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Personagem

O pai de Moscarda

Quem é

Francesco Antonio Moscarda é o pai de Vitangelo Moscarda, fundador do banco de Richieri, e nunca aparece vivo no romance: é um morto que o filho evoca, e a primeira imagem dele é a de um homem alto, gordo, calvo, de barba ruiva e espessa e olhos azulados quase vítreos, com no rosto um sorriso de ternura em parte compaixão e em parte zombaria (capítulo III do Livro III). Perdeu a mulher cedo e mandou construir uma casa para sair da casa cheia de lembranças, deixando-a sem terminar (capítulo II do Livro II). Tentou, com as boas e as más, fazer o filho concluir alguma coisa, e só o fez casar cedo, na esperança de um neto que não se parecesse com o filho (capítulo I do Livro I). Mais do que teme, suspeita: o sorriso que deixa ao filho lhe vinha também da realidade que os outros davam a ele, pai, e que ele adivinhava (capítulo V do Livro III). Sabe, ou suspeita, que a cidade o tem por usurário, e deixa ao filho o ócio e a fama sem nunca avisá-lo (capítulo VI do Livro III). Onde se engana, pela voz que o filho lhe empresta na visão: toma Vitangelo por um pobre ingênuo que vai atrás dos pensamentos sem fixar nenhum, e por isso lhe quis bem (capítulo III do Livro III).

Trajetória

No capítulo I do Livro I Vitangelo diz que o pai tentou, com as boas e as más, fazê-lo concluir alguma coisa, e só conseguiu que ele casasse, jovem, na esperança de um neto que não se parecesse com o filho. No capítulo II do Livro II mostra a casa que o pai mandou construir depois da morte da mãe, deixada inacabada, com o portão de arco sem porta, e que depois da morte dele as comadres da vizinhança tomam por pátio seu.

No capítulo II do Livro III o filho descobre que até o ócio que julgava seu dependia da riqueza do pai, e no capítulo III do Livro III o pai lhe aparece, evocado, com os olhos azulados e quase vítreos de sempre. O sorriso vira um esgar frio e escondido, e o filho olha as mãos de pelos ruivos, os anéis, o alfinete grosso na gravata, a corrente do relógio: ouro demais. O pavor que se segue é o de necessidades que ninguém escolheu:

Fu un attimo, ma l’eternità. Vi sentii dentro tutto lo sgomento delle necessità cieche, delle cose che non si possono mutare: la prigione del tempo; il nascere ora, e non prima e non poi; il nome e il corpo che ci è dato; la catena delle cause, foi um instante, mas a eternidade. Senti ali dentro todo o pavor das necessidades cegas, das coisas que não se podem mudar: a prisão do tempo; o nascer agora, e não antes nem depois; o nome e o corpo que nos são dados; a cadeia das causas.
Livro III: O pai e os cem mil

No capítulo IV do Livro III o filho passa do "eu" ao "nós" e descreve o que acontece a todos os filhos quando veem o pai de fora, e o ponto de ligação entre os dois é o nascimento:

E sentiamo la nostra vita come lacerata tutta, meno che in un punto per cui resta attaccata ancora a quell’uomo. E questo punto è vergognoso., e sentimos a nossa vida como toda rasgada, exceto num ponto pelo qual ela fica ainda presa àquele homem. E esse ponto é vergonhoso.
Livro III: O pai e os cem mil

No capítulo V do Livro III o banqueiro das conversas de colégio é, para a cidade, um usurário. A pergunta que o filho formula põe o leitor no mesmo lugar:

Se vostro padre fosse boja, come si tradurrebbe nella vostra famiglia questo titolo per accordarlo con l’amore che voi avete per lui e ch’egli ha per voi?, se o pai dos senhores fosse carrasco, como se traduziria na família dos senhores esse título, para fazê-lo concordar com o amor que os senhores têm por ele e que ele tem pelos senhores?
Livro III: O pai e os cem mil

