O que é
O revólver é a arma pequena, de cabo de madrepérola, que Anna Rosa encontrou no colete do pai, morto seis anos antes, e que desde então leva consigo na bolsinha. Ela o achou um brinquedo, tanto mais gracioso quanto guarda em seu engenho o poder de dar a morte, e mais de uma vez, em momentos em que o mundo à volta se lhe fazia atônito e vão, teve a tentação de experimentá-lo contra si. Dispara duas vezes no romance: a primeira, por acaso, no corredor da Abadia, e fere o pé dela; a segunda, de sob o travesseiro, fere Vitangelo Moscarda no peito. É o objeto que traz ao romance a violência física no seu ponto mais alto.
Onde aparece
No capítulo III do Livro VII, no corredor da Abadia, Anna Rosa sobe um degrau sob o janelão, deixa cair a bolsinha, e um estampido ressoa no corredor. Ela grita pelo revólver, que quer de volta por ser lembrança do pai. Vitangelo a carrega nos braços até a casa dela, e o narrador, que sabe o fim, comenta com secura:
Mi toccò, poco dopo, risalire alla Badìa per riprendere dal corridojo sotto al finestrone quella rivoltella, che doveva poi servire per me., tive de, pouco depois, subir de novo à Abadia para retomar do corredor, sob o janelão, aquele revólver, que depois deveria servir para mim.
No capítulo IV do Livro VII, já na cama, ela explica como o encontrou e confessa a tentação de usá-lo contra si. O fato de ter mordido o pé e não a têmpora lhe causa um estranho desgosto, e ela o tira da gaveta do criado-mudo, olha-o e lhe diz que é má. Acrescenta que riu com vontade ao imaginar que alguém suporia que o trazia para ele ao marcar o encontro na Abadia.
No capítulo VIII do Livro VII, depois da lição sobre o espelho, Anna Rosa estende os braços a Vitangelo e o atrai. Pouco depois ele rola da cama, cego, atingido no peito pela arma que ela mantinha sob o travesseiro:
Da quel letto poco dopo rotolai, cieco, ferito al petto mortalmente dalla piccola rivoltella ch’ella teneva sotto il guanciale., daquela cama, pouco depois, rolei, cego, ferido no peito mortalmente pelo pequeno revólver que ela mantinha sob o travesseiro.
No capítulo I do Livro VIII, no primeiro interrogatório, ele dá ao juiz a versão do acidente: o revólver teria disparado quando ele tentava levantar a doente. A mentira, que ele julga obrigatória, é só a última parte da resposta.
Per me la bugia (bugia doverosa) era soltanto in quest’ultima parte della risposta; a chi m’interrogava apparve invece tutta quanta così sfacciata, che ne fui aspramente rimbrottato., para mim a mentira (mentira obrigatória) estava apenas nesta última parte da resposta; a quem me interrogava, ao contrário, ela pareceu toda ela tão descarada que fui asperamente repreendido.
Anna Rosa jura que não houve agressão nenhuma, só o fascínio que as considerações dele sobre a vida exerceram sobre ela, a ponto de a levar àquela loucura:
se Anna Rosa stessa non avesse assicurato con giuramento il giudice che non c’era stata veramente nessuna aggressione da parte mia, ma solo quel tale fascino involontariamente esercitato su lei con le mie curiosissime considerazioni sulla vita: fascino da cui ella s’era lasciata prendere così fortemente, da ridursi a commettere quella pazzia., se a própria Anna Rosa não tivesse assegurado ao juiz, sob juramento, que não houvera de fato nenhuma agressão da minha parte, mas apenas aquele tal fascínio exercido involuntariamente sobre ela pelas minhas curiosíssimas considerações sobre a vida: fascínio de que ela se deixara tomar tão fortemente que chegou a cometer aquela loucura.
O que significa
O revólver é o objeto que o romance arma cedo e dispara no fim, e o que ele mostra com isso é a distância entre o que se pensa e o que se faz. Vitangelo passa seis Livros a desmontar imagens, e o tiro que o atinge vem de uma imagem que ele não desmontou: a de um homem capaz de levar as coisas às últimas consequências, que Anna Rosa tinha dele. O tiro do corredor, por acidente, e o da cama, de propósito, formam um par: o primeiro fere quem traz a arma, o segundo fere quem lhe diz que conhecer-se é morrer. Nos dois, a arma é herança de um morto.
As duas versões do tiro, o acidente de Vitangelo e a loucura de Anna Rosa, são o romance em escala menor: a mesma ação, duas realidades, nenhuma falsa para quem a conta. O juiz as lê como mentira e confissão. O revólver é então menos símbolo de violência do que prova de que um fato só existe dentro de uma versão: a bala que fere o peito é a mesma, e quem foi atingido a descreve como acidente para poupar quem atirou. A maneira como Anna Rosa chama a arma de má, sem se incluir na acusação, pode ser a de quem entrega ao objeto a vontade que não assume. O objeto liga também os temas do romance: a Loucura, porque o narrador chama o ato de loucura ao contar o que ela jurou, a Solidão e isolamento, porque o tiro vem depois de os dois verem a solidão irremediável, e a Identidade, porque o horror dela é, talvez, o da vida inteira que ele lhe oferece para ser alguém como ela quisesse.
Relações
- Temas-padrão: Loucura, Solidão e isolamento, Identidade.
- Temas da obra: Loucura, Solidão e isolamento, Identidade.
- Personagens: Anna Rosa, Vitangelo Moscarda.
- Símbolos vizinhos: o espelho, que Vitangelo ensina a Anna Rosa a recusar pouco antes do tiro.