Clavis Libri

Símbolo

A casa

O que é

A casa é a imagem com que Vitangelo Moscarda explica ao leitor o que o homem faz com o mundo e consigo: tira as pedras da montanha, esquadreja-as, põe umas sobre as outras, e o que era montanha vira casa. O romance usa o objeto em várias escalas. Há a casa em que ele mora com a mulher, que o pai mandou construir depois da morte da mãe e deixou sem terminar, com um portão de arco sem porta. Há a casa vazia que ele doa a Marco di Dio. Há a casa onde nasceu, que cinco pessoas veem de cinco modos. Há a casa que os homens constroem para os sentimentos, a igreja. E há, no fim, o asilo em que ele passa a viver, onde não tem mais casa nenhuma.

Onde aparece

No capítulo II do Livro II, para provar que a realidade de cada um não tem para os outros mais consistência do que a fumaça, Vitangelo conta a casa em que mora: inacabada, aberta, com o pátio que as comadres da vizinhança tomam por seu depois da morte do pai, e um pequeno apartamento, feito dos cômodos do pai, alugado por Quantorzo a um velho que o acha imbecil.

No capítulo VI do Livro II ele pergunta ao leitor se viu construir uma casa, e faz a montanha responder que é montanha e não se move, desmentindo-a pelos carros de boi que já a levam:

Io - dice la montagna - sono montagna e non mi muovo. - Non ti muovi, cara? E guarda là quei carri tirati da buoi. Sono carichi di te, di pietre tue., eu, diz a montanha, sou montanha e não me movo. Não se move, querida? E olhe lá aqueles carros puxados por bois. Estão carregados de você, de pedras suas.
Livro II: O leitor e a casa

No capítulo VII do Livro II descreve o conforto que a casa dá ao leitor, e por que lembrar a montanha o irrita:

non più cose, ma quasi intime parti di voi stessi, nelle quali potete toccarla e sentirla quella che vi sembra la realtà sicura della vostra esistenza., já não coisas, mas quase partes íntimas dos senhores mesmos, nas quais podem tocar e sentir aquela que lhes parece a realidade segura da sua existência.
Livro II: O leitor e a casa

No capítulo XI do Livro II a imagem chega à forma plena, aplicada ao próprio homem:

L’uomo piglia a materia anche se stesso, e si costruisce, sissignori, come una casa., o homem toma como matéria até a si mesmo, e se constrói, sim senhores, como uma casa.
Livro II: O leitor e a casa

No capítulo VIII do Livro III ele leva cinco pessoas à casa onde nasceu: para quem mora num casebre é um belo palácio, para quem tem gosto artístico uma casa vulgar, para quem evita a rua por uma lembrança triste algo a olhar de través, para quem a olha com afeto um lugar querido, porque em frente morou a mãe dele, boa amiga da mãe de Vitangelo. O mesmo vale para ele, que nasceu ali:

Cinque imbecilli. Uno in ciascuno. Cinque imbecilli che vi stanno davanti, come li vedete da fuori, in me che sono uno e cinque come la casa, cinco imbecis. Um em cada um. Cinco imbecis que estão diante dos senhores, como os veem de fora, em mim, que sou um e cinco como a casa.
Livro III: O pai e os cem mil

No capítulo III do Livro IV, no cartório de Stampa, ele pergunta por uma casa vazia que é dele, e no capítulo VII do Livro IV faz a doação a Marco di Dio de uma casa na Via dei Santi, número 15, com dez mil liras para um laboratório. No capítulo II do Livro VI é a própria casa dele que se esvazia quando Dida sai, deixando ordem de recolher as coisas em baús e mandá-las à casa do pai. No capítulo V do Livro VII a imagem volta no Deus de fora, o que tem a casa e os servidores:

Non basta loro averli dentro, nel cuore, i sentimenti: se li vogliono vedere anche fuori, toccarli; e costruiscono loro una casa., não lhes basta tê-los dentro, no coração, os sentimentos: querem vê-los também fora, tocá-los; e constroem para eles uma casa.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo III do Livro VIII o plano de Sclepis dá a Vitangelo, em vez de casa, um catre no asilo de mendicância, e no capítulo IV do Livro VIII ele vive no campo, longe da cidade, sem nome.

O que significa

A casa é o símbolo da construção que dá forma ao que, sem ela, seria matéria solta. O homem se constrói, o leitor se constrói, o sentimento religioso se constrói, e cada construção é real enquanto o cimento da vontade e a constância dos sentimentos resistem. A casa é também o que mais pesa quando falta: o conforto do capítulo VII do Livro II, que dá ao leitor uma prova de existir, mostra o que Vitangelo perde quando a casa se esvazia no capítulo II do Livro VI e quando, no asilo, abre mão de tudo. Daí que o símbolo atravesse os temas da Identidade, do Dinheiro e riqueza e do Deus e o divino.

O romance dá à casa duas faces que não se resolvem. Numa, é obra do homem, o gesto de quem não aceita viver a céu aberto e inventa abrigo, e o bichinho que estofa a cadeira tem algo que o texto quase admira. Na outra, é prisão: o capítulo dos fatos, das formas e dos atos (capítulo VII do Livro III) trata a forma que se dá a uma vida como pena que não se pode deixar. Vitangelo vive a primeira quando constrói o argumento da casa para o leitor, e vive a segunda quando a casa dele é a de Gengè. O fecho do romance, que o põe sem casa, sem nome e sem forma, é lido como libertação ou como perda conforme se dê mais peso a uma face ou a outra.

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