No capítulo VI do Livro III Vitangelo se pergunta se não é pior que o pai: o pai ao menos trabalhava, e ele só assinava. No capítulo I do Livro IV aparecem as outras faces do banqueiro: dava dinheiro a quem lhe pedia "pouco" e depois parava, e nenhum dos que ele sustentou o chamou de usurário com mais furor que Marco di Dio. No capítulo V do Livro IV o filho se separa dele diante de Quantorzo, ao avisar que não é seu pai:

T’avverto, caro mio, che non sono mio padre., aviso, meu caro, que não sou meu pai.
Livro IV: O primeiro experimento

No capítulo VI do Livro IV, sozinho no cubículo do armário, vê as mãos do pai, de cera, brancas, gordas, com anéis e pelos ruivos, tirando os papéis das prateleiras, e depois olha as suas e pergunta se elas pertencem só a ele:

Sì: erano quelle che io mi conoscevo. Ma appartenevano forse soltanto a me?, sim: eram as que eu conhecia. Mas pertenciam talvez só a mim?
Livro IV: O primeiro experimento

No capítulo I do Livro V Quantorzo responde a Firbo que o pai também teve os seus luxos de bondade e a ninguém ocorreu interditá-lo; Vitangelo vê o furo: o pai provou nos negócios que tinha a cabeça no lugar. No capítulo VIII do Livro V o banco leva o nome do pai, que o fundou, e o filho quer que seja tirado. No capítulo VII do Livro VII o cônego Sclepis lhe fala do pai como de alguém que fez tanto mal, e do pensamento dele como cilício para o filho.

Temas que encarna

O pai é a herança em pessoa: o corpo, o nome, a profissão e o dinheiro que Vitangelo julgava ter feito sozinho. Encarna o Dinheiro e riqueza como origem, e o título que lhe dão varia com quem fala: banqueiro para o filho, usurário para a cidade. É a Aparência e realidade aplicada a um morto, e o modo como o filho o lê no capítulo III do Livro III prepara a lição geral do romance, de que ninguém é um para todos.

O livro só dá a palavra ao pai dentro da visão do filho, e a figura dele é feita de relatos: o sorriso, as mãos, os anéis, os títulos. Isso o torna o personagem mais fixado de todos, o único a quem o filho nunca pode perguntar o que era. A cena do cubículo (capítulo VI do Livro IV) sugere que o preço dessa distância é que as mãos do filho ficam, por um instante, mais do pai do que dele. O aviso do capítulo V do Livro IV é antes de tudo o fim da tolerância que o pai tinha com Marco di Dio, mas o cubículo mostra que a separação não é só de conduta.

Leituras divergentes

O sorriso do pai se lê de duas maneiras, e o texto as deixa de pé. Na primeira, é a ternura de um homem que ama o filho, com a compaixão de quem sabe que ele não vai concluir nada e com a zombaria afetuosa de quem se diverte com isso. É o sorriso que o filho guarda como único legado vivo (capítulo V do Livro III). Na segunda, é o esgar frio e escondido que a visão revela (capítulo III do Livro III): a ternura é horrivelmente maliciosa, e o filho a lê agora como a de quem sabe o que a cidade pensa e se compraz com a ingenuidade dele. Quem lê pela primeira vê um pai que ama, quem lê pela segunda vê um usurário que sorri, e o próprio filho passa de uma a outra no espaço de um capítulo.

A diferença entre as duas leituras é o que se espera de um pai que empresta a quem lhe pede. Se o dinheiro que dava a Marco di Dio era ternura, o ódio de Marco é injusto; se era um modo de se divertir com a ilusão alheia (o texto diz que o pai se comprazia em favorecer essas ilusões, rindo do seu sorriso particular), o ódio tem razão. O texto sustenta as duas porque a cena de Marco, no capítulo I do Livro IV, mostra o pai dando, rindo e parando, e o que se sabe dele não decide entre generosidade e cálculo.

Relações