bispo mais severo encaminha o caso para o aparato.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras do bispo. Na primeira, é um homem íntegro: despede o fausto, aposenta a carruagem, exige das freiras e dos cônegos o que exige de si, e a falta de simpatia da cidade, que sente a falta do antecessor, é o preço. É essa integridade que Vitangelo busca, porque um bispo assim "não é cômodo" para os que construíram a casa de Deus para se fazerem perdoar (capítulo VI do Livro VII). Na segunda, é o Deus de fora em pessoa: ouve o caso, vê o louco no terraço e o classifica, devolve ao paciente um escrúpulo de consciência que ele não tem e o encaminha, com solenidade, a uma obra de caridade, que é o preço de ter a proteção. Quem o lê pela segunda leitura vê um poder que só acolhe o que cabe na própria casa.

As duas leituras valem juntas, e o texto sabe disso: o mesmo bispo que fez dos hábitos da Igreja uma obra, e não uma honra, faz de Vitangelo uma obra, e não uma pessoa. A pergunta que a cena deixa é se existe, entre o Deus de dentro e o Deus de fora, alguém que ouça o primeiro sem enquadrá-lo. O livro responde com o último capítulo, em que a árvore e a nuvem falam por Vitangelo e nenhum interlocutor o enquadra.

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