O que é
A árvore e a nuvem são o que sobra quando não sobra mais nome. Aparecem duas vezes no romance, e nas duas Vitangelo as usa para falar do que quer: no Livro II, a nuvem é o desejo atribuído ao leitor, o de não ter mais consciência de ser, como uma pedra ou uma planta; no Livro VIII, a árvore e a nuvem são o que Vitangelo Moscarda diz que é. Entre as duas aparições a árvore passa por outros estados: matéria da cadeira que range ao canto do pássaro na gaiola, planta aparada e penteada nas ruas da cidade, castanheiro que o vento agita no campo. O desfecho junta tudo numa frase de identificação, e é nela que o símbolo trabalha.
Onde aparece
No capítulo IX do Livro II, deitado na erva, olhando as nuvens e ouvindo o vento nos castanheiros, o leitor deseja, pela boca de Vitangelo, o que o romance vai levar a sério só no fim:
Ah, non aver più coscienza d’essere, come una pietra, come una pianta! Non ricordarsi più neanche del proprio nome!, ah, não ter mais consciência de ser, como uma pedra, como uma planta! Não se lembrar mais nem do próprio nome!
A resposta de Vitangelo desfaz o desejo na hora: se alguém diz "nuvens e vento", já reconheceu o que vê, e reconhecer é consciência. A nuvem não sabe que é nuvem; nem a árvore nem a pedra sabem dela, nem de si mesmas, e estão sós.
No capítulo VI do Livro II a árvore tinha sido outra coisa: a nogueira reduzida a cadeira, num capítulo em que o pássaro aprisionado e a nogueira se entendem, talvez, por um canto e um rangido:
Forse s’intendono, con quel canto e con questo scricchiolìo, l’uccello imprigionato e il noce ridotto seggiola., talvez se entendam, com aquele canto e com este rangido, o pássaro aprisionado e a nogueira reduzida a cadeira.
No capítulo XI do Livro II, entrando na cidade, Vitangelo mostra ao leitor as árvores do Corso di Porta Vecchia, aparadas e penteadas, de ar perdido, e imagina que talvez, para crescer, precisem de silêncio. Na praça da Olivella, todo ano a terra tenta retomar a praça com fios de erva entre o calçamento, e todo ano quatro ou cinco garis os arrancam. No capítulo II do Livro VIII, já convalescente, ele acaricia a penugem verde da coberta e vê nela um campo de trigo. E no capítulo IV do Livro VIII, ao fim do romance, o desejo do Livro II se cumpre pela via inversa:
Sono quest’albero. Albero, nuvola; domani libro o vento: il libro che leggo, il vento che bevo. Tutto fuori, vagabondo., eu sou esta árvore. Árvore, nuvem; amanhã livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Tudo fora, vagabundo.
O regime que mantém essa vida é um modo de olhar:
Volto subito gli occhi per non vedere più nulla fermarsi nella sua apparenza e morire. Così soltanto io posso vivere, ormai. Rinascere attimo per attimo. Impedire che il pensiero si metta in me di nuovo a lavorare, e dentro mi rifaccia il vuoto delle vane costruzioni., desvio logo os olhos para não ver mais nada se deter na sua aparência e morrer. Só assim posso viver, daqui em diante. Renascer instante a instante. Impedir que o pensamento volte a pôr-se a trabalhar em mim e dentro me refaça o vazio das vãs construções.
Os sinos da cidade, que chegam de longe, ele agora os ouve não dentro de si, mas fora, tocando por si: há quem ainda precise de pensar na morte e de rezar, e os sinos falam por eles. E a última frase junta o que o livro todo opôs:
Io non l’ho più questo bisogno, perchè muojo ogni attimo, io, e rinasco nuovo e senza ricordi: vivo e intero, non più in me, ma in ogni cosa fuori., eu não tenho mais essa necessidade, porque morro a cada instante, eu, e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa fora.
O que significa
A árvore e a nuvem são o contrário da casa. Onde a casa é matéria que o homem toma e forma, a árvore e a nuvem são o que existe sem construção e sem nome. O desejo do Livro II, de ser pedra ou planta, é recusado por Vitangelo com um argumento: quem diz "nuvem" já saiu do que queria. O Livro VIII o cumpre quando já não há quem diga, e por isso a identificação é radical: Vitangelo não observa a árvore, é a árvore, e amanhã será o livro que lê ou o vento que bebe. É o ponto em que a Identidade deixa de ser um problema para quem a procura, porque já não há quem procure.
Em O Falecido Matias Pascal, outro romance de Pirandello, Matias fica sem identidade e sem poder voltar a ela, e o que lhe resta é uma sombra de vivo. Vitangelo fica sem identidade e sem querer voltar a ela, e o que lhe resta é o instante. A diferença é que ele escolhe, ou aceita, a perda, e o texto não deixa claro se isso é libertação ou dissolução: a árvore que respira com folhas novas é uma imagem de vida, e é também a de quem não responde por nada. A cena do juiz, no capítulo II do Livro VIII, já mostrava a possibilidade com a coberta verde, e a pergunta se a coberta não lhe parece bela é o que Vitangelo oferece ao juiz no lugar de uma explicação.
Relações
- Temas-padrão: Identidade, Solidão e isolamento, Deus e o divino.
- Temas da obra: Identidade, Solidão e isolamento, Deus e o divino.
- Personagens: Vitangelo Moscarda.
- Símbolos vizinhos: a casa, a construção que o desfecho desmancha, e o espelho, que ele deixa de procurar quando passa a ser a árvore.