Clavis Libri

Símbolo

O espelho

O que é

O espelho é o objeto em que Vitangelo Moscarda procura o que não encontra: o estranho que os outros veem nele e que ele nunca viu. Há o espelho da rua, onde ele se surpreende passeando e não se reconhece; o do armário do quarto, onde conduz o experimento de olhos fechados; os da casa inteira, diante dos quais faz caretas à espera de que a mulher saia; o espelhinho de Anna Rosa, onde ela estuda sorrisos; e, no fim, o espelho que ele deixa de procurar. O romance começa com um espelho, no qual o nariz é observado, e termina com a recusa dele. No meio, o objeto muda de função: instrumento de investigação, parceiro de brincadeira, ensinamento a outra pessoa, coisa a evitar.

Onde aparece

No capítulo III do Livro I, querendo estar só, Vitangelo repara que no escritório não há espelho e que ele precisa de um: não quer companhia nem silêncio, quer um objeto em que olhar.

Nel mio scrittojo non c’erano specchi. Io avevo bisogno d’uno specchio., no meu escritório não havia espelhos. Eu precisava de um espelho.
Livro I: O nariz e o espelho

No capítulo IV do Livro I, caminhando e conversando com Firbo, ele se surpreende de repente num espelho da rua, não se reconhece e vê um estranho passar conversando. Descobre então que diante de qualquer espelho a espontaneidade acaba.

Quando mi ponevo davanti a uno specchio, avveniva come un arresto in me; ogni spontaneità era finita, ogni mio gesto appariva a me stesso fittizio o rifatto. Io non potevo vedermi vivere., quando eu me punha diante de um espelho, dava-se como uma parada em mim; toda espontaneidade acabava, cada gesto meu me parecia fingido ou refeito. Eu não podia me ver viver.
Livro I: O nariz e o espelho

No capítulo V do Livro I faz caretas diante de todos os espelhos da casa para se apanhar em naturalidade, e descobre que a emoção verdadeira cessaria no instante em que ele a visse. No capítulo VII do Livro I, de olhos fechados, mãos adiante, vai até o vidro do armário, para levar ao espelho o corpo como se fosse o de um estranho, e formula o método que o romance usa para dizer o problema:

Il mio sforzo supremo deve consistere in questo: di non vedermi in me, ma d’essere veduto da me, con gli occhi miei stessi ma come se fossi un altro: quell’altro che tutti vedono e io no., o meu esforço supremo deve consistir nisto: não me ver em mim, mas ser visto por mim, com os meus próprios olhos mas como se fosse outro: aquele outro que todos veem e eu não.
Livro I: O nariz e o espelho

O corpo que aparece, depois do grito ao reflexo, não é de ninguém:

Chi era? Niente era. Nessuno. Un povero corpo mortificato, in attesa che qualcuno se lo prendesse., quem era? Nada era. Ninguém. Um pobre corpo mortificado, à espera de que alguém o tomasse para si.
Livro I: O nariz e o espelho

No capítulo II do Livro IV a loucura que o experimento lhe dá é descrita com a imagem do objeto: consciência fresca e clara, lúcida e precisa como um espelho. No capítulo III do Livro VI, na manhã seguinte ao empurrão em Dida, Vitangelo pisca um olho ao Moscarda do armário e o vê piscar de volta. Um instante depois o reflexo já é outro, também para ele:

Mi guardai allo specchio dell’armadio con irresistibile confidenza fino a strizzare un occhio per significare a quel Moscarda là che noi due intanto c’intendevamo a maraviglia. E anche lui, per dire la verità, subito mi strizzò l’occhio, a confermare l’intesa., olhei-me no espelho do armário com irresistível confiança, a ponto de piscar um olho para dar a entender àquele Moscarda ali que nós dois, por ora, nos entendíamos às mil maravilhas. E ele também, para dizer a verdade, logo me piscou o olho, confirmando o entendimento.
Livro VI: Dizer eu a quem

No capítulo VIII do Livro VII Anna Rosa estuda no espelhinho um sorriso piedoso e terno e o refaz para ele. Vitangelo reage dizendo que não é o espelho dela, e lhe ensina o que o objeto lhe custou:

Lei non vuole che il suo sentimento sia cieco. Lo obbliga ad aprir gli occhi e a vedersi in uno specchio che gli mette sempre davanti. E il sentimento, subito come si vede, le si gela. Non si può vivere davanti a uno specchio., a senhora não quer que o seu sentimento seja cego. Obriga-o a abrir os olhos e a se ver num espelho que lhe põe sempre à frente. E o sentimento, assim que se vê, congela dentro da senhora. Não se pode viver diante de um espelho.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo IV do Livro VIII, no asilo, ele não se olha mais num espelho e nem quer saber o que aconteceu com o seu rosto.

Non mi sono più guardato in uno specchio, e non mi passa neppure per il capo di voler sapere che cosa sia avvenuto della mia faccia e di tutto il mio aspetto. Quello che avevo per gli altri dovette apparir molto mutato e in un modo assai buffo, a giudicare dalla maraviglia e dalle risate con cui fui accolto., nunca mais me olhei num espelho, e nem me passa pela cabeça querer saber o que aconteceu com o meu rosto e com toda a minha aparência. Aquilo que eu tinha para os outros deve ter parecido muito mudado, e de um modo bastante cômico, a julgar pelo espanto e pelas risadas com que fui recebido.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

O que significa

O espelho é a máquina de reproduzir a tese do romance: ninguém se vê viver. Diante dele a vida pára, o gesto vira pose, e o que aparece é um corpo que podia ser de qualquer um, à espera de que alguém o tome. O que o torna símbolo e não apenas objeto é a mudança de relação de Vitangelo com ele. No começo é desejo (precisa de um, capítulo III do Livro I), depois ferramenta (caretas, experimento, capítulo V do Livro I e capítulo VII do Livro I), depois cumplicidade (o piscar, capítulo III do Livro VI), e por fim lição e abandono (capítulo VIII do Livro VII e capítulo IV do Livro VIII). A cada passo, o que o espelho devolve é a mesma coisa vista de outro ângulo: a imagem fixa que a Identidade exige e que a Aparência e realidade mostra não ser a pessoa.

O espelho é também o objeto da Solidão e isolamento: Vitangelo o busca para ficar só, e fica só justamente quando olha. O fecho do romance, em que ele nunca mais se olha, pode ser lido de duas maneiras. Numa, é o fim do medo: o homem deixa de precisar da prova de que ainda tem uma forma, e vive. Na outra, é a recusa de qualquer prova, e a vida que sobra é a de quem já não responde por um rosto. O texto sustenta as duas. A cena de Anna Rosa (capítulo VIII do Livro VII) liga o espelho à vida que não se vive, e a do capítulo IV do Livro VIII a mostra do avesso: quem não se olha também não se fixa.

Relações